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folhasdeluar

folhasdeluar

O mandarim da obediência!

Nasceu de pais curvados e obedientes
enraizadamente submisso à regra imposta
não questiona a escancha aprumada.
sincronizado com a boçalidade
vive absorto e complacente com quem manda...
ostentando as míseras unhas encolhidas...


é o mandarim da obediência!

O mundo anda ganzado.

O mundo anda ganzado.
Um final apoteótico reclama os nossos aplausos
Que entoaremos já no fundo do abismo
Já bateram as três pancadas... mas o homem está desatento
Enquanto o dinheiro correr como um rio para a sua conta bancária
Disfarça o verbo e não quer falar do perigo...
Só quando os animais se tornarem monstros
Só quando os rios correrem fora das margens
E o seu leito ficar seco...E os peixes a apodrecerem...
Só quando as montanhas se puserem de cu para o ar
Então incansalvelmente os loucos acreditarão.
Depois já ninguém fará milagres...
O Cristo primitivo não terá adeptos...
Será como um padre besuntado de pecado
Um zunido inconsistente desaparecido da realidade.
Os campanários ficarão negros da cinza de Satanás
Desaparecerão as Cruzes...
Serão todas açambarcadas pelo homem para a sua crucificação...
Esqueceremos a quem rogar protecção
E só depois da tormenta nos lembraremos...
Que afinal...somos todos Cristos crucificados na Terra
Entretanto os satélites continuam a sua órbita impassível!

Complacentes com as dentadas da boca do tempo

Complacentes com as dentadas da boca do tempo
Somos como reflexos ferrugentos e distorcidos
Caveiras fantásticas feitas de vómitos bestiais
Restos de homem numa convulsão misteriosa.
Enroscados num estertor de vísceras esventradas
Castigamos o nosso próprio género
Com uma perversidade congénere à discórdia!

Gasto por tanto passado assente no presente

Gasto por tanto passado assente no presente
Vivo no limbo que desagrega o devaneio da realidade
Numa falsificante utopia vertiginosa de apagamento
Hóspede de mim... escolhi viver banal e singelamente
E não jorra de mim o menor anseio pelo mundo
Possuo uma cama,um fogão,uma cafeteira e uma panela
Porque tudo o resto é alucinação e frio fogo-fátuo...
Numa representação permanente de mim
Posso renegar tudo... menos o livre pensamento.
Vivo na bolha cristalina que me separa da miséria humana
Onde posso subjugar o tempo... e torná-lo utilizável
Enquanto outros me pensam enfadonho...
Cogito de mente amanhecida e planto-me de barriga para o ar
Deixando ficar o olho esquerdo de vigília ao mundo
Desenferrujo a mente passeando no meu reduzido quarto
E sobe-me uma taciturna fecundidade de ideias
Que guardo como um pecúlio num mealheiro de sementes
Expectando que cresçam...
Depois... esparjo-as como água benta colorida
Extraída da minha jazida pessoal de frases acumuladas
Recheando de magia a extensão branca das páginas
Que depois devoro com uma colher sôfrega e espantada
A seguir abro os braços abraçando o silêncio
E numa fantasia que cinge tudo o que me rodeia
Aperto num abraço o amigo dia, e...
Abro a janela...olho o rio...e,
Feliz... estreito nesses gigantes braços que tudo abarcam...
O peito e as costas da vida!

Não nos apaguemos como uma cova noturna

Vivemos numa miserável irrealidade
Recusamos a nossa pouca vida
Sem entendermos que ela é nossa pertença
E que podemos usá-la como aprouvermos
Ao acordarmos de manhã podemos rolar do colchão
Premir o botão e mudar de canal
Escolher o canal da Razão vertiginosa
Lá há sempre qualquer coisa realizável
Num sítio ou outro podemos ser nós.
Podemos viver estólidos..ou viver de imaginação
Deixemos o mundo tangível tilintar lá longe
Esqueçamo-lo como a uma imagem desfocada...
De memórias esquecidas...
E de contornos translucidamente inítidos.
Recorramos a essa imagem do mundo
Apenas como uma ideia guardada pela inutilidade
Das coisas que ostentamos na lapela como uma medalha
Ou que colocamos numa moldura
Estruturalmente voltada para a parede
Para que nos lembremos de a olhar ...de longe...
Paremos de catalogar sentimentos...amemos sofregamente...
E não nos apaguemos como uma cova noturna.

Soturnamente sós!

Estou em descrédito com esta turba

Colecciono letras no caderno das ideias
Rabisco-as como quem apanha azeitonas do chão
As letras são como silvas espinhosas,sombriamente arrojadas
Pego nelas com cuidado para que não me piquem
Depois...explodem em palavras...
Como uma composição musical...
Como um dever generoso para com elas...
Como se só vivessem se eu as libertar da prisão do meu cérebro
Fazendo-as voar em frases absurdas ao meu entendimento.
Grito-as com a caneta para despertar a letargia dos outros
Que aflito vejo começarem a cobrir-se de líquenes
Fremente e zaranzado de tristeza
Apetece-me dar-lhes verbais bofetadas
Para os despertar da brutidade da sua vida...
Mas para abrir cabeças é preciso paciência
E eu tenho a caneta romba e a tinta esgotada...
Enfim...estou em descrédito com esta turba.

Cólera requentada

Filho! Filho! Filho!
Chega-te p´ra lá...cheiras a mijo...agonias-me..
e eu tenho a cólera requentada.
Filho! Filho! Filho!
Porra ,não basta a merda da vida ainda tenho que aturar velhos
é pá fecha a tampa,
andas a cavar a tua cova desde que nasceste e ainda cá estás...
Filho! Filho! Filho!
Já te disse que os velhos deveriam ir para o eremitério
ficam lá sózinhos e cagam e mijam à vontade...
não cheiram a ninguém...
Filho! Filho! Filho!
Olha este...depois de me ter ensinado a andar
de me deixar encavalitar nele
de me levar à escola, agora quer que eu o abrace...
Filho! Filho! Filho!
Nem sei se sou teu filho e agora é tarde para fazer o teste do ADN...
Filho! Filho! Filho!
Pois é pai... a vida é fodida....