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folhasdeluar

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Como se admirassem uma orgia de pedras preciosas!

Percorremos noites...somos fogos... corpos...santos
Esmagamos os dias...fracos...laboriosos...
Cavalgamos os gelos e os olhos vagos...
Percorremos lugares sem honra nem glória...
Somos cavalos desferrados...consumindo os nossos cascos...no saibro da fatalidade...
Que desçam do espaço os caminhos do sol
Que se ergam as terras e as cidades...e os peitos de gelo...
Que se santifiquem os abraços que nos apertam até à morte
Degolados de prazer dorido...despidos...acesos...santos...
Rolemos na loucura...vermelha...negra...como cadáveres petrificados...
Que a manhã não seja apenas luz...nem a nossa voz abrace o céu...
Que a música floresça nas ruas escuras...e a sorte grite nas florestas...desertas...
Para onde iremos descansar o nosso passo trôpego e desumano?
Quem matará a memória dos lugares que percorremos?
Quem serão aqueles por quem passámos... e não nos viram...
Mas... que comeram ao nosso lado...as chamas e o fumo...
E que espelhos gritarão que viram tesouros...
Nos olhares reflectidos nos relâmpagos faiscantes da nossa vontade...
Como se admirassem uma orgia de pedras preciosas!

Os peditórios...e o trauma da minha vida...

Nesta quadra pré natalícia a qualquer lado onde se vai lá estão umas senhoras com uma bancazinha a impingir pinchavelhos para ajudar as mais obscuras entidades...não tenho nada contra isso...nem a favor, mas...irrita-me o olhar que transparece delas quando digo que não dou...é um olhar que diz que um tipo tem o coração mais empedernido do mundo...e vem-me sempre à memória uma história que se passou comigo à mais de trinta anos. Nessa altura tinha eu cerca de dezoito anos e vivia numa cidade onde havia o mercado municipal, às sextas de manhã era um dos dias de maior movimento e iam para a entrada do mercado umas prostitutas,( eram mesmo mulheres da vida), fazer um part time que consistia em pregar na lapela das velhotas( à má fila) um Cristo pendurado numa fitinha de cetim que por sua vez atava um alfinete, e também vendiam uns panfletos com a senhora de Fátima na frente e uma oração atrás, e diziam que era para ajudar crianças. Quando as idosas se negavam a dar dinheiro as tipas insultavam-nas. Certo dia,(eu já tinha assistido àquela cena mais vezes), resolvi ir dar uma de moralista, fui falar com elas e disse-lhes que estava mal insultarem as pessoas, e só dava quem queria...elas riram-se e disseram-me: - já que és um rapaz tão simpático e educado não queres comprar um Cristo? Olha até te oferecemos a Senhora de Fátima..eu disse que não e elas responderam : -e se fosses para o c..........lhinho., não ganhavas mais? e foi assim que fiquei com um trauma para a vida.....

Gosto de saber onde o meu dinheiro é gasto

Hoje é dia de ajudar o Banco Alimentar, eu já fiz a minha parte, aliás para além deste só contribuo para a Liga P. Contra o Cancro e para a CERCI...isto como entidades institucionais...mas o que me dá mesmo prazer é dar dinheiro aos vadios, bêbados e drogados..tenho uma espécie de afinidade com eles, chego mesmo a ir ao seu encontro e a dar-lhes sem me pedirem...gosto deles...e quando me dizem que não lhes devia dar dinheiro porque vão gastá-lo em álcool ou droga...eu respondo que lhes dou precisamente por isso...porque tenho gosto em saber onde o meu dinheiro é gasto....


Termino com umas palavras de Teixeira de Pascoaes:
Vês aquele velho mendigo,
esfarrapado e faminto, de porta em porta?
Repara nele; é Jesus Cristo!
Mas o pobre não sabe quem é.


E acreditem... é preciso coragem para se ser um imitador de Cristo....

Rasgados pelo roçar nas coisas sem importância...

Somos velhos livros com histórias imensas
Estrelas desbotadas..como a luz e a brisa matinal
Olhamos os corações através das palavras...
Escritas nas noites longas...em que morremos de medos.
Dissipamos o nosso olhar pelas estrelas
Entramos nelas como num palácio que não nos quer...
Reflectindo a nossa sombra em lagos acetinados e sombrios...
Escavamos com as mãos nuas a solidão...
Que nos entra porta adentro...sobe as paredes..poisa nas mesas de cabeceira
Selvagem.. como recordações rutilantes...
E nos abre um buraco silencioso nos lábios frementes...
Rasgados pelo roçar nas coisas sem importância...
Que lembram desenhos de antigos amores
E que beijam as portas das cidades...procurando nas vielas...
como letras ilegíveis...
A estrela que desponta...para nos alumiar!

Não existe um ar que respiremos...juntos...

O meu olhar poisa suavemente sobre ti
Brinca com o teu rosto junto à janela da tarde
Onde as tuas faces macias como penas...correm e riem transparentes...
Reparo que também tu és uma nuvem...
Que ambos pairamos sobre o desejo...como fumo ao cair da tarde
Que nos saudamos de uma janela distante...como um mastro no horizonte
Ou como uma prece peregrinando pela álea deserta de um bosque
E...que não existe um país que nos contenha
Não existe uma estrada que nos leve
Não existe um ar que respiremos...juntos...
Que não existe forno nem forma ...


Onde ardamos!

Deus envia os emissários das catástrofes...

Entro pelo magnifico portão do jardim do tempo...
Jovialmente aceno a Deus e ...sigo em frente...
Sou como um sino crepitando no Universo...
Sou o esplendor dos dias arrasados pela excitação.
Poiso o meu sabre doirado sobre a mesa da entrada...
E... sigo para sala onde os dias nascem...
Sento-me num sofá encarnado...e vejo lume por toda a parte...
Percebo que é o lume dos nossos corpos...que faz nascer os dias...
E por isso... é preciso sempre mais...e mais...e mais corpos...
Para alumiarem...dias...dias...e mais dias...
E quando os corpos começam a faltar...
Deus envia os emissários das catástrofes...

Que ardamos...consumidos de vida...

Renovado o dia em que a idade se desagrega nas sombras cavernais
Somos como vitimas comidas pelas horas...cruelmente desamparados...
E asfixiados pelo peso do olho Universal...
Somos como crianças sempre a tactear os lugares húmidos
Inflamamos as nossas consciências com fantasmas...
Porque é preciso honrar a nossa crueldade...e apaziguar os olhares...
Porque é preciso que o frio se entranhe nos nossos membros...
Porque é preciso que tremamos como a luz de uma vela...venerável...
E que nos renovemos nos dias...chama a chama...
E que ardamos...consumidos de vida...

Que ardamos...consumidos de vida...

Renovado o dia em que a idade se desagrega nas sombras cavernais
Somos como vitimas comidas pelas horas...cruelmente desamparados...
E asfixiados pelo peso do olho Universal...
Somos como crianças sempre a tactear os lugares húmidos
Inflamamos as nossas consciências com fantasmas...
Porque é preciso honrar a nossa crueldade...e apaziguar os olhares...
Porque é preciso que o frio se entranhe nos nossos membros...
Porque é preciso que tremamos como a luz de uma vela...venerável...
E que nos renovemos nos dias...chama a chama...
E que ardamos...consumidos de vida...

As horas dormem...clarividentes...

Esvoaçam em meu redor carícias perfumadas por prazeres cruéis
Prazeres lançados como açoites sobre frias recordações....sagradamente obscenas...
As horas dormem...clarividentes... sem remorsos...no teu regaço
E eu...sou um fantasma que te visita...de olhos fechados...
E me imolo... rodeado pelo teu fogo...