Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

folhasdeluar

folhasdeluar

Repentinamente percebi que me fazias mal

 


Repentinamente percebi que me fazias mal


Que tudo em ti me fazia mal


A tua língua misteriosa...a tua cativante vivacidade


A tua maré... que na vazante deixava em mim os vestígios da tua sombra


Os sulcos nos meus olhos que as noites não apagavam


O teu sorriso que eu colhia como um encanto desfigurado


O desejo imenso...o fabuloso espanto de te encontrar...


A necessidade de ser uma lembrança perene em ti


Até os meus sonhos ridículos de ouvir a tua voz...eram reais...


E mesmo no desencontro...o teu corpo emanava perfume de jasmim...


Os odores tinham cores... azuis, rosas, liláses....


O frio sepultava o meu coração na tua ausência


Até ao dia em que percebi...que me fazias mal...e parti!


 

Posso ser a liana que se enrosca em ti ou um jogo de corpo inacessível...


Sei que posso ser a corola da flor suicida... repleta de geada colorida...


Ou o travo que rasga a foto descabida...ríspida rua crivadas de corpos corroídos...


Sal dissimulado em grandes planaltos...líquido condecorado com medalhas de mel


Posso ser uma estatística....uma projecção triangular...um corpo que pernoita numa giesta


Um abismo que dorme ao relento...um jardim aflito...com veias feitas de águas geladas...


Posso ser uma boca repleta de espíritos desdentados...um sono ou uma dificuldade...


Posso ser a liana que se enrosca em ti ou um jogo de corpo inacessível...


Um poema ou uma espada...algo como uma respiração sonhada...em papel de seda


Uma folha morta no recanto do jardim...esvaindo-se em espinhos de sangue..póstumo lixo


Posso ser a larva que estanca a veia fresca..a fresta que se ergue da embriaguez..


A tâmara sanguinolenta que desfalece numa maravilhosa osmose de tempo imaginado


Posso ser o teu sabor a sussurros húmidos...a precipitações da alma...a naufrágio...


Posso ser a palavra que te corrói a alucinação...lentamente...lentamente...lentamente...


Até que o teu corpo embrulhado num algodão tecido carmim..acorde para mim!


 

Flores que se alimentam de janelas


Fico quieto a ver arder as ruas...a sonhar com o movimento das paredes...


A ver despenhar-se o sono...extinção atenta da imobilidade das almas....


Estrada improvável...caminho invisível...luz crua enroscando-se numa crueldade azulada


Ardo como se fizesse uma viagem vulcânica..uma recordação de mares desabitados...


Um travo a memórias arrefecidas...viajo..sou apenas mais um peregrino insone...


Como um interior a desfazer-se numa manhã despigmentada...


Sem porta nem janela para o tempo...temporário habitante de mim...girassol nocturno...


Passam flores insuspeitas...não as conheço...


Talvez sejam as flores envenenadas das laranjeiras....flores que se alimentam de janelas


Ou uma memória de corpo remoto a assombrar a rua...reflexo de veias doloridas...


Não quero mais entrar nesse reflexo lunar...nesse pensamento insano...nesse entardecer


Imobilizo-me defronte da tua memória...não avanço...esqueço-te...queimo o teu tempo


Num frenesim de vómitos mudos...espero que o cantar dos galos me desperte!


 

Cheios de finais felizes...


Fui a todos os tempos...visitei todos os braços...bebi em todos os ventres


Misturei o corpo com caminhos desfigurados...voei com os abutres... saí ileso...


Ocultei o meu corpo num mar chão...círculo polar atlântico...escutar de mim...


Sangrei sobre a terra só para a colorir...para ser um rasgar de pele...um deus indefeso


Era um tempo em que as aves não cobriam o rosto...e as cabeças não cumpriam horários


Existências de leitos em ruínas...pular de sentimentos...sacola vazia de razões...


Nas coisas inúteis cresce a ruína...no chão poisam as memórias...pensamos...somos nós


Despedaçamo-nos de encontro às ondas...subimos o inacessível delírio...somos margens


Caímos numa mistura etérea de absurda condenação...cautelas de corpos tombados...


Pés sujos...mãos em circuito fechado...arrombamos a vida...fazemos de conta...


Corpos frívolos acumulam-se em nós...prosápias de passos pensativos...prosas líricas


Cantarolar de ruídos surdos...arrastados chãos...praias ferventes...pequenas coisas


Dilatadas bocas ancestrais que beijam séculos...que comem amores...que beijam penas


Veremos os dias emergir mascarados de trigo...soberbos campos gregários....chuvas


Faremos de conta que somos frias luzes mirabolantes...mentiremos ao sol...


Escorreremos por entre os nossos dedos...com gesto de ondas largas...asfixia de marés


Por fim..calcaremos os protestos...construiremos uma longa oração...rezas sem sentido


E as lâminas salvar-nos-ão das cordas ao pescoço...os dias seguirão em nossa direcção


Até que os apanhemos numa curva apertada...como crianças sem sol...


Solenemente sós...converter-nos-emos ao fascínio dos uivos descontrolados...


Cheios de finais felizes...fartos de cidades molhadas...fecharemos o envelope da Vida!


 

Já nada de ti me resta...


Não é para ti que escrevo...não é por ti que que dissolvo...


És apenas um farejar longínquo...uma folha morta...uma lúgubre visão


És uma espécie de vala onde tomba o caos de um distante tempo...


O teu rosto já não cai dos céus...já não é o canto elegíaco da distância...


Já não és a celestial criatura que me afagava os espinhosos atalhos da amor..


Distraí-me de ti...rasguei as minhas asas de cera...


Já não sou o teu voo nocturno...sou agora o voo extinto...o desabraço...o vazio..


E tu...és a carícia em putrefacção...a profundeza do onde se esconde a solidão...


O olhar míope do fogo extinto...o cheiro que morre num derrame de águas turvas...


Já nada de ti me resta...talvez...talvez...sejas uma pedra que se mistura com sangue...


Ou um subterrâneo semeado de aves de rapina...onde vive uma absurda visão de ti...


 


 

Pergunto-me se vale a pena saber de ti!

 


Pergunto-me se vale a pena saber de ti...da tua morada..


Da sombra dos teus cabelos riscando o chão...de aspirar a tua alma como um fumo suave


Esgueiro-me por existências de granulados dias...sombra de luzes que apagaste


Escuro quarto...mãos aflitas...atalhos de cânticos que não escuto...pisaste o meu chão


Durmo numa desprovida cama...vazio... olhos descalços...peito que inventa o teu rosto


À luz de olhos espalhados sobre um nostálgico amanhecer...


Invento o clarão dos teus passos...digo que o tempo não me apagará..digo tantas coisas


Vejo os meus braços cruzados sobre uma algazarra de tempos vazios...não quero emergir


Quero esconder o meu corpo numa toca de chacal...conhecer todos os recantos...


Ter os pés vermelhos...a pele vermelha...ser um gregário atalho de mim...


Não sei porque quero ser assim...acuso-me de nunca ter visto os olhares vazios...


As cabeças inclinadas...as pálpebras vencidas...sou a minha própria acusação...


Sou a minha pele e o meu osso...a cabeça do acaso...um atalho indistinto...


Acho que tudo vale a pena...invento fotografias...risco o vazio...desenho-me...


Vergo-me ao império da rapina...sedutor subterrâneo desfigurado...


Semeio deuses em todo o lado...sem mar ou chão onde eu balance..indefesa cinza


Onde sangram ruínas de deveres embriagados...convicções de lençóis desalinhados...


Chão semeado de bocas vermelhas...plumas agitadas....máscaras derradeiras...


Pergunto-me se vale a pena saber de ti!


 


 

Catástrofes cintilam no céu azulado..


Catástrofes cintilam no céu azulado...amargas viagens extinguem-se na noite


Ardendo junto às persianas insones...recordações de lugares enroscam-se em mim


Arrefecem as manhãs..o sono cabe dentro de um segundo...imóvel e demorado...


Como um corpo quieto a arder num fogo de girassóis acabrunhados...


Esvai-se a memória...comem-se axilas que regurgitam flores lilases...é noite


O corpo percorre a longa estrada do corredor...réplicas de quadros espreitam...


Bosh sobressalta-se...Dali embirra com os relógios...eu...extingo-me....


 


 


 

Ensina-me a nascer do fogo...


Ensina-me a procurar o nome das feridas...o sono das pedras...um nome...


Ensina-me a nascer do fogo...a faiscar nas águas...a agonizar nos templos...


Recorda-me a escrita dos homens milenares...as nocturnas palavras perdidas na cidade


Acorda a minha imobilidade de espelho suicida..turvo sono de maresias inflamadas


Procura-me nos arabescos dos tectos...no turbilhão dos lagos...nas ilhas indecorosas


Leva-me...lava-me...deixa-me navegar num barco de pele...néon perdido nas esperas


Bicho destrambelhado que respira precipícios...ave que nasce de um fogo pálido...


Ruas que perfuram as mãos dormentes...


Onde imóveis aves respiram fumo...passeemos...


Sejamos os vagabundos do filme que desliza pelo cais..cair de pano...rumor de fotografia


O mar em sangue despede-se dos cometas...as vozes amanhecem...inconsistentes


Estamos definitivamente desabitados...explodimos na contaminação das palavras


Abrimos a janela...flutuamos na luz...temos fome...comemos sorrisos


Vibram ausências no quarto abandonado...ecos calcinados de seiva nocturna...seca...


A insónia arrefece...os girassóis emigram...os jardins pedem geografias fulgurantes


E nós fazemos promessas luminescentes...cintilações de nós...exílios de sono leve...


Circulando pelo ardor extinto dos nossos corpos explosivos....


 

Seremos ilusão e amor!


Barcos carnívoros descem rios imaginários...pedras filosofais sem qualquer préstimo


Uniformes que a alma veste...impudicos cavalos escorrendo baba...efeito do cansaço


E mesmo que as noites não nos abracem...desceremos a escada do tempo pedregoso


Como sombras vazias ao alcance do horizonte...sobreviventes náufragos em flor...


Imortais frutos de um pomar absurdo...gigantescas fábricas de sombrios sonos...


Desolação abraçada a um reino fantástico...residindo numa fantasia de crianças...


Julgaremos que as palavras cairão das nossas bocas..


Escorrendo sobre as paredes das casas ...moldando imagens em panos rotos...


Devoraremos vozes e choros...e toda a nossa vida será uma lágrima desfigurada...


Um imenso coração que cavalga um mar de espantos...seremos ilusão e amor!


 


 

Seremos ilusão e amor!


Barcos carnívoros descem rios imaginários...pedras filosofais sem qualquer préstimo


Uniformes que a alma veste...impudicos cavalos escorrendo baba...efeito do cansaço


E mesmo que as noites não nos abracem...desceremos a escada do tempo pedregoso


Como sombras vazias ao alcance do horizonte...sobreviventes náufragos em flor...


Imortais frutos de um pomar absurdo...gigantescas fábricas de sombrios sonos...


Desolação abraçada a um reino fantástico...residindo numa fantasia de crianças...


Julgaremos que as palavras cairão das nossas bocas..


Escorrendo sobre as paredes das casas ...moldando imagens em panos rotos...


Devoraremos vozes e choros...e toda a nossa vida será uma lágrima desfigurada...


Um imenso coração que cavalga um mar de espantos...seremos ilusão e amor!