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folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

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A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

As memórias o que são?

 


Ali estávamos nós..renascidos no aroma exultante das camélias


Talvez buscássemos a aura de um tempo perdido na penumbra


Talvez a face de uma distância desconhecida nos perseguisse


Mas noite...a noite não tinha nome


Era um corpo de pássaro voando em direcção às nossas mãos


Um barco sem mar balouçando na eternidade de nós


Seco...como uma rota perdida


Ligeiro..como um rosto puro vogando numa crina alada


E as memórias?


Ah! As memórias o que são?


São apenas pedaços incertos de viagens que nunca fizemos


 

Voltou a chuva...


Voltou a chuva...e as tardes que já não eram


Pela alma passa um arrependimento que arde...violento


E o grito é um caminho que nos esmaga...um sentir de angústia


E vem a noite...dobramo-nos sobre os nossos rastos


Estamos em paz..encolhidos dentro de nós..


O silêncio é um livro que abrimos na página passada


Somos relógios...irmanados num desejo de esquecimento


Tal como as horas que se desprendem de nós


 

Cântico 7

 


Nos moinhos que já não aproveitam o vento... vivem agora lagartos de côr azul e verde... Metálicos


Como o exílio geométrico de uma tarde em declínio...


Espalhada dentro de um céu cerúleo.


 

Aos pedintes basta-lhes serem-no


Veio-me à lembrança aquele rosto da rapariga ainda jovem, suja e de roupa esfarrapada, encostava-se às paredes da Estação de Santa Apolónia e enquanto outros vagabundos pediam uma moeda ela limitava-se a estar ali e nem sequer estendia a mão.


Eu dava-lha sempre uma moeda, ela nunca agradecia, nunca lhe ouvi a voz, nunca lhe ouvi o mais simples som, era apenas a sua presença muda que ali estava.


Percebi que não era preciso dizer nada, aos pedintes basta-lhes serem-no, a nós não nos basta darmos, é preciso que tenhamos olhos que vejam a tristeza.


 

A lua floriu!

 


Das flores pendem fios de seda...como aranhas enlaçadas na carne estrangulada


Cardos fiéis que juram cumprir promessas...como folhas de um tempo vestido de ausência


Tenho fome de marés...vogo num espelho que não diz a verdade...


Adormeço embalado pelo suco das papoilas...chegou o tempo das fontes e das cordas...


Estrangulo a tua ausência com olhos vagos...nus...e...fiéis ao tempo onde o mar dorme...


Partimos numa negridão silenciosa...porque na fulgurante descida do tempo inerte...


O nosso corpo é o centro do mundo.... e o coração é um jorro de folhas outonais...


Que placidamente nos dizem que a lua floriu!


 


 


 

É hora de calcorrear o espaço...


Nas frechas da maresia banham-se mistérios...olhares perfumados...pólens apetecíveis


Plantas aquáticas despontam nos corações...dormem nos ventos...cortam os pulsos


As casas escurecem...a luz apaga-se...os retratos ganham vida....o sono é uma dádiva


É hora de calcorrear o espaço...


E de abraçar as margens aflitas dos rios onde líquidas aves se banham...