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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

O estranho mundo das relações humanas

Já viajaram certamente num carro que segue por uma estrada estreita, se esse carro for cheio de ocupantes que conversam entre si, e se aparecer um camião que o condutor tem que ultrapassar, toda a gente se cala até que a ultrapassagem se efectue, esse silêncio é automático, não é pensado, é uma reacção ao medo da ultrapassagem que pode ser perigosa e é também uma forma que o nosso cérebro encontra para proteger o condutor de distracções. Essa é a mesma fórmula que o cérebro encontra para nos fazer calar quando vamos a dizer algo inoportuno, ou algo que pode ofender o outro, de repente, quando as palavras vão a sair..calamo-nos e pensamos se devemos ou não dizer o que queríamos, mas isto só acontece quando estamos em harmonia connosco e com os outros., porque se estivermos verdadeiramente zangados, todas as reacções são possíveis...mas, e se não tivéssemos essa faculdade inata de nos emendarmos a tempo de não ferir os outros? se fôssemos uns "desbocados" que dizem tudo o que lhes vem à cabeça sem pensar? O mundo das relações humanas seria melhor ou pior? Ou será que seríamos mais sinceros?

 

Março embacia os vidros..

 

São quatro da tarde...e nada acontece no lugar onde os crisântemos floriram

Talvez lá mais para a noite as horas despertem sobre as folhas murchas

E o amor inicie o jogo dos abraços e das utopias

Março embacia os vidros..os olhos já sentem o local onde corre o mel

Amplos frios desconhecidos assombram a terra..

Há muito que a natureza nos fala de esperança

Tanto nos faz agora que o paraíso nos confunda com deuses

E que a brisa sopre sobre o envidraçado dos olhares

Voltamos o rosto para o sol...sabemos ser gente que se renova com o calor

Não há limites para o cantar dos pintassilgos..nem para a eternidade fria do silêncio

Sob as fachadas os ombros descaem..como jogos perdidos de saudade

E as velas enfunam como arcos de papel colorido debaixo do céu azul-frio

Na luz desenham-se leis que fazem curvar o corpo..intactas como lanternas ulcerosas

Esqueçamos o jogo e a boca que sucumbe ao direito de falar

A boca que consente que o estio a cale..como se fosse a fonte seca das palavras

Sejamos o pródigo alimento da estrada...os pés descalços da esperança

A folha de palmeira que envolve o corpo em ardores de festa

Sejamos o reflexo das coisas sem reflexo..

A distância que se percorre num país sem distâncias

O alimento das coisas que se dissolvem numa maresia dissonante

Mas esta enorme falta de sentir...

Que não encontra resposta nos limites ensolarados dos dias

É apenas o papagaio de papel..que procura a grande lonjura das águas..

Que se renovam a cada trinado de granito...

 

 

É pena que não possamos medir ou pesar o prazer...

O prazer não tem forma de ser medido. Que quantidade de prazer tiramos de um chocolate, ou de um carro novo, ou de um passeio na beira-mar? Não sabemos, apenas sabemos que aquilo nos dá prazer. Mas e depois de comido o chocolate, de conduzido o carro ou findado o passeio o que é que nos resta do prazer? Nada acabou-se. Quanto ao carro muita gente sente prazer em olhar para ele, mas ao conduzir um carro novo a pessoa sente o mesmo prazer do que conduzir um carro já velho? Esse carro, que agora é novo também se irá transformar numa coisa velha,e então acaba-se o prazer de o conduzir? É por isso que nunca sabemos quantificar o prazer, porque o prazer que advém das coisas efémeras é também ele efémero, o que podemos é renovar o prazer, de cada vez vez que realizamos algo de que gostamos...mas seria interessante que pudéssemos saber o que nos dá mais prazer, poder pesá-lo ou medi-lo, se isso fosse possível, poderíamos estar sempre a fazer coisas prazeirosas, ou afastarmo-nos das coisas que nos magoam.

Já a arte, seja ela qual for é sempre uma fonte de prazer, e porquê? porque por mais que a contemplemos ela não perde a sua beleza, porque é uma beleza intemporal

 

Vivemos na tentação da Imortalidade

Entramos na vida atravessando uma porta
Depois passamos a vida a abrir portas ao acaso
Abrimos a porta do palco e,representamos...
Manipulados pelo grande Mistério
Quantas vezes nos encontramos
A representar o papel que não queremos?
A Vida toma conta de nós
Os Deuses gozam connosco
E se queremos parar...lá está o chicote dos dias...
Com espinhos na ponta...
Pronto a cravar-se na nossa alma
Não há muralha que nos defenda
Somos invisivelmente visíveis
Somos um caminho...uma forma de vida...
Nas mãos do Destino...
Que ordena a sua última vontade
Quando nos tranca a porta da vida.
Encerra-nos e lá ficamos...
Perante o desparecimento final
Fomos a árvore criada para alimentar a fogueira dos Deuses
E a continuação do Homem...
Ardemos em vida e depois na morte
Porque tememos o Inferno
E vivemos sempre na tentação
da Imortalidade!

Na manhã sussurrada pela aragem...

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Quantas plantas se lembram desses caminhos que vão dar ao cais?

Quantos vozes ficam imobilizadas no matagal da vida?

Quantos vidrinhos cintilam nos recantos dos segredos?

Vê-se mesmo que os olhares de hoje são bocejos...iguais aos de ontem

E que as histórias que o rio conta...são milenárias peles de homens sem voz

Por isso..na manhã sussurrada pela aragem...

Acordam os heróis de todos os dias...

Como uma longa memória que cresce para o mar

Afogam-se em instantes de agonia

Como fingimentos de epopeias sem oceano

Ou como recantos onde as verdades são eternas

Porque todos os dias a vida lhes dá a caneta

Para escrever os poemas que ficam esquecidos

No colorido desejo de serem homens...

 

Gostava de ter a resposta que procuras

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Gostava de ter a resposta que procuras

Gostava de te dizer que sou o caminho...

Ladeado por flores que irradiam aromas que desconheço

Gostava de te dizer que não sou a alucinação extraviada do meu sangue

E que debaixo da minha pele há cores e instantes de frio

Gostava de poder andar contigo e fazer parar os relógios..descansar...

Descansar dos instantes em que todos os recantos me visitam

E esquecer a nódoa que os espelhos teimam em inflamar

Gostava de te dizer que não sou o peso que faz agoniar as pálpebras

E que o meu coração é um instante esquecido no medo mudo da noite

Gostava de te dizer que os meus fantasmas são feitos de flores

E que os meus gestos não são mais que vagabundos à espera de ti

Porém posso dizer-te que o cansaço que me atordoa...

Nasce da luz que anoitece em meu coração

Gostava de te dizer que a cidade já não tem nome

E que nos becos Deus esqueceu-se de aquecer as sombras

Por isso sou apenas um desejo que não sabe onde fica a agonia

Porque a minha estrela é um coração ausente...

 

Ágeis dias correm sob a nossa pele..

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Ágeis dias correm sob a nossa pele...do olhar soltam-se espelhadas dunas

Os vestígios do nosso corpo dormem injectados na face da nostalgia

Nada nos prende aqui..nem o olhar...nem as mãos..

Nem as esquinas onde a vida caça seres abandonados

O teu corpo é um mar onde as vagas são vulneráveis tigres enjaulados

Ali... aniquilas a vontade de dividir os teus vestígios com a saudade

És um feroz deserto..um pequeno orvalho que coalha a alegria

Pergunto-me se a luz vagarosa ainda te prende ao meu destino

Ou se simplesmente desertaste para dentro de uma máscara veneziana

Olhando pasmada as esquinas do Grande Canal

Enquanto eu..me rendo ao temores do que não sei de ti...

 

 

O sonho comanda a vida?

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Toda a gente fala dos seus sonhos...ou dos seus objectivos...há até quem diga que o sonho comanda a vida. Claro que é preciso ter sempre metas, já que sem eles a vida seria o que afinal já é...um absurdo excêntrico. É por isso que resolvi reflletir sobre o que são os sonhos. Todos têm sonhos...ser ricos...fazer uma viagem...ter um grande carro..enfim coisas que ajudam a viver...mas quem sonha verdadeiramente são os artistas e os poetas e isso porque já têm o sonho dentro de si, não precisam de o procurar algures por aí nas coisas materiais..afinal o sonho não passa de uma busca incessante de nós mesmos...uns procuram-se no exterior....outros encontram-se consigo... bem dentro de si...

 

Por detrás de ti ...

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Por detrás de ti ...o deserto respira o absoluto frenesim dos falcões

E o teu rosto é agora a ágil ave que prolonga o seu voo no infinito.

Não queiras ser a rebentação insuportável das vagas

Repara que o silêncio é feito de estranhos sonos...

Onde há feras e coisas que te doem..

Despede-te delas como se estivesses dentro de uma nascente de cristal

Não deixes que as tuas pupilas durmam em frente ao espelho

Desperta no bafo das sílabas...a carinhosa rebentação das palavras

Não temas a terra que te toca as mãos...

Envolve-te nesse céu que os teus olhos inventam

E perfeitamente acordado..

Verás que não tens outra razão de existir...

Imagina...uma e outra vez..que a noite te envolve nas suas mãos de lâmina

E que as estrelas usam máscaras espessas

Para que a harmonia dos sonhos nunca se desvaneça...