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folhasdeluar

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olho os meus sapatos...

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olho os meus sapatos...penso..que valem uns sapatos?

a vida não se mede pelos sapatos..a vida mede-se pelo comprimento do mar

a vida tem o tamanho do pão que comemos..dos sons..dos odores

quero construir um tecto com palavras...penso na sorte de haver quem me escute

fantasmas povoam os meus olhos..

mas eu sento-me na minha irreal praia lusitana..junto uns pedaços de letras..e fecho os olhos

acho que a realidade é uma dor inútil..uma junção de equações...vírgulas e espaços em branco

há tantas coisas inúteis que juntamos dentro de nós...algumas são raras...outras...bem..outras são apenas passadeiras onde atravessamos para fugir das coisas que nos magoam

devia haver um sinal de stop em cada esquina...como se fosse um sinal para abrandar o pensamento

ou para continuar a fugir à lei do silêncio

o nosso drama....é que temos que olhar de frente para os dias..perguntar-lhes pelas manhãs de ressaca

hoje ninguém quer acreditar nos abismos...preferimos olhar para a insatisfação com olhos de sonhar

mas uma vida..é tudo o que conseguimos ter de nosso..e não é pouco...

apesar de tudo passamos pelo frio dos dias como quem vai para um banquete

embalsamamos a imagem de felicidade..amamos as ruas..percebemos que dentro de nós há uma criança desamparada

sentimos que há que fazer qualquer coisa...não ficar a olhar para os sapatos...

escrever sobre a sopa dos pobres já é alguma coisa...mas acreditar que Deus é uma fantasia...também faz parte de nós

eu que passeio a minha ingratidão pelos corredores... não esqueço que a morte está ali fora...inteirinha... à minha espera

e como quem não quer a coisa..disfarço-me de floco de neve...evoluo pelo ar..

é agora que me vou despedir da minha fraqueza de ser poeta..tiro os óculos..era bom que visse sempre as coisas desfocadas

será a realidade a desfocação da irrealidade? penso em tudo como se me visse dentro de uma caverna

nada disto é original...já Platão fez o mesmo...agora eu só quero que a rua não me atraiçoe

que não tropece..ou que merda de pombo não me caia em cima..sei lá..já me aconteceu uma vez

olho novamente para os sapatos...verifico os atacadores...é tempo de ser forte...

 

 

A banalização da imagem

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Nos nossos dias com a banalização da imagem, as fotos tomaram outro significado.As fotos já não são apenas registos de momentos especiais, hoje servem apenas para hipoteticamente deslumbrar os visitantes do facebook ou de outra qualquer aplicação. Vemos nas ruas pessoas a tirar fotografias freneticamente, não para mais tarde saborear aquele momento,mas para mostrar. Raramente o turista disfruta da paisagem, o turista chega, fotografa e vai-se embora, e possivelmente daquelas centenas de fotos que tirou apenas as verá uma ou duas vezes, porque a sede de fotografar continua, a sede de armazenar memórias está sempre presente, mas raramente se volta atrás, depois das férias há que mostrar e depois de mostrar, as fotos perdem o valor de memórias de dias felizes.

 

Meu percurso..meu sol.

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Meu percurso..meu sol..minha ilusão de ser pássaro

Minha concha onde deposito a memória das águas

Meu corpo fustigado por salinas..não cabe dentro do meu desconsolo

Lancinantes dedos..envelhecidos ventos..alma desarrumada no centro das sombras

Por cima de mim passam memórias..retratos...epicentros de rostos afastados

Dispersas redes anunciam voos imprevistos..resistências de chuva e areias

No abdómen do cansaço resiste o vislumbre de um olhar..de uma breve penedia...

De um tempo pesado a sorrisos..como chuva que improvisa o consolo dos solitários

A poeira vem de longe..ali e sempre o infinito..o tempo...a magia sem rumo dos rostos

Ali as mãos..aqui os olhos..o encanto das dálias a acenar breves despedidas

Itinerário uno de outrora..o sonho encosta-se ao bojo das fragatas

As cicatrizes desfraldam as velas e seguem suspensas na melancolia

E o rio..e o labirinto..a alma sem peso nem combustão...

Fluida como a gestação das plantas...inocente como uma pétala...mineral e inconstante

As nuvens trazem saudades...o mar acorda as guitarras...o corpo perde-se..

Ao longe...

 

Falta-me saber quais são os gestos frios..

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Descarnadas sementes descem do olhar divino

A madrugada trás-me o instante onde o silêncio agonia

De longe em longe anémicas chagas rondam a minha alma..

Disperso-me pelas alucinações do que me resta..ausento-me do meu nome..sei o que não sou

Há uma linguagem irreal à minha volta..sacra ou colorida por mansas espigas florescentes

Mas falta-me saber quais são os gestos frios...o irreal..o arrependimento

Procuro acordar dentro do meu suor..a minha mão chama-me..sou o instante apologético

O defensor das feridas..o espelho florescente das árvores...

Bem ou mal...a minha agonia vai de charneca em charneca...de ausência em ausência

Até um que dia uma bala me fira o espírito...e me faça descansar..

Obrigatoriamente...

 

 

 

Cambaleio dentro de um sonho..

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Cambaleio dentro de um sonho...não quero abrir os olhos...

Não quero ver o deserto...prefiro a tarde junto à enseada

O sal que bebo..desabrochou em milhentos lugares...a névoa refloriu

Deixa que me sente junto à tua pele..para que despertem em mim flores apaziguadas

E as minhas saudades renasçam nas estrelícias doiradas

Como uma charneca onde o mar é um desejo..e a tua casa um caminho matinal

Que eu percorro como um Adamastor do silêncio...

 

A imperfeição é a semente das ternuras

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Floresta..fonte...ínsua onde as conversas declinam

Lira melódica onde a carne se embebeda

A imperfeição é a semente das ternuras...a juventude uma embriaguês

Junto ao vento a terra é a seara onde o sol se recompõe...

A teia luminosa das palavras...é a corda por onde o suor escorre... lentamente..

A iconoclastia surda e muda das imagens embebeda as teias e as gotas translúcidas

Promessas...promessas e mitos..sorrisos e escombros..fêmea e cântaro feito de sorrisos

Posso dizer-te que há jaulas nas luas e que os lábios mendigam despojos de violinos

Pouco mais há a dizer..os palhaços enternecem..derramam sonhos como anjos louros

Quem sabe se o desgaste dos dedos não virá de uma musa florida?

Se os desejos são a sobrevivência dos caminhos solitários..

E os jardins são paredes onde a noite sonha com a monotonia dos dias

Possa eu tocar-te com a pontinha dos dedos...

E tudo será eterno...

 

 

As feras, as crianças e as artes...

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Um leão criado junto aos outros leões aprende a caçar e a matar para sobreviver.

Um leão criado junto ao ser humano torna-se um ser dócil...

Se um ser selvagem por natureza,se torna dócil em contacto com os humanos..porque é que o Homem quando se torna adulto se torna uma fera igual aos leões?

Só pode ser porque o ensino que ministramos às nossas crianças está errado...tal como o que nos foi ministrado...na verdade aprendemos a arte da guerra pela sobrevivência...quando seria muito mais fácil a arte da sobrevivência pelo amor...já os gregos antigos diziam que o ensino das crianças deveria começar pela música e pela ginástica, a seguir vinha o desenho e a pintura, e depois o resto...sem dúvida que o ensino deveria ter por base as artes porque são as estas que tornam melhor o ser humano...ou seja, são as artes que humanizam o Homem...

 

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