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folhasdeluar

folhasdeluar

De rosto voltado para a saturação do céu.

Na pálpebra penetrante dorme o azul longínquo

Margem feita de um dialecto estranho

Como um hibisco de tempo a desafiar o vazio.

 

Na planície de vento pássaros escorrem pela poeira

Rota de caravana plantada nos pés dos caminhos

Ali...uma sombra onde descansa o ventre do medo

Mais além...umas mãos sem idade .

 

É tarde...os punhos cerram-se numa palavra colossal

Dentro das mãos há uma alameda sem vontade de ver a noite

Dentro das mãos acordam várias perguntas

Como descer da varanda que dá para os dias sem idade?

Como enfeitar a pilastra de escolhos que floresce nas margens da luz?

Como beber a sombra açucarada dos destroços?

 

Na nítida noite uma sebe caminha pelo espaço branco

Avança para lá de todas as sombras... onde alguém se mostra...

Fechado... no interior de si mesmo.

 

Jardim fulminante...portão de água...muro comovente

Talude que cresce no fumo do futuro

Deixa-me enroscar nesta brisa de veludo...e...

Adormecer como uma pedra redonda

De rosto voltado para a saturação do céu.

 

A ordem das coisas

Aprendi que devo vencer-me mais a mim próprio do que aos outros.

Aprendi que devo procurar mudar mais os meus desejos que a ordem das coisas.

Aprendi que quando dou tudo o que tenho, que me esforcei o mais possível para realizar os meus desejos e não o consegui, era porque não estava nas minhas mãos fazê-lo, por isso não me arrependo de nada nem fico triste por não ter obtido algo de que gostava.

Cidade de pedra e segredo...

Bailam nos meus olhos imagens vazias como coisas sem utilidade

Vazias...como fotos de vidas guardadas em rugas estafadas

 

Cidade de pedra e segredo...

Degredo escondido num friso de tempo

Que nos enche os vincos dos olhos

Com transparências de solidão e prata.

 

Há uma profundidade mágica na janela de um soluço

Há um descolorir de gestos e vento frio

Que acompanha os degraus por onde sobem as ruas dos séculos

Até desaguar em lendas rotas que transpiram segredos.

 

Corro em bicos de pés como um fim de tarde abstrato

Os meus pensamentos demoram-se na perfeição do gelo

Do pó ergue-se a música fantástica de uma harpa em flor

E eu assomo ao dia com os meus olhos gelados.

 

Um adolescente é uma pessoa tecnológica

Perguntaram a várias crianças até aos 10 anos qual a sua definição de adolescente. As respostas foram unânimes - um adolescente é uma pessoa que passa o tempo agarrado a um telemóvel ou a um computador.

Eis aqui alguns comentários das crianças:

Quando vou à piscina com o meu primo, ele nunca dá um mergulho comigo porque está sempre agarrado ao telemóvel

Quando vou ao parque com a minha irmã, ela nunca brinca comigo porque está sempre agarrada ao telemóvel.

O meu irmão quando vem da universidade está até às seis da manhã agarrado ao computador.

E para mais a definição mais deliciosa: um adolescente é uma pessoa tecnológica, porque está sempre agarrado ao telemóvel ou ao computador.

Perante a definição/desabafo destas crianças fica-se a pensar no tipo de sociedade em que vivemos,a tecnologia que aproxima os que estão distantes, afasta os que estão perto, mas o problema  talvez ainda seja mais grave, porque ainda ninguém se lembrou de perguntar às crianças se se sentem sós porque os pais passam a vida agarrados ao telemóvel ou ao computador e se esquecem delas.

Nem todas as sombras se vão

Gelosias de nevoeiro dissimulam as cores paradas na margem do rio

Um himalaia de paz branca...espessa... cresce na órbita do silêncio

Assombrando as cravinas que descansam nos vasos rasos de barro

 

Nem todas as sombras se vão

Algumas agarram-se a nós com a cola feita de imagens desbotadas

Nem todos os erros se esquecem

Alguns ficam connosco como dedos de ferro a plagiar o destino

 

Se eu soubesse falar de mim

Diria que uma estrela me viu de cabeça para baixo

Que os meus olhos possuem todos os centímetros que os olhos podem possuir

Que morro de frio como um Universo que não cabe em si

E que a tua presença é a solidificação de todos os meus anseios

 

 

Se eu soubesse falar de mim

Diria que os dias se multiplicam por dentro das minhas veias

Que a felicidade consome o tempo da saliva

Que na minha boca cai a chuva que me molha por dentro

E que na espera de mim há uma lonjura de mar telescópico a entoar as frases das algas

 

Mas...eu não sei o que digo...não sei falar de mim...

 

 

Bailado

Bailam olhos nos cometas

Bailam rios bailam prados

Bailam até os soldados

Bailam as volúveis tetas

 

Bailam faces nos espelhos

Bailam inflexíveis farsas

Bailam faróis nos desenhos

Bailam agrestes as garças

 

Bailam pragas nas esquinas

Bailam silêncios nas mãos

Baila a tarde clandestina

Baila o olhar triste no chão...

 

 

 

Mãos

Olho para  o outro lado de mim... perco-me? Não!

Porque do outro lado de mim ainda posso ver este meu lado que agora está em outro lado.

 

Nunca conseguirei caminhar mais que os caminhos que há para caminhar

Nunca serei um rio sem foz atado a duas margens do tempo.

 

Para viver basta-me o sol do teu sorriso....para morrer basta-me o silêncio intransponível da tua ausência.

Pego com mãos de vidro nas flores que o vento borda.