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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

E ainda dizem que os portugueses é que são atrasados...

 

Nas escolas inglesas, e apesar de haver relógios pendurados na parede, os alunos, em dia de teste, perguntavam aos professores qual o tempo que lhes faltava para entregarem o teste. Os professores não percebiam a razão de ser daquele tipo de pergunta, uma vez que os relógios funcionavam e estavam bem à vista de todos. Um dia alguém lhes explicou que aqueles relógios eram de ponteiros e a rapaziada só sabia ver as horas em relógios digitais. Claro que o ministério da educação inglesa vai resolver o problema. Vai obrigar os alunos a aprender a ver a horas em relógios de ponteiros? Nããão!!!! Vai substituir, em todas as escolas, esses relógios que fazem com que os alunos não saibam controlar o tempo dos testes,por relógios digitais...apre...e ainda dizem que os portugueses é que são atrasados...

 

Fio de meada

 

Fio de meada sem fim

Bosque de gente sem alma

Austera fonte

Mitológica sombra a acenar ao esquecimento

Guitarra transparente... som de memória sagrada

Gente feita de silêncio...

Descalça segues pela obsessão do vazio...

De ti e da melódica harpa

Que encanta o tempo...que corrói o frio...

Ressaltam breves lendas

Em ti respiram branquíssimos sóis

Em ti incham as veias do mar

Por dentro de ti avança a fúria dos séculos

E pensas que o pensamento vive no labirinto

Onde os instantes são os remos de espelhos

Atentos à dissolução das memórias...

 

O barco negro...

 

O barco negro... traçou no medo

Um rasto incerto

Correu nas águas... marcou as ondas

Sorriu ao tempo... agreste tempo...

 

O barco negro... sulcou o medo

Olhou atento... o mar incerto

 

O barco negro... fugiu do medo

Olhou os astros... cortou a espuma

 

O barco negro... seguiu a rota

Esqueceu a morte...

 

O barco negro... era um pensamento

Era um silêncio... era uma pressa

De mar sem tempo...

 

Passo por ti...

 

Passo por ti... devagar

Passo por ti... por entre as luzes finas de uma tarde absorvente

Passo por ti... por entre a métrica de uma espuma que invento

Passo por ti... e fico... a ver-te... sem que o saibas

Sei que és aquele parco instante onde as minhas mãos se acomodam

E és também a janela por onde espreito as rotações do mundo

Olho o teu gesto que absorve o limiar das correntes

Olho a recta real... desatenta... dissolvida na lonjura de um tempo sem princípio

Abaixo-me e colho a flor rubra.... derramada pelas longas tiras do sol

Ofereço-me um pouco do teu caminhar

Descrevo-me em rostos que desconheço

Revejo-me na loucura das aves...sou uma ave... ou uma pétala rodeada de silêncio

Cavalgo pela inutilidade da esperança

Dentro de um cíclico galope... como calcasse uma trave mestra

Transformo-me num digno sucessor do Destino

Não sinto a inconveniente desesperança

Sou o fumo branco que se ergue na magia da tarde

Apenas porque sei.. .que amanhã... há mais um dia para colher....

 

 

Viagem

 

As minha pálpebras cerraram-se junto ao voo sinuoso das gaivotas

O tempo gravou em mim o espaço de uma sombra melancólica

Eu...levantei-me como quem cai sobre a ousadia de acordar desfeito

Mas... também sei que na superfície da esperança residem as sombras do amanhã

E mesmo que assim não fosse

E mesmo que no silvar dos sinos eu sentisse a imortalidade das coisas

E os pensamentos do mar desanuviassem a minha fome de alegria

Eu subiria a todas as vertentes do sonho

E descobria no cantar das velas brancas dos barcos

A viagem...o vértice....o paradoxo de ser semente de carne e osso

Que quer correr pelo rubro dos sonhos

Como um corpo despido da acidez dos dias

Que quer vogar na torrente sinuosa de uma imensa ferida

Que cobre a minha memória esfriada da infância...

 

 

 

 

Dias encantados...

Inventei para ti uma tarde

Subi e desci aquela rua onde as palavras eram folhas renovadas

Busquei em ti o mel que me fazia ter a condição de voar sobre a planura das aves

Descobri que há um lugar...um ombro...uma pétala de flor despida

mas não há um lugar que tenha a tua medida

 

Inventei para ti uma tarde

Subi e desci pelas palavras que me consumiam

Palavras plantas-carnívoras...palavras de sombra e repouso

Palavras feitas de crónicos crepúsculos

Onde os pássaros poisam...em contraluz...

 

Mas quem sabe...

Talvez os templos cresçam onde as tardes faltam

Talvez os sinos chorem onde as horas forram as folhas das palavras

E em frente a nós...os pássaros se curvem numa submissão

De dias encantados...

 

Uma flor tardia

 

Pisou a terra estranha onde as oliveiras guardavam o espaço das águias

Descreveu a curvatura do tempo como se fosse a iliquidez da memória

E foi então que descobriu as faustosas raízes do vento

Os seus passos tacteavam a maresia que se erguia da rubricidade da aurora

O ar trazia-lhe o desmoronar do odor da resina que se ergue da solenidade dos pinheiros

Pelos seus lábios perpassava o fim e o princípio da todas as eras

Pelo seu corpo corriam sóis e neblinas

Cansaços de quem está a um passo de ser Deus

Rotas de silêncios transviados

E ele ergueu as mãos e contou os céus

E pegou nas rédeas de Pégaso e voou de encontro ao seu infinito

Trespassou os seus véus e descobriu a linha curva dos sepulcros

Nasceu então em si a gloriosa fonte das lágrimas e dos risos

Teceu os espaço com estrelas virtuais

Como raios de sol cobrindo a ausência dos pássaros

E uma flor tardia irrompeu da lama

Onde um lugar sem futuro costura a foz dos seus sentidos

No canto da alma uma grinalda de música ergueu-se do lodo dos dias

Ele soube que era uma tardia prece

A ecoar na gélida folha da tarde...



 

 

Ave solitária

Sobre a mesa do homem cai o tampo do Destino

E ele enche-se de dias

Dias de folhas verdes...de prados quentes

Dias de serenidade plantada no suave olhar da chuva

E vêm todas as estações do ano

E passa por ele a desolação do frio

Com gestos de paisagem ressequida

Como seios abertos ao quotidiano das correntes

Por todo o lado se estende o homem

Por todos os caminhos se desfaz de si

Em todas as esquinas morre um pouco do seu coração

Em todos os céus se eleva essa ave solitária

Esse pássaro cheio de si

Que voa em redondos volteios de nuvem assustada

 

Sobre a mesa do homem cai o riso do Destino

E ele floresce como um outono contraditório

Como uma vaga que decerto abarcará a lisura da praia

Onde finalmente se tingirá da fina côr anil da tarde

Essa onda imprevisível que cresce da invisível força das águas

E cresce..cresce...como um fogo que sobe ao pódio do inverno

Traz uma despedida...caminha como uma deusa aberta ao frio

Abrindo as mãos ao íntimo suspirar das fontes

Que lavam a alma carente do Homem.

 

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