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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Busco...sei lá o quê...

 

E vejo...a ilusão que se arrasta pelo corpo do sonho

Para lá de mim...a multidão que ofusca o nevoeiro que me cobre

Para lá das sombras...o côncavo clarão da luz a acenar-me

A arrastar o seu hálito de vida...a fundir-se na largura de um rio sem destino

A transformar-se na síntese da glória de ser o fio condutor da farsa que represento

Do meu corpo saem raízes...da minha alma caem abismos

Em mim se erguem as veias feitas de um chão que não piso

Ergo ao alto todas as derrotas...todos os infernos e todas as solidões

Semeio astros no sopro dos dias que se esvaem em espumas de sonho

E as pedras que me atiram...e as pedras que atiro...

São apenas prolongamentos dessas luzes e desses clarões que me ofuscam

Ponho as verdades que não digo nas asas que uma ave que não voa

Sólidos são os degraus que não subo

Vastos são os silêncios que não procuro

Luto para não tropeçar no fim que desconheço

Busco a brasa que me queima...aquela que não deixo tocar-me

Busco...sei lá o quê...

Talvez a aresta que me rasgue a noite

Talvez o solitário raio que cai de um sol antigo

Talvez eu próprio...

 

 

 

Rabiscar em França...

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Na constituição francesa há um artigo que autoriza as pessoas a irem ao rabisco. Ir ao rabisco é ir apanhar a fruta que fica para trás depois dos donos dos pomares colherem aquela que tem o calibre certo para ser vendida. A outra, a fica no chão ou até mesmo nas árvores pode ser recolhida por quem queira fazê-lo. Não passa pela cabeça do proprietário do pomar proibir as pessoas de rabiscar. Há até uma regra que quem rabisca tem de cumprir, que é a de ter que manter uma distância de pelo menos dez metros, das pessoas que andam a apanhar a fruta para ser vendida. Essa fruta proveniente do rabisco, não pode ser vendida, mas pode ser comida por quem a apanha, dada a instituições ou até a outras pessoas que dela precisem. Na beira-mar também existem regras para o rabisco. Se uma tempestade faz soltar as ostras ou outros bivalves dos viveiros, as pessoas podem apanhá-los desde que estejam a trinta metros desses viveiros. Em Portugal onde tanta fruta se estraga só porque não tem a medida correcta, era útil que se fizesse uma lei parecida, que permitisse às pessoas poderem apanhar toda essa fruta que, ou fica no chão a apodrecer, ou vai para o lixo. Talvez até os donos dos pomares agradecessem se conseguirem resistir à inveja de ver os outros apanharem aquilo que eles acham que é deles e que é melhor estragar-se do que ser compartilhada

 

 

Enfim...

Chegará o dia em que eu levantarei os olhos

E numa voz cansada de saudades

Direi as palavras que abafam o meu peito

 

Chegará o dia em que a luz que declina sob os meus passos

Refletirá a minha imagem que arde na sombra de um tempo que partiu

E...como se o vento norte soprasse por dentro de mim

Erguerei os braços... com a lentidão dos dias cingidos ao meu corpo gasto

 

Enfim... serei a límpida imagem de uma corpo recluso e naufrago

O espelho descontente...a lembrança que foge ao declínio da sua luz

Discretamente... baixarei os braços

Serei a moldura desenquadrada que fugazmente procura o repouso das águas

Ou...a janela que se abre para o cais solitário

Onde os sons cristalinos são uma fugidia ilusão de vida...

 

 

Nos poros do vento

 

Nos poros do vento descansam mansas poesias

No fundo das lendas rasgam-se as solidões

E os sonhos...esses rebeldes travos de melancolia

Que se erguem do fundo do chão e dos séculos

Como mundos riscados por mares de água corroída

Olhos que viajam e que esperam pelas distancias

Solidões de astros a rasgar as trevas

De uma linha que nos separa do chão desencantado

No fundo dos meus braços erguem-se veredas

E todos os pássaros se despedem da terra deslumbrada

Há uma viagem...um parapeito...uma janela...

Há um corpo debruçado na campina e na agonia

Há uma estreita válvula de fogo a consumir os dias

E o sol a brincar às crianças

Crinas louras feitas de sombras...luzes e pombas

Tudo calmo...tudo absorto...tudo eterno...

As estátuas morreram na brusquidão das almas

Os risos pedem que os deixem passar pelas margens dos fantasmas

E ninguém pensa na nortada que se solta das amarras das galés

Ninguém sonha com desertos

Nem com finos traços de vidas... e de sinas lidas nas linhas das mãos …

Que já não sentem que são mãos

Ninguém diz: - atirem-me pedras...corroam-me as carnes...espreitem por dentro de mim

Ninguém diz: - sou a ilusão da porta fechada...sou o vislumbre da dor inconsciente

Sou a pedra que se arraste pelas escuras gavetas da noite

Ontem vi a lua cheia de si...ontem tornei-me indefinível

Ontem fui a paisagem cheia de luz..o anfiteatro das farsas...

Bebi a saudade com quem boceja

E soube que nenhuma flor se ergue da morte

Que nenhuma porta de abre aos batimentos das folhas ressequidas da alma

Que nenhuma viajem se faz sem que a luz decline

E o coração se erga!

 

 

 

 

 

 

Todos os médicos deveriam ser obrigados a trabalhar cinco anos no SNS...

 

Um hospital no Azerbaijão quer contratar médicos, e dão preferência a médicos portugueses, o que atesta a qualidade da formação que lhes é ministrada. Por outro lado o nosso Sistema Nacional de Saúde debate-se com uma crónica falta de médicos. Uma das razões é a fuga destes profissionais para os hospitais privados e para o estrangeiro. Na minha opinião, os médicos deveriam ser obrigados, após a sua formação, a cumprirem cerca de cinco anos de serviço no SNS, e porquê? O curso de medicina é um curso que envolve grandes verbas, é caro formar um médico, e é ainda mais caro que esse médico depois de formado opte por abandonar o país quando este mesmo país sofre com a carência de médicos. Penso que toda a gente tem o direito de escolher o seu destino, penso que todas as classes profissionais devem poder escolher onde querem trabalhar, mas também acho que no caso da medicina deveria haver uma excepção. Assim  os médicos que se recusassem a servir no SNS durante esses cinco anos após a sua formação, deveriam pagar o seu curso ao estado, integralmente, porque é errado formar um médico com os nossos impostos e ele depois ir-se embora e não dar ao país que o formou a seu contributo social. Esses novos médicos deveriam ser obrigados a exercer no interior, ou onde fizessem mais falta. É uma medida controversa? Claro que é, mas mais controverso é vermos médicos tarefeiros, muitos deles estrangeiros, a enxamear as urgências e os centros de saúde, e a usufruírem de grandes ordenados, pagos à hora, e sem que se saiba bem qual é a sua competência.

 

Cabines nas ruas para os fumadores, SIM ou não?

 

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É frequente vermos à porta,( ou perto dela), de um qualquer café ou bar, o chão cravejado de pontas de cigarro. As pessoas atiram as beatas para o chão como se fossem donas do espaço público, como se não estivessem as conspurcar um espaço que é de todos. Sou um defensor das liberdades, mas acho que se deveriam criar locais fechados, (tipo cabines) , nas ruas, onde as pessoas fossem obrigadas a ir para lá fumar e deixar as suas pontas de cigarros. Claro que me irão dizer que isto é discriminatório dos direitos de cada um poder fumar onde lhe apetecer, mas o fumo e as beatas atiradas ao chão não são também atentados contra o direito das outras pessoas terem espaços limpos e sem poluição tabágica? É verdade que a nossa liberdade começa onde acaba a dos outros, mas todas as acções que perturbem o bem-estar dos outros, devem ter locais próprios para se realizarem. Acabo com uma pergunta, o que é que é mais grave, um tipo ser discriminado por prejudicar o meu bem-estar, ou eu ser discriminado pelo tipo que prejudica o meu bem-estar?

 

 

 

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Adormeço..

Adormeço...como se riscasse de mim o frio dos dias

Escrevo..entre o espaço que invento e o pássaro que me sobrevoa

Invento...quimeras...deuses e destinos

E penso...na consumição de um tempo arrancado ao pântano

Sei que os vermes habitam na voz esfaimada dos silêncios

Era bom que dos labirintos se erguessem almas e rostos

Que dos corpos saíssem risos de borboletas em casulo

Relógios de ponteiros oblíquos traçam rotas em vidas sem vida

Do espaçoso horizonte erguem-se as asas atónitas de um tempo que não floriu

A morte é uma cidade velha...a vida um campo proibido

Fica a seda do inverno a camuflar os nossos passos

Fica o correr da água que desliza pelos cristais húmidos das flores

Na penumbra desenhamos repetidas ansiedades

Na chama...queimamos a lama que cobre as horas

Sem tempo...sem cidades...sem relógios

Assim os esvaímos...