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folhasdeluar

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No muro da noite...

Na hora em que o sol abre uma ferida nos olhos

E os contornos da luz lembram a voz dos ausentes

A chuva cai como pássaros metálicos

Lambendo as nossas feridas silenciosas que caem das hastes da lua

No muro da noite...assentam as sombras que nos tecem

O corpo é uma raiz a pedir silêncio

A pedir que os nossos fantasmas adormeçam sem nós

E que os musgos que se nos agarram sejam desfeitos

Pelos longos naufrágios que nos sustêm.

 

 

 

Os outros e nós....

Os outros são a nossa metáfora: queremos que nos aceitem como forma de nos aceitarmos a nós próprios. Também assim é com a nossa  auto-estima: é alta de formos aceites e reconhecidos,porque é essa a forma nos amarmos a nós próprios.

Quando parto é para sentir mais um pouco

Quando parto é para sentir mais um pouco

Quando parto é para que a minha pegada ressoe na incontingência do mundo

 

O dia toca depressa no fundo da manhã

Vejo pássaros e naufrágios em cada rosto que dá à costa

Os meus olhos hirtos alojam-se na ponta da terra e...até as sombras me são indiferentes

Às vezes ergo-me por dentro da minha metáfora

Outras vezes boio na própria fúria de mim.

 

Há gestos simples...frases que se escondem

É tempo de lamber os pensamentos que se arrastam pelos limites da luz

As palavras pairam...perdidas..como planetas sem memória

Mas...entre nós...o estio derrama os seus raios de vida

Como um salteador de corpos perdido na paz de si mesmo.

 

O adulto existe para matar o sonho da criança...

Na Idade Média, um monge esteve trezentos anos a ouvindo um rouxinol cantar e teve por aí a ideia do que é a eternidade. Esse milagre é repetido pela criança todos os dias quando brinca. O tempo para ela desaparece,e é o adulto que vem impor-lhe normas de tempo; o adulto existe no mundo da criança para interromper a cada momento a história do monge e do rouxinol. ***

***excerto de -  Uma Antologia -  de Agostinho da Silva

Razões desconhecidas...

 

Pela garganta dos dias escoa-se a voz do mar

O vento tece deuses na ondulação dos cabelos

Digo-te que as minhas nãos agarram as miragens

E pegam na sombra do mundo com a mesma fé com que nasci

Secretas fontes escorrem onde o tempo não passa

Inertes os braços...vazios os frios...

O tempo divide-se entre uma estátua cega e um claustro devorado pelo boiar das luzes

Todas as indecisões se erguem do fundo das imagens coladas ao poente

Todas as vontades se dividem numa beleza de ondas cadentes...insólitas

Podemos criar um rio com as frestas do nosso sangue

Podemos criar um vento e espalhá-lo pela lembrança de um nome

Podemos até...criar uma injustiça e um nojo

E buscar na face distante dos outros a linha imaginária que não nos leva a lado nenhum

Mas procuramos sempre a linha que nos divide

Na madrugada que nos lavará da perdição dos astros.

 

Obscuras cidades tecem brancas lendas

Belas palavras constroem mundos de angústia

Outras...são apenas gestos de sílabas atónitas

Que se encostam à noite...como primaveras...

Ou como razões desconhecidas...

 

A filosofia existe porque ao homem não lhe basta viver a vida

A filosofia existe porque ao homem não lhe basta viver a vida, por isso, foi preciso inventar algo que lhe explique a realidade, ou as várias realidades. É pois, fundamental, que a filosofia traduza as impressões em sentimentos, e a consciência em pensamentos. Fazendo com que a realidade,  perca o carácter de ilusão e se transforme em objecto do nosso sentimento.

Tudo flui ...

 

Por vezes é difícil encontrar uma manhã onde o caule das coisas se desfaça

Algemas de fogo tecem o vaivém das luas

Dentro de mim cresce o fumo anónimo da ausência

E as sombras do cais multiplicam-se na voz trágica do sol

Por fora da alma os pássaros recriam voos alquímicos

Por dentro do fumo desenham-se ramagens de antigas demoras

Tudo flui ...sem murais nem vazios...tudo está dentro de tudo

Mas o pranto dos telhados aquece a nudez das luas

Tudo acontece como se caminhasse numa outra era

Tudo arrefece na ferocidade do tempo

Os corpos...as memórias....os prados onde as abetardas se aquecem

E até os musgos que trepam por nós como prantos

Nos falam da presença ritual do silêncio

Onde se misturam estrelas e rostos...

E onde as nossas grades servem apenas para nos tapar o sol...

 

 

 

Em meu redor...

Em meu redor...as memórias e as paredes que se fecham dentro da minha pele

Em meu redor...a sombra que escuta a abolição dos dias

Devagar...percebo que o mundo me espera...solitário

Como se não sobrasse mais nada de mim...

 

Ali caem as lágrimas

 

Ali caem as lágrimas sobre o granito... solenes como sombras de menires

Caem sobre o esplêndido desequilíbrio do mar

Tocando...cegas....a transparência suave das luzes

Porém...o mundo nasce num silêncio azul... limpo e lúcido

Como um rochedo...um sonho...um promontório

Como uma palavra... ou um pequeno ponto tocando superfície do chão

E... tudo é porque tu és...

E...nada é… aquilo que não sabes.

No centro do chão está uma manhã lisa

No centro da luz ergue-se a penumbra do voo alucinado das rolas

E tu pedes uma nova vaga...uma nova praia...

Onde possas descansar do medo e do mar...

Deitado na areia do esquecimento.

Finalmente desces ao denso labirinto feito de claustros e de segredos

As sombras erguem-se como vidros de luz

Ressurgem abismos e arquitecturas que só tu sabes

O espanto é claro e vivo

O mundo roda numa clareira de verde e águas rápidas

Desce para o mar como uma auréola de estrela e pensamento

E ali está...a flor...a rosa...a glória de ver a luz entrar na gruta...

Onde o tempo se perde em desmedidas pressas

Como uma face feita de finas rugas

Onde a rouquidão do mar...atravessa as finas águas da manhã

E caminha...como um chão de pedra...

Através da solenidade dos teus olhos... encantados!

 

 

Sou a cidade...

 

Eu...debruçado sobre o meu vazio...

Pego na noite como quem agarra uma queixa

Sou a cidade...e o lento circular do vento conduz-me ao tempo dos silêncios

A noite não quer saber do cais que brilha na insónia

Na suspensão da luz há um ritual de cedros fluorescentes

Límpidas são as paredes...altíssimas são as vontades

Pelas janelas espreitam rostos inacabados

Nas fímbrias do azul espreitam estrelas transparentes

É o destino a chamar... a clamar por mais ruas

Onde as folhas carcomidas das faias se ergam dentro de nós

Como realidades indistintas...como sóis de trazer por casa

Como perfumes de coisas intransponíveis

 

A vida é feita com a brancura das mãos

As palavras são instantes largados no papel

O luar é uma teia que nos devora...

Como um fogo de estátua a acenar na brisa dos instantes

Como uma luz quebrada...como um mar de céu...calmo

Como um vazio de barco...que passa rente ao nosso promontório

Sem direcção nem forma...apenas um barco... liso...de chão sagrado

Que voga na ressonância da nossa alma...roxa de frio...

 

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