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folhasdeluar

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Na colina em frente...

Era uma hora como todas as horas

Era um tempo habitado por tectos opacos

Era a côr...a cruz...o cheiro...era o agonizar do frio

Abri os olhos...e sobre a mesa o sol desfazia-se em palavras

Havia uma abóbada que as estátuas seguravam com o seu olhar sereno

Havia nas coisas um pouco de cada dia...um fumo...uma névoa

As mãos seguravam as pontas irremediáveis da água

Os pensamentos eram guizos...sonhos...teclas...

Na colina em frente...um rebanho mostrava como era a felicidade

E a linha da paisagem desembaraça-se no comprimento dos olhos

Quantas vezes morre um homem?

Quantas vezes dentro de si edifica paisagens que não conhece?

Num breve tempo...num breve espaço...salta da infância para a solidão

Coberto de tempo...cheio de azul...sôfrego de liberdade

Em si se abre a esteira que o conduz ao universo

Fora de si...as ruas e as esquinas onde as rugas tocam no silêncio

Dentro de si...o sudário que lhe cobre o outono

Onde as folhas que caem...são pássaros sem deus...

 

A maria-rapaz...

Na escola, quando uma rapariga tem atitudes masculinizadas, é apelidada de maria-rapaz. Já um rapaz com atitudes femininas é apelidado de maricas e é gozado pelos outros rapazes. Nestes casos um rapaz sofre muito mais que uma rapariga, já que nenhuma colega gozará com ela por causa das suas brincadeiras e acções. Ora é na escola que se deve começar a ensinar que há pessoas diferentes, mas que essas pessoas têm os mesmos direitos e deveres e nunca devem ser humilhadas pelos seus pares.Na escola compete aos professores este ensinamento de aceitação do outro, que deve ser completado em casa pelos pais de todas as crianças.

Ao fim do dia...

 

Grande será o dia em que eu erguer a face

E contemplar essa comprida esteira de luz que se ergue entre mim e a paisagem

Se o sentimento for demais para mim

Se for maior que aquilo que possa suportar

Então talvez eu me encha de pasmo como um coração que descansa num ritual de paz

Todos os desesperos são apenas frutos que caem da vida

Todos os temores são razões sem razão nem forma

Mas há um brilho em cada palavra

Há uma letra em cada estremecimento do corpo

Que nos faz erguer os olhos cheios de surpresa

E acreditar...que o tempo é um sudário terno

Onde embrulhamos a nossa alma

Como se fosse um aconchega de mãe...ao fim do dia...

 

Pássaros melancólicos

 

Deixamos nos dias um rasto de pássaros melancólicos

Como se a nossa vida pertencesse à vastidão da praia onde adormecemos

Hoje...vi uma luz tocar o tempo...hoje..

Despertei como se naufragasse numa espiral de metáforas

Na rua...varrida por passos que de tão apressados nem são passos

São pressas de vida presas ao infortúnio das manhãs

São de pessoas que tiram do seu fundo o seu próprio naufrágio

Como se fossem sombras ensolaradas.

 

Deixemos que a vastidão do silêncio ocupe os dias construídos em relógios parados

Deixemos que as horas cresçam dentro de nós

Como florestas de folhas mudas e inúteis

Ou como chuvas que secam as ervas por onde passam.

 

Palmo a palmo...

 

Palmo a palmo... percorro o vento que me fustiga a alma

Palmo a palmo... chego ao espaço que fica entre mim e o lugar onde crescem as tardes

Nunca pensei ser outra coisa senão um corpo que se desfolha

E fico contente quando em vez de mim vejo uma sucessiva dança de fantasmas

Chega o dia...levanto-me como se atingisse a superfície das coisas intocáveis

Como se sair à rua fosse uma ousadia que a minha sombra mostra

É simples não ter esperança...é simples ocupar um espaço onde tudo é possível

É fácil lembrar-me da grande solidão dos países que invento

Como se fossem sinais que dispenso...braços que não estendo...fugas sem saída

As manhãs repousam nas águas

Os gestos que não faço mancham as luzes que se dispersam

Tudo são velas ao vento...enfunações de fábulas quebradas

E nós...que abrimos esses portões por onde as rosas espreitam

Ouvindo cantar os sonhos sem rumo...desarrumados por dentro de nós

Sabemos...que somos pescadores de outras águas...de outros destinos

Que não o nosso...

 

Calado...

 

Vejo o dia a acrescentar-se mim

Como se me forrasse de pássaros

E eu nada mais fosse que um simples fruto embrulhado em horas

Todos os dias renasço nas inumeráveis sombras que me cercam

Todos os dias acho que o meu olhar arredonda a chuva que cai na sonolência dos pátios

E vejo...aquele caminho minguado onde as folhas se tornam estéreis

Mas sei que é ali que as palavras repousam dentro da sua importância

E os meus olhos se aquecem na solidão das árvores que procuram o outono

Os dias seguem como pálpebras de tempo transparente

E a superfície das coisas

É uma praia onde lentamente a infância absorve o que resta de mim

Ás vezes aponto para um lugar que fica acima do vento

Calado...sei que o meu corpo ocupa todo o espaço da minha sombra

E que o rumor da mar me trás todas as possibilidades de me dispersar na espuma

Como se me afastasse das coisas sobrecarregadas de memórias

E os dias fossem vãos aromas encerrados em janelas

Leves...como inúteis sopros que escorrem da alma...