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folhasdeluar

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Esferas

Encosto-me ao sono das janelas

O vento trás-me o adeus das folhas amarelas

Na frescura da insónia florescem peixes  sem tempo

Pela brisa perpassam solitários dedos

E o sangue do sono persegue o silêncio prateado da luz..

Que chega da rua.

 

Há um sopro de frescura a dançar nas janelas

Uma claridade de tília a embranquecer as horas

Os olhos marcam a noite como passos na areia

Mal os ergui e já a infância se extinguiu

Agora vogo na nostalgia da bruma que dança …

Nas asas das algas.

 

Sou a dança e a fonte perdida

Sou o nítido cavalgar da vida

Embalo horizontes...esculpo esferas

Imito o colo da Terra...

 

Os sinos..

Na existência de uma sombra cresce um corpo de noite

Paira sobre a distância ou... sobre uma fome solitária

Como uma ave em fim de jornada...como um tudo nada...

Como uns dedos roxos a agarrar poentes

Que não servem para nada...

 

Encontrei num tempo sem nome...o nome do tempo...

Cresci na beira de um verão sem fim...excessivo

Um verão onde os silêncios se entrançavam nas espigas

E os deuses mergulhavam em paisagens de pedra

Como céus frios...como se pertencessem a outro lado

Onde os sinos tecem a imagem dos homens...

 

Suspensões...

Lembro-me de um pássaro que voava na oblíqua linha do horizonte

Era um pássaro de vida...

Como todos os outros que se recortavam no calor da minha vidraça

Era feito de brisa e beijo...era feito de um tempo fundo

Um tempo suspenso na era da casa...um abismo de terra ardida

Ou era apenas...um pássaro...

 

Lembro-me que um dia cairei como um pórtico sem base

Um dia vou beber os murmúrios da noite

Aqui mesmo...no meu jardim de portas abertas sobre as estrelas

Onde durante o dia brancas borboletas divagam

Suspensas...na claridade doirada de um eterno desencontro...

 

É sempre o mesmo vazio a abrir-se aos meus olhos

Sempre este país de pedra e cal...de granito e lama

Sempre este não poder habitar o infinito

Sempre este perfil de mar...a encadear-me..

A alma!

A submersão nas palavras...

Chegou...como um grito submerso na boca de um pássaro azul

Chegou...como um pequeno mar que desliza para a finitude da tarde

Trazia consigo um emaranhado de sonhos a corroer-lhe a alma

Trazia refletida em si a luz de um crisântemo

Alumiava-o o perfume das margens suaves do rio

Partiu como um séquito de estrelas a desatar-lhe a vontade de ser mais além

Pois o tempo...era para ele....uma constelação longínqua...um passo atrás

Pois para ele...não havia tempo...apenas e só...

A submersão nas palavras...

Impossíveis

Que alívio devemos esperar dos dias que correm sobre tardes sem esperas?

Quando surgem as dúvidas como se fossem alvoradas de medo

E o vento sopra em caudal de fonte límpida

Sobre a nossa insubmissa vontade de ser mais que um desassossego

Sobre a nossa vontade de usufruir desse tempo enlouquecido,...vasto

Como se os sorrisos nos alimentassem a nostalgia

Como se as estradas se abrissem sem horizontes

E o vento...amainasse de repente...caindo nas palavras dos poetas

Em forma de cascatas impossíveis de controlar

Impossíveis de dizer...

Na margem das palavras.

I

Alheio aos prados desenho segredos nas folhas dos cardos

II

As luas azuis prolongam-me os passos

Num delírio de sol espreito o mundo

E os sonhos são tecidos...em brocados de sede

Fome de lobos acenando aos ventos

Nos limites do frio esvoaçam flores

Nas gotas de orvalho se despem estrelas

O maior segredo destas as algemas

É ser feito de palavras que não são poemas.

III

Era apenas poeira intemporal a escoar-se por entre os meus dedos

Desprendi as mãos...deixei os meus passos afagar os caminhos

E na largura baça do encanto segui um coração que flutuava no verde dos limos

Mas havia tanta distância entre mim e esse lugar

Que me apaguei numa seara sem respostas

Onde apenas havia um claro gesto...de embalar!

IV

Que fazer quando tudo se oculta?

Que palavra semear?

Ave tolhida no empedrado dos dias

Alisando paisagens...comendo maresias...

E as nuvens passando...atam-se a teias...

Buscam o homem que vive na margem das palavras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Véu azul...

Véu azul...translúcido espaço a quebrar-se de encontro à liberdade das aves

Sonhei que as margens do rio se precipitavam num manto de espuma

Sonhei que do chão se ergueu um arco-íris de anémonas

E que da cegueira absoluta do amor se construiu uma vida

Como quem beija a côncava alma do vazio.

 

Na indecisão das horas decifro os impulsos do tempo

Ergo-me num pranto de esperas e deslumbramento

Sei que me divido em pequenas peças de mim

Sei que dispersarei pelas colinas da tarde

Como uma brisa que paira sobre o infinito.

 

Não penso na memória dos céus nem no canto dos poemas

Mas penso na espuma da memória que profanou a orla do tempo.

 

Entre dois tempos caminhei

Desfiz a manhã em múltiplos espaços

Parei...quando a luz do sol me apalpou o rosto

E tudo se tornou tão simples...

 

Agora sei que um lençol de seda me espera no azul do vento

Agora sei que uma febre de rosas me despertará do sabor acre dos dias

Como se um caminhasse em direcção a uma porta entreaberta

Onde uma pura imagem da sombra me espera...

 

O meu pensamento...

Conversava sobre todas as coisas conversáveis. Falava da irrealidade como se estivesse a empurrar para fora de si a impossibilidade das palavras dizerem o que sentia. Marcava a acentuação das frases com um olhar agudo...atónito...um olhar que falava das coisas que podem acontecer, como se fosse um oceano a afogar-se a si próprio. Na certeza das mãos os gestos ocupavam todos os lugares disponíveis, eram mãos de tudo e de nada. Mão de fascínio a explanar teorias apocalípticas. Dizia que o tempo só caminhava por dentro dos relógios, que por fora tudo estava parado. Tudo era para ele uma imensa massa de raciocínios desconcertantes. Falava das orelhas do tempo, de como o tempo escuta as pessoas e depois desaparecia por dentro da miragem dos dedos. Dizia que a fímbria do tempo escorria pelos dedos das pessoas e que os deuses moravam nas gotas da chuva. Gostava de se sentar junto ao rio a imaginar a distância de ali ao nada. Inventava rotas de luz que só paravam dentro dos olhos das crianças e que talvez fosse por causa delas que deus construiu o vento...para lhes afagar os cabelos de seda. E as árvores? Quando falava nas árvores era com se se vestisse de folhas outonais,era como se construísse em si o tecto abaulado das emoções que sobravam das gotas do orvalho. Era um sábio que misturava o tempo com a carne e fazia de si um sonho a deslizar pela tela abstrata dos dias. Sonho e luz. Tela e paixão. Cor. Mas não lhe chegava. Um dia achou que tinha um caminho dentro dele. Achou que dentro da sua ânsia havia um trópico de paixão intensa e que a sua obra-prima seria deixar um rasto de esquecimento gravado na pele das pedras. Por várias vezes pensei em lhe perguntar o que é que ele pensava da espuma, o mais certo seria dizer-me que a espuma é o pensamento do mar e que as algas são neurónios à deriva. Mas e nós? - perguntei – nós somos a tela de deus - disse. Ele fica sentado a observar a sua obra, enquanto as pessoas se desfazem em bichos. Repara - disse-me - os cais são acenos de países distantes, os países distantes são desejos de púrpura pintado no colo dos homens e a poesia são palavras que tombam pelos olhos dos poetas e caem nos intervalos das paixões. Sabes que quando as pessoas se apaixonam é como se remassem pela candura perigosa dos rápidos é como se lessem um livro sem letras, feito só com pensamentos? Há uma harmonia em todas as coisas erradas, como se as coisas erradas servissem para nos mostrar que as coisas certas são desnecessárias. Para que servem as coisas certas, as palavras certas, os gestos certos? É muito mais interessante a palavra errada ou o gesto errado. Há muito mais utilidade num grão de areia que na soma de todos os espaços vazios. De resto não me lembro de mais nada, a não ser de um espaço que embora inútil,ainda me serve de respiradouro. Um espaço onde me penduro sobre o Tejo, como uma grinalda de cores a agitar o vento, enquanto aliso um sonho e poiso o olhar no infinito.

O meu pensamento era o próprio infinito...

Carta de amor

Meu amor!

 

Lembras-te daquela tarde em que primeiro te peguei nas tuas mãos, e depois os nossos lábios se colaram?

Lembras-te que aquela tarde passou a ser a tarde dos momentos floridos que jamais murcharam?

Ali fomos vento e brisa e espuma. Ali fomos amor e sol. Ali, eu soube que eras tu, acima de todas as coisas, quem eu queria para a vida...para toda a vida.

Meu amor, tu és o adro para onde os meus passos cegos se arrastam.

És o mar largo onde o horizonte não acaba, e não acaba, porque cabe dentro dos meus olhos, que te procuram sempre como que encandeados por um sol de felicidade.

Mas há sempre algo mais em ti.

Há sempre um roseiral de dias a florir em cada manhã que acordamos juntos.

Há sempre um infinito a descobrir por entre a espuma e o azul do teu mar.

Povoas a minha sede de ti como se fosses o êxtase de uma rota sem limites, onde cresce a minha ânsia de te ter sempre mais e mais.

Todos os meus pequenos gestos, todos os meus sentidos, se encaminham para essa grande entrada no país do amor, que és tu.

Hoje, após tantos anos, só uma ambição prevalece em mim...sentir-te junto ao meu coração,sempre... como se fosses um perfume palpável, ou uma fragrância de pele que vive na minha carne.

Sinto tanta irrealidade nesta nossa realidade, que temo acordar um dia com a proa de um barco negro a enterrar-se na minha alma. Esse barco que um dia nos levará,e que fatalmente nos separará. Mas o que hoje sei é que aqui estamos, até quando, não sabemos, Mas o que sabemos, é que o barco que nos conduz, é feito de carinho e de luz.

É feito de uma imensa fé no nosso amor! Essa fé em que acreditamos, nunca nos faltará... porque somos um só.

Do teu J.

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