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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

O choro é a antimatéria da alma.

Por vezes acontece-me pensar de que é que somos feitos e chego à conclusão de que não há conclusão. Somos apenas música que se evapora pelas frestas da alma. Não nos levemos a sério, há tanta coisa esquisita em que podemos pensar. Um dia reparei que nunca vi uma borboleta a cagar sobre um verso que é uma explosão de letras. Se caímos e os nossos olhos se aproximam do chão é porque o chão é um lugar bom para cairmos é como os mortos que ficam a bailar eternamente no nosso pensamento, tudo tem um lugar. Agarrar um problema é como vergar uma vela. O melhor é deixá-lo ser levado pelo vento. Verdade ou mentira tudo isso é uma espécie de sopa sem caldo, uma metamorfose de coisas que acontecem? Ou que pensamos que acontecem? Ou acontecem dentro dos nossos olhos e ficam no pensamento até que a memória estoire. E as coisas usadas? Aquelas coisas insalubres que um dia conquistaram o nosso gosto? Um dia vi o silêncio a flutuar na imensidão de um andrajo. Era um silêncio de homem que respirava pela desordem do oxigénio. Um homem com guelras, enterrado num imaculado espeto feito com sua própria alma. Ah se eu pudesse entrar dentro de um minuto e transformar-me num tigre, talvez descobrisse a insanável abstinência da razão e talvez concluísse que o choro é a antimatéria da alma.

Sabes que os sentimentos são feitos dentro dos olhos?

Sabes que os sentimentos são feitos dentro dos olhos? Pois hoje escrevo-te para te dizer que te vejo com os olhos dos sentimentos que estão muito para além do mundo. Estão aqui só para ti, fechados numa redoma de amor e tecidos com a carne da minha alma.

Sei qual é o aroma dos teus passos, mesmo quando te aproximas e estou de costas voltadas a tudo o que acontece para além de mim. Sei que és tu quem lá vem,porque mesmo quando estou fechado no meu cubo de gelo, tu estás sempre dentro da minha história. És a claraboia por onde entra a luz que flutua no espaço que não ocupo. Esse espaço é apenas a desordem dos dias a ruminar coisas ininteligíveis. Coisas que já não uso, como algumas palavras que vão passando de moda ou como maçãs que apodreceram na árvore, já que o Adão, homem esclarecido, se recusou a comê-las, mas isto já não é uma história do nosso tempo. Chegámos atrasados ao passado. Enfim resta-me o teu sorriso e os teus olhos cheios de luzes baralhadas pelas estrelas que flutuam numa casca de laranja em forma de lua e os cabeçalhos dos jornais que arrefecem a um canto da secretária.

Liberdade#2

Hoje inventei um tempo novo

Hoje lembrei-me do dia frio e límpido

Hoje desenhei um jardim esquecido

Hoje fiz de mim um pássaro altaneiro

E não há memória ou luz que se apaguem

Não há grilhetas nas coisas que escrevo

Há apenas alma e palavras claras

Há apenas a vontade

De querer sentir sempre... mais e mais

De querer ter sempre...dentro de mim...

A fúria de viver em... liberdade...

Liberdade...

Persegues sombras e espantos

Buscas a liberdade no divagar das ondas

Ferozes são os dias em que estremeces

Longas são as horas em que te perdes

Vês no perfil da luz a tua imensidão

Emerges desse tropel de algemas

Como uma ave que não vê o chão

Porque vogas na corrente que se ergue nos tons de azul

E nesse oceano vasto e mudo

A tua liberdade encontrou o minúsculo grão

Que te percorre em correntezas de alegria

Onde se esvai todo peso da solidão

E é ali...junto ao mar...

Que se erguem os rastos que te guiam

Em direcção ao infinito

Em direcção ao teu labirinto

Onde não perdes de vista a verdade

Porque só tu és tu...porque só tu és liberdade ...

Nortada...

Chove na minha fundura de olhos cavados

Já plantei o luar no jardim mais belo

Já me ergui das brumas do vazio

Já vi o sol arrefecer nas penas de uma águia

Já me vi nas mãos de um tempo exposto à nascença do dia

Já me inquietei por ouvir uma música cravada nas pétalas de uma rosa

E vi numerosas aves a dançarem na plenitude do frio


Junto ás areias concebi uma nortada

Espalhou-me em todas as direcções

Como se eu fosse uma paisagem sem noite nem lugar

Como se eu fosse um rio a desaguar nas raízes da árvore universal.

 

Havia um estrela que indicava uma passagem translúcida para os abismos

E uma chuva de sal a branquear a lua que estava deitada nas pingas do orvalho

O tempo arrefeceu...a pele arrepiou-se...fechou-se num manto de coração nublado

E não houve mais tempo...nem paisagem...nem música...

Que o libertassem...







Asas do silêncio

Tantas vezes subi nas asas do silêncio

Que acabei por descobrir nas flores...

Sempre a mesma ilusão das cores

Sempre o mesmo fastio das abelhas

Sempre a mesma inquietude no cio dos pássaros

E ainda hoje vejo...voos de perfumes...desenhos de raízes

A clamar por mais paz...

História do assalto a minha casa...

Uma casa...um jardim verde-matizado

As amendoeiras estão prestes a florir

Já algumas pétalas assomam

Os pinheiros...verde-escuro...agulha que não penetra a pele

E a romanzeira...junto à iuca que explode num frenesim de tons bejes

Começa também o seu despontar de folhas primaveris...

Há malmequeres e sardinheiras de várias cores

Amarelos, brancos, lilases...

Há uma espécie de paz no canto dos melros e das carriças

Ao longe ouvem-se a perdizes...

Tudo é vida...

Mas...agora reparo...

A portada da janela está partida

A própria janela jaz no chão

A casa está sem vida...foi assaltada...

Por dentro tudo está em desalinho

Foi um choque...não pelo que roubaram

Mas...pelo eco que causou...

Na nossa alma...violada...

***este foi o cenário que encontrámos na nossa casa de campo que tinha sido assaltada...

Amanhecer...

Olha...ainda agora vi a luz que as pedras irradiam

Ainda agora despertei para a côr azulada do destino

Um destino excessivo...tumultuoso...desabitado

Um destino a revoltear nos insanos anéis do vento

Como se fosse um corpo cavado no poente

A desabar pela escarpa de uma ilha intransparente

Onde...quem conhece...

Sabe da tela que a noite espelha nos telhados

E das pinturas que as ondas cavam no amanhecer...

O perdão

E tu que ardes num madrigal de versos confusos

Tu que te inebrias com a indiferença dos que passam

Achas que na serra...ainda se acordam pesadelos?

Ou iremos todos revoltear no precipício do destino?

Sem que tenhamos a audácia de forçar a porta

Que se abre para uma longa noite coberta de ouro

Escondido atrás de um imenso espaldar de remorsos

Onde vive o perdão de um Deus alucinado...

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