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folhasdeluar

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Alameda de sonhos

Primeiro a luz...depois a angústia. Abro a persiana e as ideias navegam em mim como pequenas embarcações. Sinto que não há obstáculos para as palavras. Conheço de cor as coisas de que gosto. Mas estou aqui. Refugiado neste rio sem margens. Esperando a sedução do vento e a sudação das alamedas. Cada palavra é um instante. Uma maqueta do sonho. Uma verdadeira toca onde germinam as ideias. Todos os dias as coisas mudam. Os céus mudam. Todos os dias há uma folha que cai...como uma pluma repleta de dias. E todos os dias somos a pluma que cai repleta de folhas.

 

Imutável véu de liberdade. Onde está esse meu primeiro choro? Onde está essa primeira liberdade? Agora já abandonei esse mundo feito com os nadas de mim mesmo. Agora já sei descortinar a leveza de uma ideia. Alguns dias trazem-nos a vontade de perceber o grande útero do mundo. Outros querem que disfarcemos a nossa miopia de seres semelhantes a moscas. Mas o que é preciso é abrir a porta. Sair. Correr atrás do mundo. E amar todas as coisas como quem ama só uma.

 

Traço um risco sobre um riso inútil. Obstino-me nessa perdição de mim. Já nada me dói. Posso afundar-me numa letargia de túneis sem saída...pode ser uma solução. Ou tentar trepar a uma nuvem piroclástica onde derreta todas as minhas angústias...pode ser outra saída. Ou posso abrir a minha alameda de sonhos. Deixar entrar as flores. Ou sair para o jardim onde plantei uma pequenas flores... lilases.

Sinais

Não procures sinais. Segue em frente. Desobedece aos caprichos da vida. Beija as pedras e tudo o que não faça sentido. Quem sabe se encontrarás algum sentido no beijar das pedras? Não faças desenhos nem te despeças como quem não tem para onde ir. Qual é a melhor definição de ti? Talvez nenhuma. Talvez todas as definições de ti caibam numa algema. Ou numa frase. Ou num barco. Que tal...desdenhares da vida e brilhares? Como quem atinge o cúmulo de si próprio. Gasta-te. Agarra-te às ruas com garras de hera. E se não souberes parar. Segue. De que serve parar a quem não tem sítio onde parar?

 

É misterioso esse relógio que trazemos. Misteriosa é a noite. Misterioso é o tropeção que damos quando o destino nos quer calar. Oferece um livro. Dorme como um filósofo. E acorda como quem se esqueceu de si. Por ti passam horas...números...contas...dívidas. Por ti passam momentos...e tu...inconsciente de ti...aguardas. Aguardas pelo dia em que não faças absolutamente nada. Guardas o teu silêncio como se o tivesses à tua guarda. Cão de silêncio. Lívido quadro feito de mistérios. vês correr os dias e aguardas. Vês os náufragos e aguardas. Também tu és um naufrago. Falas uma língua só tua. Percebes os passarinhos. E sabes que na face escura da lua está simplesmente o outro lado da lua. Como todos nós. Como tu. Que vives no pantagruelismo circular da vida.

Alma de ave...

Pertencem-nos os dias e os rostos que se desprendem da chuva. Pertence-nos a noite a as folhas que caem no nosso assombro. Pertence-nos o infinito que abarcamos com os nossos braços. E as cidades que passam rasando a nossa cara. Essas nunca são nossas. São apenas assomos de vida onde os nossos passos se perdem.

 

Os ventos cortam a pele da noite. As crianças sonham com algas de brincar. Até que um dia as flores voltem a florescer.

 

Suave como quem olha furtivamente as palavras... o tempo cai na terra esverdecida. Nega-se a morte. Nega-se tudo o que paira no mistério. E tudo é um ir e voltar. Um riso de quem tem todo o espanto. E o guarda...dentro de si como algo valioso. Sabemos que as sombras crescem ao entardecer. Que a diminuição da luz é o espelho dos nossos dias. E sabemos que tudo o que sentimos..é um fogo. Uma tempestade. Uma fogueira aberta ao crescer da vida.

 

Em que praia florescer? Em que estrada peregrinar? Em que contradição acreditar? Descer ao fundo dos olhos. Encher o peito de luar. E sentir... a mão invisível do destino..a acenar.

 

Bem escondido no fundo da pele está o arrepio. O sentimento. A visão das luzes vespertinas. Lá está o caminho. O tambor. A alma que desliza pela profundidade do voo de uma ave.

 

 

As vozes

Estamos solitários no meio da multidão. A multidão está solitária em volta de nós. Rodeia-nos o vazio. A mistura de vozes. Os passos. Fluímos na rua numa ordem contrariada. Achamos o desequilíbrio dos dias em cada esquina. Temos a noção que facilmente caímos no esquecimento. Somos vitrais coloridos e opacos. Somos balanças. Vivemos na insuficiência de termos o que não nos faz falta. Excessivos. Perfeitamente convertidos ao inútil. Sentamo-nos comodamente a olhar os pássaros que esvoaçam por dentro da nossa inveja. Egocêntricos. Apoiamo-nos nas barreiras que erguemos. A nossa segurança depende sempre da nossa aflição. Somos indefiníveis. Confiamos no sonho como quem quer ser outro. Constantemente sonhamos em ser outro. Em ser o outro. Sem sabermos que esse outro também é um sonho. E também sonha ser ainda outro.

 

As vozes. Côncavas. Reflexivas. Encobrem sempre uma nostalgia. Uma aspiração. Algo entre o absoluto e a acção. As vozes tocam em tudo. As vozes são nuvens encobertas. Vivem na miragem dos peixes. E na leitura dos poemas. Não têm principio nem fim. Nem folhas. Nem céu. Nem nada que se pareça com o rebentar das luzes. São apenas vozes. Umas tranquilas. Outras distantes. Outras diletantes. E tal como a côr de uma qualquer aguarela nos toca. Também a nossa voz se aconchega ao âmago de uma imagem captada na sombra de um riacho.

Insignificâncias

Abraço essa nebulosa feita de fantasia. Dou nomes a tudo o que não sou. Abraço a noite como quem se atira para dentro de um sonho. Escuto um piano na outra sala. As notas deslizam até mim. É Maria João Pires a adocicar a tarde!

 

Início uma caminhada. Imito Kerouac. Invento o centro do mundo.  Quando encontrar o fundamento de estar vivo. Transformo-me numa alga. Ou num encolher de ombros. Ou então falarei na estética sobranceira da lua. Como quem pensa o que não sabe. Sei que sou insignificante. Sei que tudo me separa da grandeza dos céus. Mas ergo-me...como quem se aproxima do cansaço. E se eleva à condição de Homem.

 

Vibram as ideias. Caem de mim como folhas secas. Libertadoras. Escrevo. Escrevo para me lembrar que ainda há palavras a dizer. Que ainda há emoções a comunicar. Escrevo...como se estivesse dentro de uma campo magnético. A preparar o caminho à tempestade.

 

Nas alturas em que me debruço sobre a insignificância de um bocejo...verifico a transcendência da tranquilidade. E garanto que não há razão de ser para a agonia. Posso desaparecer dentro de mim. Posso aproximar-me daquilo que eu acho que é a melancolia do mundo. Escutar os grilos. Ou o pio do mocho. Ou até desvanecer-me nas notas de Count Basie. E também posso descrever o momento extasiado da alma.

A invisível vibração do silêncio

Descarto-me da vida dos outros. Sou apenas a testemunha de mim próprio. E se por vezes sinto um aperto no peito...é apenas porque preciso de caminhar ao longo da minha imensa margem. Do meu rio. Da minha fome de ser invisível. Atraem-me os enormes mistério do céu. Pasmo com a liberdade dos peixes. Sou o precário íman da vida. Não me custava nada ter preconceitos. Mas não os tenho. Vivo o antagonismo das coisas como quem observa a lua... e não a quer ver. Verdadeiro ou falso? Tudo é verdadeiro. Tudo é falso. Ou, é apenas o mundo a atirar-nos como uma bola de encontro à vida?

 

Embrulho-me neste novelo de mundo e fantasia. Sei que a paz vive na negação do tempo. Não quero saber do tempo. O tempo sou eu e tudo o que tenho ainda para viver. Sou o paradoxo que vive da brancura das ondas. Tudo me leva e trás como quem se sente livre. Abocanhar essa metástase de frio melancólico. Isso era o que eu queria. E depois...sorrir como quem se atreve a inventar um asfalto. Ou um barco negro. Ou uma maresia. Ou simplesmente gosta de estar ali a escutar as ilusões.

 

É preciso estender a mão. Resgatar a vida. Limpar a sujidade dos corpos. E mais importante ainda...saber quem nos leva ao cadafalso. Gostava de ser um inconsciente a viver na dicotomia da vida. Ou ser uma interminável queda. Acontece que sou o meu ferrolho. E o meu prazer é não explicar nada do que sou. Como se eu fosse outra coisa qualquer... a passear na tarde ressequida da minha imaginação.

 

Não tenho mesmo qualquer noção da minha inconsciência. Não tenho um centro. Não tenho uma aresta. Não tenho qualquer geometria. Sou a invisível vibração do silêncio. Mas acabo sempre convencido que a matemática é o eixo da roda da Vida.

O desfile dos dias

Os dias desfilam numa espuma monocórdica. As folhas das árvores avermelham-se. Os sorrisos esgotam a minha paciência. Olho o desapego dos plátanos. Esmoreço. Sinto o deslumbramento da desordem dos dias. Enquanto olho uma folha que se despega do ramo...penso em inúteis fórmulas mágicas. Em sistemas de deslumbrantes felicidades. Em postais de lugares onde não ponho os pés. Elogio a chuva. Aceito todos os detalhes de um jardim onde passo as horas. Resisto a compreender o tempo. Rui Veloso ecoa dentro de mim...ai senhor das furnas, que escuro vai dentro de nós. E tão naturalmente como quem colhe uma flor...liberto-me dessa sensação de arder de tarde. Fio o tempo na roca da eternidade. E acho que a realidade é uma esguia figura de Modigliani.

 

Posso descrever a dialética das horas inúteis como quem observa uma estátua grega. No fundo dos copos...uma madrugada. No tombar da noite...uma carícia. E pouco a pouco ressurge em mim a mera dissolução dos dias. Dou voltas e mais voltas para perceber o conteúdo de um olhar. Atravesso ruas. Em cada esquina um pedido. A chuva mostra-nos a nossa gregária vontade de acompanhar o destino. As pessoas são feitas de destinos. As pessoas destinam-se ao destino. E, às vezes, apenas por breves instantes, a nossa alma roça o espelho da eternidade.

 

Sentir amor por uma flor. É o mesmo que sentir o hálito de um desassossego. Ou, sentir o cheiro a lavado de uns lençóis de linho. Subjectividade. Sempre a subjectividade a tornar-nos poéticos. Descartar a moralidade também é fazer poesia. Gostar de alguém é acender um fogo. De nós soltam-se limalhas. Indecências. Não temos a etiqueta dos preconceitos. Abominamos preconceitos. Gostamos mais de mistérios e de ilusões. E, porque sabemos que o infinito mora na petrificação dos céus...sentimos que somos a matéria...do caos universal.

 

As pastas de dentes

Há coisas muito parvas. Uma das coisas parvas que me afligem, é ter que comprar uma pasta de dentes. Há pastas de dentes de todos os preços, só não há uma explicação sobre qual a melhor pasta de dentes. Sempre que vou ao supermercado escolher uma pasta de dentes, fico aflito. Até já me lembrei de tomar uns calmantes... ou beber uns copos. Só para ficar com a alegria despreocupada dos bêbados, e assim poder escolher sem arrependimentos a minha pasta de dentes. Afinal uma pasta de dentes é uma necessidade. E das mais importantes. E depois há pastas para tudo e mais alguma coisa. Branqueadoras. Para o esmalte. Para a sensibilidade. Mais protecção. Para as gengivas. Ainda temos as extra fresh. As contra a cárie. Contra a placa. Contra o tártaro. Contra a gengivite. Contra o mau-hálito. Só não há uma pasta de dentes que nos proteja...das pastas de dentes.

 

Chiça...há muito tempo que queria postar este desabafo. Estou mais aliviado? Não!

Estrondo

Sobre a minha noite...um fósforo. Dentro da minha alma...uma bússola que perdeu o norte. Na minha mão...um pedaço de poesia. Depois...há fenómenos que não percebo. Coisas inverosímeis. Liturgias de peixes dourados. É fácil ver o que queremos. É tão fácil imitar um pirilampo ou uma enguia eléctrica. A primeira vez que vi um Van Gogh quase chorei. Mas só depois é que o percebi. É assim. Sou assim. Até mesmo com as máscaras que se vestem de pessoas.

 

Fecho-me em compartimentos. Num sou uma fotografia. Noutro sou um espelho. Noutro ainda sou uma alga à deriva. Às vezes sou um estrondo. Wagner ecoa em todos os meus poros com a sua cavalgada. Mas não me parece que possa extrair grande coisa da maioria das pessoas. Há pessoas que são palavrões. Outras...grandes florestas. E neste circo de centopeias tudo serve para me distrair.

 

Invento acontecimentos. Tenho premonições. A vida está em saldo...então não compro. Quero uma vida cara. Assombrosa. Uma vida que silve como uma cascavel...ou como uma exaustão. Não peço que me resgatem. Só peço que me deixem cair em tentação. Desobedeço ao sinal vermelho. A vida é um totem amparado em duas bengalas.

 

Corro até ao mar. Se não o encontrar é porque ele se encontra noutro lado. Não há proporções para o mar. Não há cores para quem se perde. E se na palma da minha mão nascer um perdão. Então é porque renasci. Desabrochei em cores impassíveis. E encontrei o caminho desnecessário para a noite.