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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

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Poesia e outras palavras.

Aconteça o que acontecer

Há uma frente de guerra em cada degrau dos dias. E há uma maneira de fazer as coisas acontecerem. O tempo é exótico. A noite é exótica. Os barcos alexandrinos anunciam a chegada de um tempo colorido. A personagem que éramos vagueia por entre lucidez da tarde e o improviso de um trompete. Fazemos propostas. Dizemos que estamos vivos. E por instantes respiramos como peixes. Não fazemos nada que um animal não faça. Deitamos a morte para trás das costas. E arrastamos a nossa sensibilidade como quem escuta os blues de Sonny Terry and Brownie Magee. Depois...perdemos as verdades em qualquer lado. E aconteça o que acontecer...fechamos as pálpebras e arrastamos os pés. Assumimos que somos sublimes desamparadados. Que respiramos junto ao rodapé desfocado do tempo. E que por isso sentimos os outros...a desfilaram por nós...como manchas. Como músicas suspensas. Como danças perfeitas. Como poemas de Al Berto.

 

Junto aos mamilos entumecidos da noite há uma coagulação de buracos negros. A mente desperta como se chegasse aos extremos da irrealidade. E tudo converge. O sono. Uma aranha negra. Um disfarce. O sangue desbotado das fotografias. Uma criança que faz caretas. E tudo o que é abstrato transforma-se numa imensa sinfonia.

 

O voto dos pobres

Os políticos andam muito preocupados com a subida da extrema-direita na Europa. Mas não entendem que foram as suas políticas que prejudicam os mais desfavorecidos que os estão a empurrar para os braços dos nacionalistas/fascistas. Implementem políticas de favorecimento dos pobres e verão que dessa forma voltarão a ter os votos dos que vivem sem esperança, e que são a maioria.. É  a falta de confiança nos partidos tradicionais que se têm mostrado ineficazes para resolver os problemas sociais, que está a dar vantagem aos populismos.

A rotação enigmática dos dias

Aqui e ali uma sombra. Aqui e ali uma descida vertiginosa. Aqui sempre aqui...a rotação enigmática dos dias. No horizonte ergue-se uma pirâmide. A luz traça anéis multicolores. Espantosamente apetece-me dizer basta de mãos e de acenos. Basta de joelhos apoiados em tacos de madeira. De bancos de igreja. De vómitos e de condescendências. Por um instante...apenas por um instante...apetece-me roçar as costas nuas numa parede de cimento vivo. Apetece-me semicerrar as pálpebras e desaguar para dentro de mim. Apetece-me fumar os ressentimentos. Apetece-me cair de borco numa nuvem estelar. E também me apetece sorrir...de mim próprio.

 

Desejo um dia limpo. Um dia hipnótico. Um dia em que possa inventar mais uma forma de sentir. Um dia excêntrico. Sem o papel químico dos outros dias. Um dia onde os olhos sejam botões em flor. E as palavras sejam silêncios a rodear-me por todos os lados. Gosto dessas palavras silenciosas e também das pessoas silenciosas. Essas pessoas que são apenas nuvens de fumo em que vale a pena tocar. E que se dissolvem na nossa vida...como quem se apaga e renasce no outro.

 

O peso da chuva

Separo a música. Escolho um disco. Quero ouvir um fado. Ou outra música mais áspera que me faça despertar. Espalho pedaços de rosas por toda a casa. Olho a tartaruga embalsamada. Todas as coisas me parecem outras coisas. Tudo tem uma metade e uma outra parte. E a incessante luz continua a escoar-se pela janela. Decido-me... quero jazz. Ponho Thelonious Monk. Acendo uma vela. Até as velas são outra coisa. São chamas brutais. São o ensaio da eternidade.

 

Em cada nuvem encontro um destino. Nas janelas sujas um arremedo de tristeza. Nas sacadas já não se seca a roupa. As casas estão rasgadas. A chuva pesa. O ar pesa. O crepitar das pessoas arrepia-me. As ruas estão sujas. Têm pássaros podres e restos de teclas de piano. Abro passagem pelo cheiro a musgo dessas ruas. Estou instável. Precisava de um remendo em qualquer lado de mim que desconheço. Precisava de outros cheiros e de outros silêncios. Faço desenhos de trampolins. Não sei se quero mesmo ser eu um trampolim... ou um sáurio. Ou então serei um pedaço de lápis negro que tem todo o poder de desenhar o que eu quiser. Faço um traço. Depois um coração. E acabo dormitando sobre o sonho de um cometa.

 

 

O trapézio

Uma vela brilha por dentro dos olhos. O tempo arrasta-se pelas paredes. Entre um olhar e outro olhar. Entre um segredo e outro segredo...está presente a nossa interminável sede de silêncio. E vamos rondando as nossas penas. E vamos empunhando desabafos e constelações. E assim vamos evitando a queda final. O vazio. A esperança. E provavelmente os sonhos da infância.

 

 

Gostava de respirar fundo e falar da obscuridade. Daquela obscuridade feita de sombras anárquicas. Do exílio dos corpos. Das explicações sem explicação. De tudo o que nos distrai. Do esforço que fazemos para nos fundirmos com a vida. E também dos discos riscados que continuamente ouvimos. Gostava também de descobrir se há uma rede a minimizar a minha queda deste trapézio onde me equilibro.

 

Interlúdio

Ergo-me a todas as horas e depois...caio na contemplação do nada. E tudo volta. As armadilhas da ilusão. As gramáticas desfocadas. As palavras que se colam a nós como pinturas de Dali. Loucas. Anti-naturais. Todos temos dentro de nós o cavaleiro da triste figura. Todos subimos aos planaltos de uma coisa que é outra. Tal como a verdade é um raio de luz negro. Um lepidoptero em completa metamorfose. Sempre em completa metamorfose. E é por isso que perseguimos as verdades. Que são apenas comboios descarrilados. Que brincam connosco como quem não nos quer falar. E nos dizem que a primeira luz é aquela que não vemos.

 

 

Bocejo. E nesse momento encontro a minha justificação de aqui andar. Não levem a mal mas...prefiro a chuva a um passo em falso. Prefiro a ternura de um insecto que a honestidade de uma cobardia. Prefiro uma pergunta do que uma refinada certeza. E a luz de um candeeiro a uma poça onde o tempo se afoga em lama. E no profundo instante em que da lama se ergue uma estrela. Fecho os olhos. Sento-me nas pedras salientes. E num interlúdio de profundo espanto. Bato com a porta...e desapareço dentro de mim.

O vento assobia...

O vento assobia...como um aviso que diz que a alma não tem idade. Ou então a avisar que há tantas curvas e contra-curvas nos sentimentos...que o melhor é deixar passar as sombras. E...desatar os nós.

 

Há sempre dois caminhos. Mas só podemos percorrer um de cada vez. Somos sempre parte de alguma coisa. Somos a circunstância e a distância. Ensaiamos diálogos. Encaixamos e desencaixamos nas coisas como quem projecta uma imagem desfocada. Temos volume e imperfeição. Somos musicais. Pomos emoções em cada fotograma. E olhamos a vida como quem vê um filme de trás para a frente. Vivemos equilibrados nas nossas histórias. Deixamos que desfilem pelo nosso écran. E... sentamo-nos confortavelmente na fila da frente...com a esperança de que somos perfeitos actores.

 

Deixo-te um aviso. Tens que conhecer as peças que tens que manobrar. Mas como nunca sabemos quais as peças que temos que manobrar...o melhor é deixar que as emoções façam a sua escolha. Coloca a tua mão no peito. Sente a noite e o momento. Sente aquele momento em que a tua pele estala e a tua vista falha. É então que rebentam as lágrimas e as recordações. E tudo o que podes ter...é o sentir de que tudo é perfeito.

 

Será que sabemos qual o momento de fazer o que é preciso? Será que estamos em posição de saber que a sorte não nos respeita? Será que conhecemos os fundamentos da ternura? E nesta imensidão de céus e de infernos...alguém quer saber onde está a paz? Talvez a nossa vida seja uma seara de trigo...onde há noite observamos as estrelas cadentes ...a esfarelarem-se nas nossas profundezas.

Que rua escolher?

Sigo por uma rua pensando sempre que posso seguir por outra. Aspiro os aromas da rua. Faço desenhos de gigantescas tardes. Nas profundezas do olhar de quem passa vejo peixes aflitos. Escuto conversas. Alguém se prende a uma montra. Mais além... se entreabre uma boca. Ali está a indiferença. O ar é doce. A fragrância é doce. Centenas de respirações confluem num breve espaço de tempo. Tento fundir-me na minha própria respiração. Fecho os olhos. Mordo a minha vontade de tentar compreender a luta dos outros. E até a minha luta...que não sei se já perdi. Poderia sentar-me num banco de jardim e ler Sartre...ou afogar-me junto com os peixes do lago.

 

Passeio por este aquário de peixes estranhos. Marco desencontros. Pessoas ansiosas passam numa pressa compressiva. Não há nada no ar. Os pássaros não têm direito a viver aqui. Aqui...nestas ruas desagasalhadas.

 

Entrar no mundo é o mesmo que despir um casaco. É o mesmo que fazer rolar um cubo azul pela pretensiosa desatenção dos dias. Misturo-me com o ar. Levito num rodopio de fúria lenta. Exóticas alegrias agarram-me pela cintura. Mas há um dique entre mim e os caminhos que não compreendo. Se eu pudesse guardava a alegria no bolso...como quem espera o momento de pagar o tempo perdido.

 

São absurdas estas respirações com que me cruzo. São absurdos este fôlegos de vidas cansadas. São absurdas as borboletas e as flores e os peixes. Porque não sabem que estão no mundo apenas para viverem. E nós...que sabemos tudo isso...o que somos?