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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

O sonho coralino

Derramamos os nossos sonhos como quem levita num berço de corais. Somos iguais a terra. Somos profundos espaços cheios de medos. Surgimos no mundo como nómadas nus. Crescemos. Depois escrevemos falsas árias. Somos interpretes de operetas vazias. E temos esperanças. Em quê? Não sabemos!

 

Por vezes vogamos em profundas hélices...fundindo-nos em inúteis segredos. Procuramos em nós a resposta para a carência de palavras. Porque queremos saber se entre nós e os céus alguém se intrometerá? Somos muralhas. Somos livros. Somos sótãos. Possuímos toda a fragilidade dos abismos. Subimos e descemos essa escada oxidada dos dias. Agarramo-nos ao tempo como quem prende em si uma música secreta. Mascaramo-nos de venenos perigosos. Sorvemos a língua do mundo. E vivemos...empalados entre o mistério que se abre nos céus e as portas fechadas da terra.

 

Somos crianças. Somos fragilidades. Somos ponteiros de relógios intemporais...que não têm tempo para os relógios. Enrolamo-nos nas outras pessoas...como sombras. Como imperfeições. Como gavetas de cómodas vazias. E estendemos as mãos. E apontamos o infinito. E aguardamos pela imensa porta das coisas que não sabemos .

Remoinhos

Que remoinho é este que nos enrola nos dias e nos obriga a sermos infiéis a nós próprios? Que insensatez é esta que nos encurta os horizontes e nos agarra pelos colarinhos? Que absoluto sentimento existe na libertação da alma? E nas folhas que atapetam as alamedas. E nos espaços onde não cabemos. E no descontínuo tic tac da alegria. E em todas as fórmulas de felicidade. E em todas as coisas com que nos damos por felizes. Que absoluto sentimento não existe...em nós?

 

Cerca-nos o nosso exterior. Cerca-nos o nosso labirinto. Cerca-nos a liberdade e os atalhos. Cerca-nos tudo o que nos separa das subtilezas da vida. Deixamos as memórias a enferrujar. Aperfeiçoamos a nossa impetuosidade. Mentimos. Somos condicionados pelas verdades. Há bobos em cada esquina. Há bobos dentro de nós. Transportamos a nossa cegueira pelas ruas. Cegos sem guias. Cegos sem ruas. E assim vamos acertando o passo pelo passo das ilusões.

 

Retratos

Retratos confusos. Rugosos. Retratos de brilhos secretos. Um frio sereno povoa os olhares. Uma névoa de vidro esconde-se na fuligem da sépia. Não têm perfumes. Não têm sentimentos. São como janelas viradas para o fundo da memória. Um silêncio vago atravessa os retratos. Guardam em si uma confusão de sóis esquecidos. E cortam os dias...como aquele inverno em que o longe nunca mais voltou.

 

Retratos feitos de primitivas cores. Retratos nus e espantosos. Incessantemente a lembrar-nos o nosso sussurro de nascentes coralinas. E tal como quem não regressa estão sempre ali...ali...ali...ali...e mais nada.

 

Retratos de espuma e espanto. Retratos de nítidas estradas. De cais. De grandes extensões de nós. Os retratos recordam-se do tempo em que não eram recordações. Os retratos surgem...de repente...por entre os instantes em que abrimos a alma. E partem...como se fossem grandes vagas de memórias que respirámos.

Aguentamos temporais

Ás vezes somos representações de nós. Ás vezes medimos forças com o impossível. Aguentamos temporais. Forjamos forças. Temos a compleição atlética das nossas ruínas. Fazemos planos enquanto os dias se desconjuntam. Calafetamos as memórias. Saímos desfeitos de cada temporal que nos assola. E sabemos que a única coisa que podemos fazer é caminhar. Não ligamos à morte. Somos insensíveis adornos de uma terra fértil. Ás vezes receamos a falta de sentimentos. Outras vezes somos excessivamente sentimentais. Procuramos explicações para o improviso da vida. Um dia discorreremos sobre o que nos conduziu ao cadafalso. E descobriremos...um vago rasgo de esperança a brilhar no nosso poço mais fundo.

 

É mesmo assim. Haveremos de sentir um dia a utilidade dos gestos. Engoliremos os nossos esforços para não nos deixarmos arrastar pela nossa coragem. Sobreviveremos a tudo o que se aproximar de nós. Somos os raros gladiadores que não entendem a arena. Quem nos conduz? Onde estão as nossas certezas? Haverá verdade maior que perceber a inutilidade de uma verdade? Aproximem-se...dizemos. Toquem-nos...dizemos. Mas por favor...não nos apertem a garganta...nem perturbem a nossa timidez de seres erráticos.

 

E se um sentimento nos arrastar para a inexorabilidade da dor...havemos de saltar de contentes. Porque não há queixas que cheguem para todos. Porque não há incêndios que não se apaguem. Porque aprendemos que a nossa alma vive na brevidade do sentir.

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