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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

O sol é denso...

O sol é denso...

Amanhã o mundo não será cruel

O mundo é um descampado de medos

Uma fantasia de pedra...uma pedrada...

Amanhã florirão os muros que nos cercam

E as cameleiras vão abrir-se em sorrisos de felinas flores

Amanhã ao acordar quebraremos as cadeias

E vamos ser confundidos com a folhagem verde dos pinhais

Seremos a folhagem dos pinhais

Desprotegidos...íntimos das ervas

Arrepiaremos os nossos passos

Caminharemos como quem pega numa noite de chumbo

E alimentaremos os nossos silêncios...

Com o reflexo alado das candeias

Com a textura rugosa das feras

Com o brilho único...do sonho!

Teias

Teço a minha teia. A Terra percorre o imperturbável espaço. Os dias são pequenas variações cromáticas. E eu percorro a minha indiferença como quem se desfaz de um fato púrpura. Como quem despe uma plumagem que já não lhe serve. Como quem muda de alma e não de pele.

 

Percorro as minhas estradas esburacadas. Construo cenários de pássaros taciturnos. E gosto da lareira. É lá que queimo a minha solidão. Enquanto apoio os pés num sarcástico tronco de cedro. O relógio faz o seu aflitivo tic-tac. A luz débil da tarde repousa sobre o livro que abandonei na cadeira de baloiço. E eu...vingo-me das horas...a procurar perceber o mundo que desconheço. Gasto as minhas energias. Rego as hortências azul-cobalto. Mas não faço qualquer esforço para me arrepender das coisas que não faço.

 

Os pardais debicam os insectos que vivem nas flores já murchas....quase secas. Espreito-os por detrás da janela como repara no mundo. E se na igreja os sinos me lembram das horas...sento-me na varanda e mastigo as minhas memórias.

O preço do nada

Ardem-me os olhos em cósmica ternura

Mas neste imenso céu de corvos

Imagino-me a beijar a carne dos astros

A difundir a minha maneira de não estar

E a aceitar pagar o meu preço de homem sem préstimo.

 

Em toda a gente vejo um astro frio

Por toda a parte declinam os bocejos

E a vida ali...tão perene...a arder...

Num alvoroço de aves sombrias.

 

E não me digam que os rios dormem na boca dos peixes

E não me digam que as almas saltam do corpo dos enforcados

Não digam nada que me gele

Nem afirmem nada que se crave na minha fome de tudo ser possível...

 

Apoteose

Amo as tempestades. Gosto de me sentar na falésia e aspirar os insultos do mar. Admiro a embriaguez despretensiosa das ondas. O pânico das rochas a desabarem. O escuro violento da nuvens. A terrível ofensa dos relâmpagos a cortarem um céu de chumbo. Gosto da grandiosidade dos elementos. Da fúria incontida do vento. Tudo isto se parece comigo. Tudo isto é um prolongamento de mim. Tudo isto é o eco de um cansaço. Um crepitar de sentimentos. Uma absorção de força e grandiosidade. Tudo isto representa o tumulto impreciso de um céu. De um futuro. De uma paz. Porque tudo isto é o estilhaço espectacular da vida.

 

Espreito o salto dramático do mundo. Sempre achei que não há racionalidade nas ilusões. Sempre achei que a vida era uma grande orquestra cheia de fífias. Um debate carnal. Uma ilusória transitoriedade. Uma apoteose de electricidade e água. Onde sentimos que está sempre eminente a nossa saída de cena.

 

Somos o abandono de deus. A espécie petulante. A irreverência racional e... irracional também. Oferecemos o nosso sono à noite. O nosso corpo aos dias. E o nosso drama a um público que não nos vê.

Fráguas

Olho e vejo com os olhos que escondo. Fotografo. A luz. A essência. A fadiga essencial. Por breves instantes sinto-me dentro de um outro mundo. Tudo se torna preto e branco. Os sorrisos. Os secretos rostos. Sinto em cada um que passa uma sensação de presságio. Vejo em cada rosto alegre uma obsessão. Vejo seres sem regresso. E dias sem traços. Tudo caminha sob o meu olhar. As sombras fugidias. As palavras. A transparência que um rasgo de memória desoculta. E paro...para que dure mais tempo a minha sintonia com o destino de quem passa.

 

Corro por essa estrada. Desabafo com este mar. Mais além cintilam fráguas de estrelas perdidas. Densas folhagens bebem o meu sangue. E esqueço. E esqueço-me. Que todo o círculo se completa. Que toda a vida se completa. Que as pegadas de mim...são sombras perenes no êxtase do céu.

Alucinação

Cumprir a alucinação da vida

Entender a candura da fatalidade

Saber a aritmética da sorte...ou do azar

Conservar o porte da luz...

E sentir no peito a queda das flores vermelhas das buganvílias.

 

Ser enigmático...amar as crianças

Especialmente aquelas que poucos amam.

Ser teatral e não frequentar psiquiatras e psicólogos

Casar com a utopia e viver sem siglas nem suores frios

Ler Shakespeare ou Nicolau de Cusa

Não se comprometer com a lógica

Ter a consciência de um ser inacabado

E até...se possível...

Sobrepor-se a todos os costumes

Como quem aloja em si...todos os pardieiros do mundo

Toda a fragilidade das constelações

Toda a inércia da realidade.

Por entre a chuva cinzenta...

Tudo guardo nos meus bolsos. As cidades. As metáforas. A anestesia dos dias. Sim...e os ressentimentos. Compreendo que não me valem de nada..mas não os quero enterrar num qualquer cemitério de ilusões. Servem para me lembrar que alguns são apenas isso...alguns. Os ressentimento mesmo mesquinhos sempre servem para qualquer coisa. Servem para construir uma estátua...ou um vaga-lume. São o mesmo que uma renúncia...ou um cão atrás da cauda. São o meu direito de me afastar...ou... de me desfazer de incómodas filosofias de amor.

 

Por entre a chuva cinzenta... procuro uma alma limpa. Vejo as pessoas que avançam pelas ruas. Que fazem coisas. Que se comovem. Espero pela minha carta. Pelo meu nove de copas. Poderei até beber uma poção. Inventar um acontecimento. Posso deambular nu pelas hipóteses que não percebo. Posso cobrir-me com um cobertor. Posso perceber a verdade das causas perdidas. Andar em transportes públicos. Conhecer o inferno de uma travessia de barco. E ao mesmo tempo sorrir à melancolia.