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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Erva fria...

Escrevo-te hoje como quem empresta gestos ao silêncio

Hoje semeei o meu medo juntamente com a escuridão da casa

Hoje desapareci...como o eco de uma dúvida

Amarrei-me ao poente...descobri que a noite é azul

E toquei na esperança...como quem teme uma borboleta negra...

 

 

Desci aos arcos concêntricos da tarde

Vi abóbadas de néon e safira

O vento abafava a rua

As pessoas asfixiavam

O bolor crescia nas cúpulas da carne

E vi...que tudo dependia de uma veia impossível

De um poema impossível

Onde uma mulher ardia nos limites dos séculos

E um homem se afastava...descalço...

Sobre a erva fria...

Quem fomos?

A infância é a nossa porta para a vida. A nossa manhã feliz. A nossa emoção desconhecida. Também desconhecemos a subtileza das coisas. As nuvens negras. O crepúsculo distante. Na infância não temos dias sombrios. Temos leves manhãs e delicadas tardes. Brincamos. Somos a luz dourada da vida. Ao mesmo tempo somos a gota de luz que se dispersa. O veleiro de proa erguida que segue sem horizontes. Somos a manhã de verão e a tarde de domingo. Somos a jóia rara cujo brilho é inexplicável. Somos leves. Não carregamos fardos. Temos a ressonância brilhante da felicidade. Somos a sombra leve da árvore. E não suspeitamos...que um dia...ninguém saberá quem fomos.

Fusão

Atrás de mim...o longo hábito da tua sombra. Paciente...espero uma palavra. Um discernimento. Uma explosão de lusco-fusco. Atrás de mim...a cristalização das recordações. A silenciosa confissão de uma promessa...a acenar na evanescente maresia. No frio brusco vi a tua silhueta. Num silêncio terno um agitar de sentimentos. Os meus olhos ardiam no abafado da tarde. Bruscamente percebi em mim uma recatada chama. Uma confusão calma. Um fogo de artifício. Um furtivo sentimento de candura. Que se ia disseminando nas pregas do meu dia. Algures dentro da minha alma.

 

Procuro a vastidão longínqua de um sonho. O crepitar violento de um sentimento primordial. O tombo de uma fusão. O súbito sinal de uma clarividência iniciática. O fantasma. O mistério. O estrepitoso clamor de um mar distante. Um gosto. Um suspiro. Uma luz de chuva a adensar o ar. Enquanto lentamente me liquefaço numa amálgama de respirações profundas.

 

Que correntes nos prendem?

Que correntes nos prendem? Que aspirações abandonámos? Que névoa nos tolda o discernimento? Escassos perante o mundo. Sentados numa sala a ver definhar os dias...esmorecemos como a tarde que cai sobre o nosso ócio. Vemos a luz dos faróis acender-se. Vemos a luminosidade da tarde a esbater-se. Entramos no estado da eternidade. E sentimos que não temos resposta para a nossa dormência. Nem para a impaciência. Nem para a profética chuva que lentamente nos molha os sentimentos.

 

Temos que estar preparados para tudo. Para surpresas do nosso futuro que não imaginamos. Para as insónias. Para a subtileza de um olhar. Para preencher com alegria a nossa manta de retalhos. Para a eloquência de uma imagem fantasmagórica. Para todas as guerras que temos que travar...as maiores são as que travamos connosco próprios. Para os pavores. Para os nossos subterrâneos. Para o deflagrar de uma ira...ou de um amor. Temos sempre que estar como se estivéssemos perante um ilusionista feito de momentos perdidos.

 

É bom que nos esvaziemos. É bom abandonar os presságios à sua sorte. É bom dar vida aos relâmpagos que se afogam em nós. E é bom perder as expectativas...e submergir numa convulsão de segredos e mistérios que não queremos desvendar...a ninguém. Porque são nossos. Porque são sagrados. Porque nos atemorizam. Porque são barcos de sombras que se desviam dos dias. E apenas querem passar para o outro lado...o lado mais afastado do frio...que sentimos.

Cada dia um mundo

Estamos no centro de tudo. Do eco dos nossos passos. Das palavras e das máscaras. E até temos na mão a imortalidade. Basta acreditar que a temos ali...à mão. Todos os dias nos habituamos a uma nova conversão. Todos os dias sentimos a mística de um saber que não sabemos. Todos os dias habitamos os olhos secos dos gatos. As árvores. Os jardins. As horas. E todas as coisas em que nos empenhamos. Procuramos reflexos de nós. Rostos de nós. Espelhos de nós. Se nos acontece alguma coisa...sabemos que passámos na rua errada. Na hora errada. Na realidade errada. Como se tivéssemos atravessado uma névoa de tempo sem sentido.

 

Observo a linha que delimita o horizonte. É ali que estou. É ali que me pareço comigo. É ali que encontro todas as possibilidades de fuga. Um olhar me basta. Um peal me chega. Uma porta carcomida é tudo quanto me resta. Um reflexo é a minha casa. E a minha oportunidade de descobrir um lugar onde possa afastar as perguntas que não quero fazer.

 

A sombra toca o tempo. As cidades são lavradas por olhares fixos. Cada dia um mundo. Cada pretexto uma claridade. E até é possível que de máscaras opacas saiam rostos brancos. Lívidos. Como uma página em flor. Florescentes tempos que nos desfiguram os rostos. Insaciados desejos que nos possuem. Despojos de versos e de intensos verões. Onde depositámos as nossas bandeiras brancas. Agora...somos a cal e o bailado. Somos a tarde iludida...pela profunda delicadeza da vida.

Falemos das coisas que nos embalam

Falemos das coisas que nos embalam. Dos discos e dos livros. Dos matizes da escuridão. De um peixe vermelho a nadar num aquário de fumo. Por vezes ouvimos coisas. Acreditamos em coisas. Frases ou suspiros de gente sem rumo. E vemos as faíscas que as pessoas fazem quando se perdem nas metáforas.

 

Ao nosso lado está uma chave. Na nossa mão o sono disfarçado de um louco. Viver um dia...é admirável. Viver um século é viver uma sucessão de dias.

 

Não há lógica nos ritos nem nos símbolos. Não há estética no sono dos esquecidos. Somos o peso de uma vontade. Somos a palavra elementar que aquece o nosso próprio desamparo. Mas vale sempre mais sermos nós. É sempre melhor tocar a inércia das tardes. Não andar com passos hesitantes. Não divinizar os mistérios. Conhecer o opúsculo do mundo. E se reparamos que ninguém repara em nós...é porque ainda temos a alma inteira.

 

Não é grave fingir. Não é grave expôr a face aos ventos. Não é grave atingir aquele ponto em que somos apenas o baixo-relevo dos dias. E sentimos a febre ansiolítica de um céu pequeno. Nunca nos faltam oportunidades. Nem para a mordedura das cobras. Nem para o aborrecimento da consciência. Mas o melhor é sermos o cansaço carnal do vácuo. Seguindo numa liteira enfeitada com absurdas sensações de tédio.

 

Nada está mais alto que a luz. Nada é mais forte que as nossa algemas. Viver é sentir. E o nosso esforço para tocar nos outros é o que nos quebra as amarras. Isso e o desdobramento do universo em múltiplos mundos que nos entram na casa dos sonhos.

Vastidão

Construímos enfáticas estéticas. Cumprimentamos os privilégios e os privilegiados. Desvendamos os segredos das sínteses e das sintaxes. Procuramos ser o melhor dos mundos. Como pêndulos arcaicos e arautos de novas fés. Construímos oráculos e procuramos ruturas. Entre nós e as nossas emoções há um interregno de catarro. Um alastramento de alegria patética. Uma fórmula de aroma delicado. Desconhecido. E entre uma ilha deserta e um bago de sal...escolhemos ser o pé que se afunda na areia.

 

Vivemos na luminosidade cansada das esperas. Esperamos a vastidão imensa do mistério. Vivemos na sabedoria da esperança. E no espírito do desconhecido. Somos o concerto vazio. A sala despovoada. Estamos debaixo da chuva que a todos encharca. Desprotegidos e vacilantes. Gelados. Enjoados. Somos a folha de caracteres borrados. A folha que não arrancamos porque pensamos que podemos ter ali algo de bonito. E somos bonitos. Fumegantes. Basta-nos um pequeno espaço para expurgarmos a nossa bílis. Vestidos de negro aplaudimos a correcta distribuição da luz. Fazemos esforços. Para decifrar os outros. Para rebobinar os pensamentos. Para perdoar os atrasados. Para ganhar uma medalha de ouro...fingido. E por entre empurrões e olhos vermelhos lá nos vamos safando de quem nos quer ver ...sem ver.