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folhasdeluar

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Clandestino...

Prometo realizar o meu sonho. Porque eu sou a ânfora do espanto e a consagração de absurdos dias. Nos bolsos carrego clandestinas mercadorias...esses tais sonhos. Debaixo da pele sinto a memória de cidades que não conheço. Minúsculos fogos ateiam-se no meu espanto. São como irreais faúlhas feitas de clandestinos mares. Onde quer que vá...sinto o que de grande há em mim. A alma...possivelmente. Percorro as ruas em verdadeira liberdade. Passeio os meus estilhaços. E nas abóbadas dos suicídios vejo estreitas faixas de pessoas desertas. A minha matriz é o mundo. A minha evasão é o voo dos pássaros nocturnos. A minha consagração...a indolor ferida das flores.

 

Vagueio pelas impolutas frestas da inércia. Nasci de um eclipse letárgico. O meu parto foi a repetição perfeita de uma ordem antiga. No entanto...carrego em mim o desalinho e a liberdade das órbitas estelares. Sou criança e memória. Foto longínqua. Perfeição de grito e angústia escavada na sede dos desertos. E prometo rasgar a página. Sair de casa. E embarcar em líquidos horizontes...

É assim a vida.

Na vida há coisas que podemos escolher e há coisas que não podemos. Podemos escolher fazer uma viagem de carro. Não podemos escolher se vamos ou não ter um furo. É assim com todas as situações que a vida nos trás. A nós compete-nos viver e aceitar tudo o que o destino nos dá.

Letargia...

Havia um aroma a vazio na tarde. Uma sensação apocalíptica de desperdício ...percorria os infinitos raios de luz evanescente. A palidez do céu confirmava os meus pensamentos. Estava só perante o assombroso perfil do mundo. Lembrei-me de que toda a vida é um corolário de esperas e de despedidas. Todas as gargalhadas são momentos. Todos os rumos são transtornos. Em todas as arcadas a mesma solidão. Em todos os ventos o mesmo viver dos séculos. Em todos os nevoeiros o mesmo embargar das noites. Contudo...existe a liberdade e a evasão dos pássaros. Existe o eclipse perfeito e a letargia das ondas. Existe o musgo nas paredes e a erva tombada sob o orvalho. Existes. Existo. Logo não penso....e deixo-me ficar!

É fácil mudar de hábitos...o saco do pão.

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Pequenas coisas...pequenos gestos...pequenas lembranças...antigamente, antes da idolatria dos sacos de plástico, havia o saco do pão...ia-se à padaria com aquele saco feito de tecido enfeitado com bordados, ou feito apenas com restos de trapos...há tempos atrás  resolvi retomar esse hábito ancestral de ir à padaria com um antigo saco do pão, herança da avó...e foi engraçado ver o ar espantado de algumas pessoas que lá se encontravam, até a padeira, mulher criada lá para os lados de Penha Garcia, e que ainda se recorda desses tempos, disse que já não se lembrava de quando é que alguém tinha vindo comprar pão e trazer o saco...

Isto é apenas um exemplo de como, através de uma simples mudança de atitude, podemos mudar os nossos hábitos de consumo e sermos mais amigos do ambiente...

 

Nota -  se todos usarmos saco do pão, usam-se cerca de 5 milhões de sacos plásticos por dia, a menos.

Impurezas...

Em vão persigo a indiferença. Prefiro a morte a dizer que não amei todas as coisas. Movo-me por dentro de um tempo estático. As barreiras que se erguem são baluartes cuja finalidade é esconder a certeza dos dias. Pouco sei de faróis ou de gentes descarnadas. Faço a barba e escondo a face. Não posso dizer que sou mais que eu. Não posso afirmar que não me perdi. Nem posso esquecer este caloroso abraço do dia. Arrepia-me a desocupação das horas. Basta-me um parapeito e tenho toda a morte e toda a vida à minha espera. Não me canso nem me ergo contra mim. Nem contra nada. Tenho a devoção de um monge e a paciência do movimento intemporal das coisas. Quem me dera...pelo menos uma vez representar outro papel. Cair numa cilada...talvez. Ou desabafar como um ser que não quer ser mais nada que um Ser. Tenho os meus arredores. Vivo no preciso momento em que me dou. Tenho as dores dos marinheiros. E vogo...numa garrafa de vinho. O mar aperta-me a garganta. E não é preciso grande coisa para me ausentar do que me sufoca. Afinal...tenho a majestade de um rubi. E não sinto a vergonha dos... impuros.

Analgesia...

A minha fome contém a escorregadia ternura do esquecimento. Sou o lago e a treva unindo-se num abraço de calamidade. O dia é para mim...uma casa absurda. O esquecimento...é um límpido céu de tranquilidade. Ironicamente procuro a devastação da ternura. O analgésico despertar da realidade. O acre recomeçar do inverno.

 

Sou filho de uma surpresa. As ruas trazem-me a impoluta tranquilidade do espaço. Vagueio pelo teu nome e pela enfermiça tarde. Não conheço o fim das flores nem os canais dos céus. Os dias escorrem meigos e francos...pela minha alma. Um pouco mais de sol e abrirei as asas. Depois...é só escorregar pela imaginação. E...inventar os meus próprios absurdos. Inventar a minha própria invisibilidade.

Porque é que as pessoas se sentem perdidas?

 

O filósofo não é aquele que ensina filosofia...é aquele que vive de acordo com a sua filosofia.

 

Questionamos até à saciedade porque é que tantas pessoas sofrem de depressão, de stress e de melancolia?

 

Pois bem, é porque as pessoas se sentem perdidas nesta sociedade individualista. É porque as pessoas não têm uma filosofia de vida que sigam. É porque as pessoas vivem ao sabor do vento.

 

Estude-se a filosofia e aplique-se a filosofia à vida e certamente esta fará pelo bem estar psicológico do homem/mulher, bem mais que todos os psiquiatras, psicólogos e livros de auto-ajuda  juntos.

 

A filosofia é a ciência da vida. Alguns preferem a religião, mas ao contrário desta, a filosofia não tem dogmas, ou se os tem cada um pode optar pelo sistema filosófico que entender,enquanto todas as religiões vivem nos seus dogmas.

 

No tempo dos grandes filósofos gregos, a filosofia também era aplicada à governação. Leia-se a República de Platão e lá está a tentativa de encontrar um sistema perfeito para governar a sociedade.Se em vez de advogados e economistas tivéssemos filósofos nos governos, certamente teríamos sociedades mas justas e mais equilibradas.

 

A filosofia é desvalorizada nos tempos que correm. Ou porque as pessoas não têm curiosidade ou motivação para pensar a vida, ou então por razões culturais. As pessoas não procuram caminhos que possam explicar a vida. Então, deixam-se cair em depressões e atascam-se em comprimidos, quando deveriam ler livros...de filosofia...e outros claro!

 

É que viver...é manter-mo-nos em harmonia com o universo em que participamos,(como diziam os estóicos), e é nessa harmonia que podemos encontrar o sentido da nossa vida.

Até que chegue o inverno

Repugna-me a leveza de espírito e o suor do pânico. Falo a sério. Corro como um cavalo cego. Estalo como o granizo quando bate na janela. Pairo sobre as leviandades. Leio...concentrado...a filosofia de Agostinho da Silva. Só me falta fazer uma viagem em roda dos precipícios do mundo. Numero os meus sacrifícios. Cubro a minha fantasia com um nevoeiro de seda. Transformo-me na erótica vibração dos corpos. A minha maneira de sorrir é um pouco estranha. A minha maneira de ser é um mistério que desconheço. E quando levanto os olhos percebo a distante ignorância das pessoas.

 

Não vás...dizem-te. E debaixo dos teus pés estalam os desejos. Vai...digo-te. E quebra o gelo que te prende. Absorve os sacrifícios e os sacrossantos apelos da tua alma. Percorre as estreitas faixas da vida. Afinal...a fantasia é uma noite delicada. É uma mala cheia de coisas estranhas a pairar na tua cegueira. Nos quatro cantos de ti há um temor. Procura sempre o teu entusiasmo. O teu acólito fiel. A tua exalação do tédio. A tua perversidade. Parte todas as bolas de cristal. E vive na cristalina fome de querer sempre mais. Até que chegue o inverno...e te caiam as folhas.