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folhasdeluar

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Os olhos dos pássaros

Nesta encruzilhada de pedras e chuva

Neste cruzar de braços e rasurar silêncios

Vem o mim o cheiro a terra e sombras

Vem a mim a dança do nevoeiro

Vem a mim a carne do destino

Vem a mim a lama e o lume

Peregrino...

 

 

Nada do que imagino é como imagino

Nada do que calo é como o que não calo

Tudo está no cósmico coração do mundo

E nada é...mais que um reflexo da imaginação

Nada é mais que um tudo...

 

 

Estranha pose de homem pousado no céu

Estranho desespero a decifrar cinzas

A voz dos pássaros ecoa na imaginação

A voz das sombras perfuma os olhos do mistério

E nós?

De dedos floridos...

Cobrimos a nossa nudez com paisagens inventadas...

 

Calado procuro o peso do mar profundo

Charco de sol a queimar as horas

Calado desço aos labirintos perdidos

E agarro nos olhos dos pássaros para ver o mundo...

 

O que ficou de nós

O que ficou de nós na negrura da noite...não foram as palavras. Foi o silêncio. A tua cabeça no meu ombro. O sideral mistério. A Via Láctea. O rebentamento das ondas. Nós os dois. Ali. Ritualizados. O jantar. O vinho. A praia. O cálido bafo do verão. A ternura. Massiva. Pétalas de luz cresciam no céu. E nós...alastrávamos até ao infinito. Toda essa noite vem. Todas essas sobras de nós vêm. Crescem em mim. São as minhas sublimes conquistas do vazio. O que ficou de nós na negrura da noite foi a gratidão. O momento. A frágil doçura do instante. A calma. A intimidade. E não há palavras a dizer. Felicidade a exprimir. Há apenas minúsculas folhas de luz a esconderem-se nas ondas. Imagino-me ainda ali. A absorvo o frémito daqueles momentos. É curioso como as distâncias se dissipam na alma. Como regresso a um tempo intocável. Intocado. Fluido como as memórias. Um tempo que nunca arrefece...dentro de nós. Depois...um passeio. A areia. O triunfo de nós. O prazer do espaço e do longínquo farol. A nossa finalidade. A esquadria dos sentimentos. O sincronismo do olhar. O céu. O respirar fundo. A nostalgia. A condensação dos sentidos. Profundos. Finos. Como penas evoluindo na noite. Nós. Sós.

Serei sempre o mesmo.

Serei sempre o mesmo. Sangrarei a eternidade. Decifrarei o transcendental labirinto. Conhecerei a milenária intocabilidade do absoluto. Tocarei no humilde orvalho das flores. Serei tímido como o inverno. E com as minhas mãos desenharei o deslumbramento das noites. Sei que há uma arquitectura em cada homem. Em cada jardim. Em cada impossibilidade. Sei que o homem ergue pedestais em honra das imperfeições. E a saudade é uma janela por onde se espreita o frio da noite. Mas serei sempre o mesmo. Lerei livros e versos. Escutarei pianos e violinos. Olharei o céu e a neve que desliza pela janela. Queimarei as mãos com o orvalho. E terei um subtil prazer em cada hora. Terei tosse e febre. Existirei na minha submersão. Fecharei os olhos e vibrarei com a minha fé no silêncio. E haverá um brevíssimo instante em que acreditarei na minha ilusão. Mas sei que serei sempre o mesmo. Sorrirei ao perfume das marés. Tocarei a seda dos teus cabelos. Desvendarei mistérios. Atravessarei os corredores mais longos. Abrirei as janelas à noite mais escura. Sentirei a doçura de um dia calmo. Luminoso. Translúcido. Um dia em que definitivamente acordarei para a aragem dulcíssima do outono. Não farei perguntas. Plantarei flores. Acariciarei ternamente o teu corpo. Saberei dissipar as névoas. Caminharei em estradas e em desertos como quem flutua nos confins da imaginação. Mas sei que serei sempre o mesmo. Ainda que todos os dias seja outro.

Penumbra

Cheio de vento...de música...de tudo

Cheio de sonho e de frio

Cheio de mundo...de espuma e de fantasia

Cheio de um tempo raso e de um fingido silêncio

Colo a boca à noite...e prendo os olhos..

Ao luar!

 

O sol afoga-se num rio sem nome

As árvores são âncoras e artérias

Pelo ventre da terra escorrem flores de sangue

As estátuas suspendem o olhar

O crime perfeito acontece...

A música rebenta numa noite sem horizonte

As pessoas passam...renascem a cada passada

Rasgam perdões...irrisórios perdões

Aquáticas almas mergulham em pueris liberdades

E eu...ergo-me num quarto forrado a lâminas

Suspenso...febril...afogado na coalhada penumbra...

 

Dias de sentir

Tenho um tempo para encher. Tenho uma crucial verdade para descobrir. Existo como o prolongamento de uma sombra. Uma sombra sem limites nem espaço. A vida. O futuro a derreter-se...como a cera de uma vela. A escorrer...lentamente. Chopin. A música a escorrer lentamente...por mim. O futuro. A chuva. O frio. As chatices. Tudo a encher o tempo que tenho para encher. A resignação. A sede. Debussy. Vejo os olhos de uns olhos que não vejo. O futuro. Fluido como uma aragem. Comprimido em camadas de mim. O futuro a dissipar-se numa nuvem sem retorno. Ilógica a tarde. Ilógico o relógio...tic-tac. Alastrei com a minha infância até aqui. Trouxe-a comigo. Guardei-a. Enchi o meu tempo. Coalhei o meu tempo. E tenho medo de perder os meus passos. Tenho medo de ser apenas um passo...sem passado. Os meus olhos são um rio tocando os meus fantasmas. O sol é uma janela difusa. E eu digo que estou aqui. Eu sei que estou aqui. Toco na tua mão para sentir que estou aqui. E para sentir que tu também estás.

 

A mais bela profissão do mundo

A poesia devia ser de ensino obrigatório na escola. É a poesia que dá sentido à vida. A mulher/homem que gostam de poesia têm só por isso uma visão diferente da sociedade. Podemos chamá-la de “visão poética”. Na escola não se “treinam” as emoções. Tudo é baseado nos livros e na aprendizagem do conhecimento. Contudo é um conhecimento que mutila a criança. É um conhecimento que não “ginastica” a imaginação. É tudo pronto a “digerir”. A “empinar”. A maior parte dos professores,( talvez a culpa não seja deles, apenas), não passa de funcionários públicos. Só disponíveis para debitar matéria. Sem criar empatia. Sem criar uma interligação com a criança. Sem perceber que está a exercer uma das mais belas profissões do mundo....o ensino de uma alma virgem.

 

Edgar Morin, questionou a divisão da vida do Homem “entre poesia e prosa”. A prosa é aquilo que o homem é obrigado a fazer. A poesia é tudo o que dá emoção e exaltação. E sintetiza: “na nossa civilização, as forças burocráticas impõem a prosa”