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folhasdeluar

folhasdeluar

O estalo do céu.

Vacilam no meu corpo os pensamentos

A sordidez das ruas arde-me na alma

Antes que o meu olhar se erga...

Já eu levei o estalo do céu.

 

As minhas pálpebras estendem-se pelos murmúrios do vento

Que passa...rasante...pela minha imensa noite.

 

Pousei ...o olhar

Como quem solta um grito na secura dos caminhos

Vi...a altivez nefasta dos ciprestes

Corri...a entregar o corpo todo ao silêncio.

 

Esqueci a mordedura farisaica do frio

Acreditei que vinha aí o verão

Sacudi do corpo a inocência

As minha manhãs ficaram sem idade

Fechei-me numa redoma de mapas sem destino

Como uma casca de vidro percorri os riachos

E descobri um límpido sonho de morte

Na vetusta química dos corpos.

O êxtase das algas

Todos os vivos seguem esconjurando o bolor das cadáveres

Em fila...sorridentes...perguntam pelos dias dos outros

Amam a ilusão com uma ternura de xisto

Perseguem a escuridão com dedos de druidas alucinados

Para no fim perceberem...

Que até as flores apodrecem...

 

Indiferente à sujidade viscosa das línguas

Banho-me em chuva que se parece com afagos

Chapinho no silêncio...e seduzo os espelhos que encontro na rua.

 

Entrei...e multipliquei-me nas rugas da noite

Não precisei de alisar o mar nem de me mostrar na orla da praia

Eu...era apenas um cego num corpo de bosque

Tacteando o êxtase imaginário das algas...

Tempo de voltar

Aqui sou. Aqui estou. Preso na vastidão de um universo sem fim. Preso nesta gaiola sem grades. Imenso é o pequeno espaço por onde espreito. Imenso é o silêncio do mistério. Mas não há mistério. Há apenas uns calções a correr no caminho de terra batida. Uma bola que salta. Uma borboleta que serpenteia pelas flores. Ah...e imensas cigarras desgastando o calor da tarde. Entendo o que não entendo. O rio. A varanda. O sopro do vento na face. Abandono o peso da eternidade. Não quero saber da eternidade. Fecho esse horizonte ao meu olhar. Abafo essa vontade de crescer para além de mim. De saber para além de mim. Basta-me saber que estou aqui. Que o rio ainda corre nas mesmas margens. Que eu ainda posso trepar nas mesmas oliveiras. Ainda que elas já só existam na minha imaginação. Abro o peito. Espreito pela janela de trás. No cimo da serra as azinheiras espreitam os últimos raios de sol. As pedras suspiram silêncios. A vida é uma convulsão. Uma ideia frágil. É preciso que nada se diga e tudo se sinta. O vazio enche-se com o voo das carriças. Abro a janela. Liberto a minha sede de voar. E qualquer coisa me diz...que é tempo de voltar...a mim.

Sonho e pedra

Nesta cidade onde os passos são ruas e os sonhos são pedras

Coloco cautelosamente a alma sobre insondáveis relógios

E perscruto o tempo em cada espiral feita de instantes indefinidos.

 

Não basta implorar à boca anónima do vento

Para que o sonho se pareça com o lado impossível da noite.

 

É preciso que a indiferença não cresça na boca desta cidade

É preciso transformar os resto amargos das pessoas em algo soalheiro.

 

Se nos erguermos

Se formos pedra sobre pedra numa catedral de espelhos

Veremos o sorriso de um tempo verdadeiro a assomar por cima da nossa pele

Seremos a árvore plantada na beira de cada outra vida

A sombra aconchegante de um livro sem sentido

Seremos um caos erguido numa epiderme sem face nem textura

Porque somos...

Uma palavra...uma luz...

E não queremos ser...

Um apócrifo desmando do destino...

 

O envelope

Pegou na sua verdade com mãos de quem não sabe. Ao longe rumorejam pássaros. Sente-os. Pensa. Que parte dele pertence à vida? Que parte dele pertence a quem o vê? que parte dele pertence a quem ele não quer que pertença? Caminha pela noite de si. Caminha pelos secretos silêncios de si. Sente o refluxo de um profundo dia. Crê. Que o homem é apenas uma fracção de qualquer coisa. Uma fricção do invisível. Uma auréola impregnada de mistério. E roda sobre si. E roda sobre a fragilidade de si. E pensa. Nas coisas em que se apoia. Nos pequenos filamentos que o unem à vida. Na frágil sintonia com o absoluto. Na poderosa força do sopro que apaga a luz. Na rua... as luzes acendem-se. Os pássaros calam-se. As sombras distendem-se. Olha a noite. Sente a noite a crescer dentro de si. A noite grave. Com as suas janelas a iluminarem-se. Com os últimos passos de quem passa. Com a sua pacificação do dia. E a memória do que já foi desliza agora para o presente. Pensa se valeu a pena. Pensa em todos os pânicos. Em todas as fragilidades. Espera. Olha a noite. Ali está como se fosse plantado num oblíquo cisma. Olhando as implacáveis pedras da calçada. Condenado ao ventre da insónia. Condenado a assistir a mais um revoltear de alma. Enquanto uma claridade arrasa os seus olhos. E ele sente a vida a correr dentro de si. Insana. Fechada num discreto envelope...que ele teima em querer abrir.

Caminhos densos

Atravesso a nado a dureza do rio

O sol pesa-me como quando não consigo dizer o que sinto

Só me falta transpor o muro e escrever qualquer palavra que não diga quem sou.

 

Recordo-me do voo ilíquido das aves

Levanto os olhos como quem não é nada

Só me falta vestir-me de naufrago e abrir caminho como um homem teimoso.

 

Pergunto por mim ao lodo onde se afundam os meus sentidos

Agarro-me à boia insuflável da abstracção

Só me falta a imolação do meu corpo abstracto

 

Nem sempre sou uma palavra

Às vezes sou um descampado

Um tatuador de dias

E...um denso caminho.

Entardecer

Na cortina de cada rosto caminham as vozes que nada dizem. Um homem. Um rosto. Uma multidão. Um lume incontido. Uma janela...embaciada. Uma aparência de sol cresce na impassibilidade das luzes. Brilho de música. Debussy. Arabesque nº1. Alguma coisa para matar a fome de um impassível silêncio. Alguma coisa para alargar a alegria. Alguma coisa para promover o suicídio da angústia. E a pedra dos séculos sempre a carregar o peito. E o espinho sempre a cravar-se na vasto areal da alma. E depois o sol. O saber que existo por ti. Que existes por mim. Que o mundo existe por todos nós. Que as flores crescem para nós. Que as aves voam para nós. Que os mares são para nós. Que as folhas caem para nós. E que as andorinhas voltam para nós. Tudo tão presente. Tudo tão perto da mão. Tudo envolto numa estranha perversidade. Tudo envolto numa estranha cera...que se derrete com os dias. E saber que não precisamos de nada melhor do que aquilo que temos. Que podemos escrever versos. Olhar um céu de cobalto. Um céu sem nuvens. E saber que somos tão rudimentares. Cavernícolas. Crentes...no amor. Olhamos o barco que passa ao longe. Enviamos o nosso olhar nessa lonjura. Queremos sentir dentro de nós essa lonjura. Esse apelo. Essa profundidade. Essa florescimento da vontade. Essa branda vontade. Queremos envergar esse véu de ave branca. Para que o verão nasça. Em algum lugar. Em alguma hora...do entardecer.

Micro Narrativas

Era inverno. A chuva caía e arrastou os nossos corpos para a primeira vez em que nos encontrámos.

II

Tive uma varanda que dava para o voo das andorinhas. E sempre que elas chegavam eu sentia que voavam por dentro da minha própria primavera.***

 

***Texto selecionado para fazer parte de uma Coletânea de Micro Narrativas Ficcionais

III

Enquanto espero por ti, vou inventando aragens para te soprar ao ouvido e te fazer arrepiar.

IV

Vejo uma frase nos teus lábios, vejo uma carícia em cada uma das tuas mãos, mas lá fora, na vida, vejo um bafo de medo que nos pode separar.

V

Se ainda aqui estamos, é porque não nos esquecemos da impossibilidade de não estarmos.

VI

Enchi os olhos com o mar...depois levei-o até ti e esperei que me inundasses com a tua alegria.

VII

Quando a luz da lua me tocou, senti um frio de espada a percorrer-me o corpo, mas eu já sabia que o frio da luz é igual ao do calor dos olhos.

VIII

Nas grutas do silêncio descobri a misteriosa aflição das sombras e o rouco interior do mar.

IX

O céu brilha sobre as tempestades enquanto os ciprestes se desdobram em agonias.

X

Construí o meu destino com uma arquitectura de estrelas, depois foi só tive que travar conhecimento com a infinitude dos céus.

Confissão

Andava por aí a brincar com os dias tristes. Tinha numa mão a poesia e na outra uma interrogação. Seguia a rota das interrogações. Sabia que a primeira estrela chega para encher a noite. Que o primeiro raio de sol explode no vazio. E que o primeiro nome das coisas começa com um sorriso tímido. Sabe que o mundo tem uma face distorcida. Sabe que por vezes os sonhos são traições. E também sabe que a fonte das lágrimas não pode secar. Que seria de si sem lágrimas? Que seria de todos nós se as lágrimas secassem? Chegamos ao mundo para subir montanhas e calcorrear estradas. Para descobrir que nunca descobrimos a Verdade. Para descobrir que também podemos inventar a Verdade. E sermos mais nós. E sermos mais sãos. E crermos num futuro que fatalmente nos vai atraiçoar. Mas também podemos atraiçoar um futuro que fatalmente não será nosso. Rir. Ver a prata da lua nas searas. E escolher o dia do seu nascimento. Do seu renascimento. O dia em que qualquer pergunta esconde uma vontade de nada perguntar. Ser. Apenas ser. Ser-se. Enquanto o tempo se escoa pelas calhas dos prédios. Enquanto a chuva escorre pelo molhe da alma. Enquanto os candeeiros se acendem e alumiam o deserto dos becos. E a física das sombras tece enigmas intermináveis. Andava por aí a brincar com as palavras. Queria dizer aquela palavra que não saía. A esquecida. A intolerável. Aquela que enchia os regatos da vida. A palavra-temporal. A palavra-flor. A palavra arrancada de dentro. A palavra normal. Cheia de riso e de chuva. A palavra devoradora da obscuridade. Sem tempo nem hora. Nem vendaval nem tristeza. Apenas uma palavra. Qualquer uma...que o fizesse sentir aconchegado aos dias. E...na rua...esperava por alguém a quem a pudesse confessar.

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