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folhasdeluar

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Clareiras

Ai! Vinhos cintilantes de paisagens em socalcos

Ai! Sol roído de ciúmes dessa cintilação

Ai! Tom Waits ...companheiro de solitárias memórias noturnas

Venham todos a mim...tudo venha a mim...

Que sou grande e tudo suporto.

 

Venham mim os fios entrelaçados de cansaço

Venham a mim as árias crucificadas...

E as gargantas roucas de tabaco e álcool

Venham a mim os lobos solitários...marquemos encontro na Lua Cheia

Venham a mim as danças...as mesquitas...as famílias...

E as filhas de família...

Venham a mim os horizontes sem muros em derrocada

Venham a mim os doentes...

Que sou grande e tudo suporto...

 

Venham a mim as almas das seduções...e as línguas quebradas...

Venham a mim as filosofias que não sigo...nem entendo...

Venham mim as clareiras do espírito...dancemos...

Dancemos...dancemos juntos...

Que sou grande e tudo suporto!

Flor de lótus

Quando os ecos levantarem do chão as mãos queimadas

Quando a nossa roupa velha florir em flores de lótus

Quando as paisagens crucificadas ao progresso ressuscitarem

Quando todas as coisas rebentarem o mundo...

Numa explosão de tosse convulsa...

E as convulsões do mundo rodopiarem em encruzilhas errantes...

Acharemos toda a fecundidade dos sentimentos

Como se eles fossem atributos fáceis de carregar.

A nossa condição é sobreviver

O passado é tão longo como o futuro. Nesse intervalo vivemos nós. Sabemos que pertencemos ao universo. Não sabemos como aparecemos nesse universo. Somos um acaso? Somos poeira estelar? Tudo existe indiferente à nossa condição. A incerteza é o nosso destino. O nosso medo é a falta de conhecimento da geometria do mundo. Da Vida. Conhecemos a perfeição da natureza. Sabemos que as catástrofes fazem parte dessa perfeição. As catástrofes são a regulação do mundo. Esta catástrofe veio mostrar que é preciso parar. Que é preciso alterar a nossa forma de vida. Mais, veio obrigar-nos a mudar de vida. Estamos a destruir a natureza. Será esta uma das formas de rebelião da natureza? Estará a natureza a mostrar-nos a nossa alienação? Será esta desconstrução das nossas vidas uma procura do equilíbrio natural? Foram as catástrofes que permitiram ao homem chegar até aqui nestas condições. Foram as mortes por pandemias catastróficas que regularam o mundo. É uma visão cruel? Não me parece. Claro que ninguém quer morrer. Claro que todos queremos prolongar a nossa vida. Mas a perfeição da natureza é indiferente aos nossos desejos. A nossa contingência é sobreviver. A da natureza é seguir em linha recta. No fundo...o que nos dá a vida...também é que nos tira. E nós somos apenas a marioneta da natureza. Mas lutamos contra essa forma de domínio. Tentamos superar a natureza. Sempre sem perceber que não há uma razoabilidade no universo. E que dentro deste enorme vácuo...somos a deriva da vida. Mas há que sobreviver...é a nossa sina. Somos para a vida como o homem que cai inadvertidamente a um poço. Tentamos desesperadamente agarrar-nos ao bordo.

Novos valores se levantam?

Nós, cidadãos deste grande mercado do tempo. Vivemos fora do tempo. Parece-me que o que este período das nossas vidas nos trás, é uma imensa proporção de tempo livre,(do qual estamos prisioneiros), comparado com o que tínhamos, que reside um dos principais motivos da nossa angústia. O tempo que agora temos a mais, contribui para que tenhamos vontade de voltar ao que éramos. Vivemos na impotência do que o futuro nos dirá. Não estamos habituados a esperar. A nossa sociedade cultiva o agora e o efémero. Tudo mudou. Até a consciência (ou a inconsciência), dos nossos horizontes sofreram uma mutação. Não estamos habituados a pensar o tempo. Vivemos enterrados em pressas e opacos futuros. Era isso que nos distraía. Agora temos forçosamente que nos ligar a esse tempo essencial. Sentimos esse stress de não podermos dominar. De sermos dominados. De não sabermos o que o amanhã nos trará. Sucumbiremos à doença? Seremos afectados por ela? Somos invadidos por meteóricos medos. Por disformes temporalidades. Por doenças que ainda não compreendemos. O nosso isolamento social contradiz toda a nossa natureza. Somos seres sociais. Curioso é o facto de que agora queremos sociabilizar. Quando dantes éramos apenas distantes sombras passando pelo nosso semelhante. Agora somos mesmo essa sombras. Somos mesmo forçados a sermos essas sombras. Perdemos a nossa temporalidade. Esperemos que quando a tivermos de volta ela se nos apresente com uma diferente forma. Que a abordemos com um outro “estar”. Enfim...que sejamos outros.

Um e outro...

Tenho ainda tanto espaço para ti... dentro de mim

Pois há tanto tempo que sei qual a rua onde o frio te aflora

Que me pareceu perceber em ti um olhar por dentro do teu olhar

Vi na lágrima que tudo muda...tristeza e saudade

O teu corpo desprendido sabe o que eu não sei

Um dia...dissemos que tínhamos que partir...que era bonito ter saudades

Mas depois...as lágrimas perdiam-ne pelos corredores e pelos recônditos da casa

Eram lágrimas feitas de poesia...e havia tanta coisa entre ti e o meu mundo

Que sermos só nós dois... era sermos muita gente..

Era calor demais para os nossos corpos

Então houve um refúgio na saudade..

Um correr atrás de dias em que nada sobrava de nós

E percebemos que havia um caminho bonito e triste..

Um ensurdecedor trinado de ruas e ruas ...vazias

E só muito mais tarde arranjámos um lugar para nós...dentro dos nossos olhos

Um lugar profundo...em que o mundo nos disse que nada nos mudou

Fomos nós que nos mudámos...

E regressámos para voltar a abraçar o caminho do silêncio

E sermos apenas...um lugar secreto...

Onde o calor que nos rasgava era feito de frios intensos

E o que nos doía na pele...era não termos percebido a tempo...

Que nascemos num tempo que já estava perdido...

Um tempo onde nada nos restou... e onde fomos nada mais que nada...

Um e outro...

Finais felizes...

A vida tem a medida das coisas que nos fazem felizes

É preciso acreditar nos pedaços que nos compõem...nos sonhos...nas metas

Em todos os dramas que se instalam dentro de nós...como lareiras frias

Temos de acreditar sempre nos sonhos que deixamos por aí caídos

E continuar a fechar os olhos e a ser donos do mundo.

 

Sim..não sabes que podes dominar o mundo? Basta-te fechar os olhos e acreditar

Era bom que dormíssemos dentro de um estuário de sons e perfumes agradáveis

Tu a sentires que eu te entrava pela pele...eu a ser o teu abraço feito de dúvidas

Era bom que percebêssemos que só nos resta uma alma e pó depois dos nossos estilhaços

Os segredos que a escuridão juntou...ainda estão lá presentes

Mas eu sei que do silêncio sairão os pedaços de vida que instalámos nas paredes

As fotos e os espelhos ainda lá estão

Como finais felizes...

Onde tudo termina e tudo recomeça...

Estendo a mão e sinto o sopro da viagem..os dias e as noites navegam em mim

Deslizo pela brisa e pelo fogo..observo os carvalhos translúcidos...como seda

Saúdo as veredas... é primavera..

Abril precipita-se pelos pátios onde os narcisos despontam

Aspiro o perfume lento das figueiras...embala-me a escuridão repleta de harmonias

E alguém me pergunta pelas partidas...pelas Índias e pelos jardins carregados de sonhos

Bom seria que das fontes brotasse a luz...a embriaguês dos ribeiros

A fala dos corações esconde-se na bruma das margens..

Dessas margens onde vivemos...à margem de nós

Espero que voltem os dias de festa..e que as caravelas tragam a luz das lonjuras

Que o som do vinho a escorrer pelos promontórios...se agarre a nós...como um prazer

Mas é no caudal da memória que permanecem os olhos...

Como se fosse um esplendoroso dia...em que os poetas eram feitos de palavras

E em que todos os ventos eram mulheres de prata...belas e verdadeiras

Como noites e dias carregados de ondulantes doçuras

Onde tudo termina e tudo recomeça...

Como uma ampla voz afundada num poema...

Os velhos e o coronavírus (fábula)

A crise do coronavírus vem aumentar o rácio da natalidade entre bebés e velhos. Até agora era preciso aumentar a taxa de natalidade porque são os jovens que mais consomem. Os velhos (característica da idade e da falta de necessidades eram maus consumidores), não consumiam. Os velhos eram considerados uma despesa para a segurança social e os gastos com as suas terapêuticas e reformas, eram considerados excessivos e ameaçavam levar à ruína o estado social. Os velhos eram considerados apenas como dados estatísticos que consumiam imensas somas de dinheiro ao estado. Vivíamos num mundo alienado, cuja filosofia de vida era apenas e só a económica. Eis senão quando...se descobre que os velhos têm uma vida. Uma vida igual à de todos os cidadãos. Uma vida que é preciso proteger. E que ao protegê-la estamos a proteger também a nossa. Talvez agora, e num futuro próximo, se criem condições sociais e económicas que respeitem os velhos. Os velhos (não como um adjetivo) mas como pessoas que viveram (muito) e que merecem todo o nosso respeito.

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