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folhasdeluar

Poesia e cenas do quotidiano

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Poesia e cenas do quotidiano

Ampulheta

Polifónicas ampulhetas marcam a compasso o tempo dos desertos

Esses desertos onde o tempo é deserto

E é feito com as cinzas da carne coralina.

 

Aí... onde o sossego é uma transparência de espuma e vento

O nosso retrato é uma espessa mão a acenar ao mundo... a gelar no mundo

Os nossos dedos descarnados cavam o chão da terra...

Barcos sem rumo perdem-se nas vielas

Docas de silêncio encostam-se às luas mais ocultas

Esconsas noites apegam-se ao renascer dos corpos.

 

Há uma força bruta que se solta da pureza dos ventos

Por dentro das tempestades jazem homens inquietos

Sombras celestes cavalgam a loucura dos homens

No leito do sonho acordam tempestades de fogo

Como feridas de náufragos antigos a tactearem as brumas da poesia.

 

Passo... e traço um risco sobre a limpidez das casas

Conjugo as horas com as pequenas estrias de uma espada intemporal

Um lago de sangue escorre dos meus braços

Sou a imperfeição das pedras a atear fogos de cristal.

 

Poderias passar por mim sem que eu perceba a tua sombra

Poderias raspar a minha pele como quem safra a linguagem das medusas

A bem ou a mal aceito tudo o que chega ao fim

Aceito os passos desentendidos do cansaço

Aceito querer-te com se fosses a límpida conjugação do amor

E lamber as tuas feridas com o meu sono de luar e cobalto

Aceito que tudo se resume a uma água que corta a direito...

Uma torrente aflita...um espasmo

E depois...como sei que tudo cai...como uma noite sem fim...

Aceito-te...tal como és!

Variações sobre uma teia de aranha

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No centro do meu mundo... aguardo.

A vida pode ter brilho...mesmo à noite...

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Gotas de chuva estremecem na teia...

Cristais que escondem o escuro do mundo.

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A suave luz da lua...

Parábola de precário equilíbrio ...fino fio de seda.

A alma do Homem.

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Pendurada na lua...teço o meu caminho.

Na vida não há mais que um caminho...

É aquele que seguimos e pronto...

Mesmo que ele seja um fio de lua a espreitar pela nossa alma.

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Colo-me ao céu...vivo na suspensão do absoluto.

 

 

Vela sem tempo

Laje seca... para além de ti há uma ferida que bebe o cálice de outras eras

Cálice imerso em preguiça e tempo...meta de trópicos desfolhados por instantes

Desencontro de lavas oceânicas dispersas em passados de vagas memórias

 

No fundo das vozes há um abrigo de pele e seda

Princípio de outras eras onde a nossa pele se desfazia em sede de saudades

 

Entrego aqui as minhas mãos roídas pelo zinco dos dias

Deposito além os meus olhos fundidos no amarelo das acácias

Quantos passados passaram por mim?

Quantos anos me disseram que respirar é o mesmo que habitar o corpo da vida?

Já não sei... só sei que continuo a respirar

E a dizer que amo todo o vento que escorre pelas fachadas do meu corpo

O vento que faz abanar as gotas penduradas nos meus portões de ferro

E as terras e os lagos e as candeias que ainda se acendem nas noites frias do medo

Que me despertam como raízes de cruzes encerradas no fresco da noite.

 

E se de repente uma revelação se pendurasse nos ramos luminosos das gaivotas

E se todas as frescuras inexplicáveis das ervas me contassem

As traições que vivem no esboço de cada pessoa...

 

Agreste silêncio... infinito rio correndo sobre as dores das horas

Coincidência de mão a tocar o destino das portas cerradas

Futuro devorado pelo presente... brisa de pavores serenos

Voz inteira que ri e chora na penumbra roída das chamas indefesas.

 

Se eu pudesse guardava na minha algibeira todos os quadrantes e todos os sóis

Se eu pudesse correr como uma vela sem tempo nem alto-mar

Dormiria sobre a carne nua das marés...contigo a baloiçar...

Dentro de mim.

 

Finalmente....

Finalmente aconteceu. O governo aprovou à Universidade Católica, a iniciar em 2021, o seu curso de medicina. Como já era esperado a Ordem dos Médicos opôe-se. Diz a Ordem que os medicos que se formam em Portugal são mais que suficientes para o nosso SNS. Pergunto: se são mais que suficientes, porque é que há 700 000 pessoas sem médico de família? Porque é que no interior há falta de médicos?

Este peso sobre as costas...

Não quero mais este peso sobre as costas

Não quero mais este tempo vestido de abutre

Não quero mais estas trevas escorrendo no negrume da noite

Não quero mais ser a sentinela...do corpo frio....

Quero percorrer...

Saturado de volúpia.... e de ombros nus...como um budista melancólico

O caminho lancinante do esquecimento...

Os anos cheios de pequenas coisas

As noites negras...as lágrimas doces e profundas...

Por isso...não me tragam mais anos...não quero mais dias

Nem trevas atraentes...nem caridades enfeitiçadas

Deem-me espaço e tempo...luz e movimento...

E eu farei de uma cabeça tenebrosa...algo vago...

Como uma harmonia...ou um sentimento imenso...

Uma banalidade... ou uma ideia atroadora...

Uma bela ambição...ou um espelho refletindo navios...

Uma aversão...ou um fogo triste...

Usarei todos os saberes...em todos os momentos...

Em toda a profundidade do oceano...

Em todo o sentido da existência...

Em toda a tenebrosa melancolia dos cadáveres...esquecidos...

Em todo o poder atroador da nostalgia...

Farei tudo o que quiserem...

Atravessarei uma auréola flutuante

Apanharei uma língua caída na lama

Repousarei num uivo...ou num sorriso largo...

Comerei a minha aversão à vingança...

Mas...tirem-me este peso das costas....

Arbusto....

Pergunto à nova hora o que faço aqui

Corpo e alma desertos de nascimento...superstição e demónio...

Que música cantarei nos céus...se não sei cantar

Que sabedoria apresentarei a Deus...se nada sei...

Quem lá adorarei...se tu lá não estás...

Que tirano encontrarei sentado para me amaldiçoar

E para me dizer que ganhei...a paz....

 

Mas...digo à nova hora o que já não faço aqui

Digo-lhe que já não vejo natais nem luzes...

Digo-lhe que já não oiço os desertos

Digo-lhe que já não amaldiçoo a vida

Digo-lhe que já não ranjo o dentes quando não te vejo

Digo-lhe que as minhas queixas...de mendigo...

São o sangue seco que jorra dos cânticos

E que eu já não sou um arbusto...

Plantado em solo infértil...

A sombra dos muros...

Desconstruir o tempo. Desconstruir os muros. Desconstruir o futuro. Desconstruir o nosso medo. Acusar os outros. Dizer que é deles a nossa culpa. O difícil é dizer quem somos. O difícil é assumir quem somos. A ignorância não é santa. A sabedoria não cai do céu. E temos a nossa luz. A nossa luz que por vezes faz sombra aos outros. Cria a sombra nos outros. E quanto maior a sombra menos luz temos. Menos temos da luz dos outros. Menos brilhamos. Então...sejamos luz sem brilho ofuscante. Sejamos pensamento sem ofensa. Equilíbrio de luz e sombra. Porque somos sempre outros...dentro de nós próprios.

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