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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Olheiras

Oh vaidade da carne lavada em sombras...

Tu que tudo podes e tudo queres...

Dá-me o sabor da perversidade

Deixa-me passear na noite do teu jardim...

Deixa-me ser o ágil leopardo de olhos profundos...

Que escala a tua pungente muralha de sonhos vagos

Deixa-me ser a manhã graciosa...

Que acorda nos teus lençóis de linho branco

Deixa-me ser o teu obscuro raio...

Que de tão fulgurante perdeu a luz

Na secreta noite assediante e caprichosa...

Em que guardei o teu corpo...

Dentro das minhas olheiras negras!

Ruas estreitas...

Estreito verão. Fino sono. As ruas são fios de prumo a oscilar no silêncio dos rostos. Nada há de novo. Nem velozes precipícios. Nem contágio de almas. Alguns conhecerão eróticos amores. Outros deambularão pela calada das marés. Hoje é o ontem. Amanhã é o ontem. O futuro despede-se da boca molhada. Os pontos unem-se. Estreitam-se os laços. Floresce o furor na hostil face. Breve abertura de sol. Breve fecho de paz. Julgamentos à razão de mil à hora. E nada. Nada para julgar. Nada para entreter a maledicência inata. E tudo porque o sono é um bicho fugidio. Um espinho milimetricamente cravado na carne da noite. Um espaço-tempo feito alameda. Um desencanto feito infinito. Um breve apoio nos fundamentos do pensamento. E antes agora que nunca...declaro...que sem ti a boca é uma ave sem ária. Uma desconsolação. Um tempo vazado. Uma fenda nos dias. Uma moribunda maré. Um começo sem fim...onde as ruas estreitam o olhar.

A flor exposta ao vento...

Deixa que o teu beijo crie rugas na minha face

Deixa que o teu beijo envelheça na sombra dos meus olhos

Deixa que o meu olhar reme contra a tua corrente...

Que sem saber de onde vem...trauteia uma ária longínqua que me contamina

Deixa-me empurrar a paixão com a minha voz húmida ...e presa à tua sombra

Deixa-me assobiar aquela música que reclama a eternidade...

Da nossa alma renascida...como um desejo...

E se o teu olhar crescer sobre um beijo...

E se o teu corpo se enroscar num sorriso...

E se a tua alma cair murmurante de desejo...

Então...é porque no céu a orquestra divina rejubila

É porque o leite deu flor sobre a vida

É porque o espaço grita sobre a eternidade

Que a poesia não morre...que eu não morro...

E que nós fizemos dos nossos dias..

Uma festa com relâmpagos e trovões...

Que triunfaram sobre a penumbra densa...

De uma delicada flor exposta ao vento...

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