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folhasdeluar

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Não posso estar parado

Não posso estar parado. Todos os dias tenho que me reconstruir. Todos os dias tenho que absorver palavras. Aromas. Circunstâncias. Todos os dias tenho que me entranhar no altar do tempo. Descobrir maçadas. Empoleirar-me em charcos de verão. Sorrir. Não posso estar parado. Tenho que cometer o suicídio do silêncio que transporto. Tenho que me surpreender com a sensibilidade das palavras. A vida é um guizo que agito. Que me agita. Vivo a eternidade mineral dos segredos. Quero plantar um jardim e colher o castigo das ruas. Já não sei qual é a minha idade. Não me importo com a idade. Tudo desponta em abril. Tudo amarelece em setembro. E não posso estar parado. Sou a primeira ave a poisar no galho despido. Sou o pontiagudo cipreste que aponta o infinito. Sou o aluvião que anuncia a fartura. Não posso estar parado. Há imensas tempestades que tenho que interpelar. Plácidas rugas que tenho que perceber. Infinitas cigarras que tenho que escutar. Assombros e astúcias. Implacáveis desertos. Adolescências esquecidas que tento absorver. Distanciamentos. Olho a trepadeira que tapa a parede. O vento agita a buganvília. Está tudo certo. Só eu...não posso estar parado.

 

À deriva...

Câmara escura. Retiro de silêncio. Lugar onde lapidamos emoções. Desejos. Sonhos. Fantasias. Vastos são os rumos que correm ao nosso encontro. Vastas são as margens que podemos percorrer. No fundo de nós ergue-se uma claridade. Um sussurro. Um espelho onde cintila a nossa febre de vida. Exaustos esquecemos as preces. Selváticos buscamos a paz. Estreita rua. Fraco riso. O canal do tempo a desviar-se de nós. Uma música ergue-se. Uma voz acorda-te. Palidez de pó na tua resignação. O vento convida a errância das folhas. Alma dispersa. Rumor de fundo. É preciso reunir em nós o poente e caiar as paredes. É preciso que os pátios clamem por nós. E o caule das ilhas floresça na nossa distância. Que o nosso olhar não se fixe em turbantes de seda. Olhemos mais além. Rente ao nosso peito correm os alísios. As nossas mãos vomitam vastidões. Querem segurar essas vastidões. Esses espaços onde respiram as vozes antigas. Esses espaços onde principiámos a ser pessoas. E onde nos banhamos como náufragos. Ou como flores que boiam na superfície das ondas. À deriva...sempre à deriva.

O descalabro na saúde

A desfaçatez devia ter um limite. Agora todos os partidos e candidatos desses partidos (extrema-esquerda e extrema-direita)que votaram contra o confinamento,e até sindicatos que pertencem aos mesmos partidos, exigem agora o fecho das escolas, ( e com razão, a decisão de fechar as escolas só peca por tardia), mas o que me indigna é que tudo serve para atacar o governo. Se o governo confina, ai da economia, sem economia morremos todos, esquecendo que o confinamento é passageiro, e o que é preciso é apoiar as empresas forçosamente confinadas.

 

Ainda sobre o encerramento das escolas, parece-me que há aqui uma grande falta de raciocínio. Não acho que fechar as escolas (um mês ou mês e meio), vá afectar os alunos, desde que sejam implantadas medidas. Quais? Simples! Vivemos ou não um período extraordinário das nossas vidas? É claro que sim! Ora isso exige medidas extraordinárias. Uma delas é que para compensar os alunos se prolongue o ano lectivo com o mesmo tempo em que as escolas estiverem fechadas.

 

Bem já sei que me vão dizer que isso não é possível. Que os sindicatos vão protestar. Que ao prolongar o ano escolar vai prejudicar as férias dos pais e dos professores, etc, etc, etc. É por isso que é tão difícil governar neste país. Com o governo acontece o mesmo que em muitas empresas. Quando há uma ideia nova, em vez de se ver o que pode beneficiar, diz-se logo que não vai ser possível implantar. Talvez seja esse o defeito que nos trouxe até este descalabro na saúde. Esse e a inconsciência aliada à falta de civismo de tanta gente estúpida.

Claro-escuro

Olho a luz que entra por esta nesga de janela. Olho os pássaros que emergem em nuvens de liberdade. E sinto. A alegria do mundo. O perfume dos campos. A surpreendente variedade dos sentimentos. Daqui vejo o impagável sentido da vida. As sombras e os sorrisos das plantas. O vento ameno que perpassa pelos vidros trás consigo a simplicidade dos sorrisos. E descubro que em tudo há sorrisos. No sol que nasce mesmo aqui em frente. No claro-escuro das folhas que ondulam na laranjeira. No sabor transparente das coisas que vislumbro dentro de mim. A minha lucidez diz-me que não deixamos marcas de nós. Diz-me que mesmo que as deixemos não as poderemos ver. E que isso é o mesmo que as não deixar. A minha lucidez diz-me que tudo é verdadeiro. Que a folhas caem em janeiro. Que as marés são maiores no inverno. Que o tempo pode ser uma sumptuosa festa. Que ser sério é uma ironia. Que levar as coisas a sério é uma ironia ainda maior. Que o que conta é escorregar pelos absurdos da vida como se eles não existissem. E que nos devemos alegrar com a chuva e com a profundidade do Universo. Que o que conta é sermos universos. Instáveis e sólidos. Que o que conta é cobrirmo-nos com a película da amizade. E saber que o sol que nos aquece é o mesmo que aquece os outros. Que o conta é saber que não há razão nenhuma em termos razão. Que não precisamos da razão. E que todas as coisas são janelas por onde nos espreitamos. É por isso que somos tão raros. É por isso que não devemos ser tão infelizes. A infelicidade não nos faz falta.

Fome de estradas.

Sobre a veia carnificada

Corre a mão que lança o sal sobre a simetria da morte

Na paisagem de pedra rodopia a madeira da memória

O coração respira por um gargalo fechado

Que se redime no galope pueril de uma queimadura

Lunares gargantas empinam-se no gelo de cada mão

O corpo é um remoinho perdido no enredo das ruas

A respiração corta a direito a largura dos precipícios

Dos olhos sai uma imagem cinematográfica

O sangue  levita no vácuo das pedras

O centro do vento afoga-se em redemoinhos de ternura

As mãos explodem

As raízes entranham-se na leveza púrpura do caos

A carne expôe-se à luz

A órbita dos incêndios expande-se

A foice corta o abismo da paisagem

As ervas ostentam uma elegância hirsuta

É o verão a dormir nos seixos dos espelhos

A respirar pelos músculos dos dias

A luzir na transparência dos aromas

Todas as coisas correm na torrente que nos cerca

As lutas...a escuridão...as aparências

A doçura profunda de uma luz

Somos a estrela solar

Que brilha...numa inesgotável fome de estradas.

 

Profundidade...

O frio entranha-se na pele. A distância escorrega para dentro de um instante. A memória é um bicho alado. Os segredos não precisam de desculpas. São segredos. Uma porta fechada é um detalhe. Uma emancipação. Um fruto cai no chão. O tempo apodrece no sofá. Todas as coisas compõem delicados poemas. Compreender o espaço. Requalificar a luz. A indiferença é um olhar parado. A música produz invisíveis arrepios. Os homens olham os dias baços. Aceitam o chão que a vida lhes dá. Sentam-se na loucura. Traçam círculos em redor de si. Estendem as mãos. Empedram as ruas empedernidas. Semeiam hortelã nos canteiros. Colhem limões. Sair de casa é ir ao encontro dos céus. Ficar em casa é corroer a alma. O tempo apaga as tabuletas. As letras evadem-se. O nome próprio de cada um é uma fina camada de ironia. Uma distinção. Os homens encostam-se às esquinas. Aceitação de vidas paradas. O caminho para lá é o mesmo que para cá. Nas estradas encontram-se futuros incandescentes. No final...enfrentamos o vidro do inverno. A nossa lareira é o futuro que desapareceu. A nossa vida é a fotografia que rasgámos. Sabendo que ser imortal é colorir o silêncio...com a nossa profunda sombra.

Um chá e um biscoito

Um chá e um biscoito. Pequeno momento de felicidade. O calor do chá a contrastar com o frio do dia. O sol. O céu sem nuvens. O rio cinzento a mostra-se sisudo. A névoa ao longe. A outra margem. A paz de uma tarde. Tu e eu. A música. Matt Berninger. Uma janela. Um fio de vida a espreitar por nós. Os telhados vermelhos debaixo do nosso olhar. O suspiro do céu. O peito aberto da luz a entrar em nós. O aconchego do calor. A simplicidade de um sonho. Oferenda de vida. O extremo das coisas que não sabemos explicar. A descrição do amor dentro de um olhar. O súbito mundo a projectar-se em nós. A caminhar em nós. A tarde a desvanecer-se num imenso doirado. Deslumbrantes são os dias em que percebemos a lição da vida. Deslumbrantes são os dias escondidos nos nossos vales secretos. Que só nós pisamos. Alheios ao mundo. Alheios às ondulações do tempo. Como faíscas cuja combustão inflama a nossa alma. Aceitando as oferendas que nos caem nos braços. Como se fôssemos mistérios de um tempo indiferente.

Delicadeza...

Sonhava destilar o corpo das rosas

Só para saber se davas por isso

Só para sorrir da demência das noites

Só para saber se cantavas

Na delicadeza estrutural de uma manhã pura.

 

Uma suave agonia espalha-se na sombra de Deus

Uma mão ergue-se por dentro da ilusão

As ruas têm a suavidade dos sinos

A morte respira pelo sangue das lágrimas

A melancolia apodrece sobre as rutilâncias da carne

E as crianças entoam sinistros cânticos de embalar

Como se fossem flores a explodir

Nas cordas de um contrabaixo.

 

Que estalem as visões

Que Deus adormeça numa redoma de seiva

E nós...pobres seres fundamentais

Lavemos os sexos nas penumbras caídas da noite

 

O espírito dos campos ergue-se pelas colinas escarpadas

Tudo o que sei...

É que o açafrão se alimenta das papilas dos homens

E a cinza vive da infelicidade do fogo.