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folhasdeluar

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A alma nova

A lua nova...a alma cheia...

O vagido suspirante dos corpos

A palavra sem sentido nem maioridade...o vulgar...

Mortos os ecos...

Restam as frases e as letras...fundidas em silêncios

As sombras...adoram a luz...são feitas pela luz

Os metais fundem-se em ligas...

E nós?

Se fosse possível a nossa fundição...

A nossa afundação no outro...

Como seríamos?

Um feito do outro...o outro feito de nós...

Ligados como o bronze...o cobre com estanho...

A nossa alma fundida no amor do outro

De que cor seria feita a nova vida?

De que material seria feita a nova alma?

Que outro seríamos?

O muro branco

Havia um muro branco onde o luar florescia

Pérolas de luz caíam na madrugada

As ruas refletiam o nojo magro da solidão

No quarto uma luz despida dispersava-se pelas paredes

Nocturnos melros assobiavam aflições

O soalho era uma afirmação de velhice obstinada

Havia um drama em cada estrela

Havia um beijo em cada lua

O silêncio dançava a sua própria música

A razão era uma metáfora cega

A escuridão era uma boca a engolir a alma

Atravessava-nos um sentimento de carne violenta

Um clarão de prata desfazia-se na lonjura...não havia horizonte

No meio de nós a insónia sentava-se como uma fábula dormente

Aqui e além o granito tragava as águas

Voltaicas raivas estremeciam na profundidade dos olhares

Os espelhos esgotavam-se em imagens feridas de saudade

Porque sabiam que os poros da alma exalavam ventos glaciais

E a beleza vasta do espaço inclinava-se para dentro das artérias

Como se um cavalo galopasse na penumbra do sangue.

Subtileza...

Tive uma vida que se acendia nas horas de incerteza

Tive uma queimadura

Que estrangulava a minha vontade de buscar a madrugada.

 

Na boca eclodia a simetria de um beijo

Na profundidade da chuva vivia o salgado de uma cidade

Quem diria que cada coisa tem o perfume de uma brisa transparente

Quem diria que da veloz combustão do poente nasce uma nova artéria...

E uma nova vida

E que no anis das ondas o silêncio ergue a profundidade do seu olhar

Juro que vi a branca flor do tempo a acenar ao galope da vida

Juro que vi o rumorejar azul do céu a entabular conversa com o florescer do sonho.

 

Abrupto lençol de luar a espalhar vazio pelas paredes lisas

Adejante nuvem a sibilar esquecimento nos cedros do tempo

Na embocadura de um jardim perdi a ardente frescura da manhã

E ri-me...porque tracei um círculo à minha volta com o vazio das estrelas

E descobri que por dentro de mim levitavam ilhas e esvoaçavam peixes.

Com subtilezas de magnólias enlouquecidas.

Delírio de fogo

Aquele que foi e já não é

Aquele que se disfarçou de riso e de comédia

Aquele que se acendeu nos olhos das aves

Não passa agora de um braço em riste

Onde desponta um dedo

Que aponta as saliências do futuro.

 

Aquele que num delírio de fogo escreveu poemas

Aquele que se confundiu com as sombras da floresta

Aquele que se extraviou por dentro da febre de ser apenas ele

É hoje uma transparência de perfume e vento

A acenar à neve que se solta das artérias do ar.

 

Aquele que roubou as cores e permaneceu por dentro dos instantes

Aquele que avançou pelos dias com a leveza de um astro insaciado

Aquele que flutuou na etérea fímbria da realidade

Agora só espera que uma aguda noite o transporte

Para dentro de uma folha que voga na brisa leve dos limoeiros.

 

Ruben A.

Kaos 2.jpg

Kaos é um grande fresco da psicologia individual e social portuguesa, uma pesquisa da nossa identidade como pessoas, como cidadãos e como país.- José Palla e Carmo

A acção passa-se no tempo da Implantação da República, o 5 de outubro. Ninguém descreve as idiossincrasias  do português como Ruben A. - 26/maio/1920 a 26/set./ 1975.

Deixo aqui algumas saborosas "pitadas" sua escrita:

"As pessoas de anarquicamente podres passaram a viver anarquicamente vivas e no desabrochar das suas liberdades visitavam-se de casa em casa na desconfiança de quem podia deitar mais uma acha ao descrédito do novo regime....[olhe está a passar  muita gente, fala o Costa, fala o Almeida, vai ser um falatório tão bom, gosto das falas, dizem sempre a mesma coisa. Os outros,( a monarquia) não falavam, pois não?..[e as nevroses começaram a ser estudadas à custa do corpo da veneranda figura  do Dr. Miguel Bombarda, sujeito às ânsias de matar num cérebro comandado por anomalias psíquicas. E o estudo do organismo da alma era fenómeno a que os padres expulsos podiam dar o seu valioso contributo pelas multiplas confissões estranhas de crentes prontos à redenção do corpo para a felicidade do Eterno.

E ainda falta falar do Zémacho, personagem que neste livro representa o zépovinho do Bordalo.

Ler Ruben A. é descobrir a essência do português.

Dez pensamentos #2

I

Faças o fizeres,é preciso que o faças com alegria e entusiasmo. Ou serás sempre um palhaço triste fazendo pantominas no circo da vida... onde o tédio é como uma tenda de angústia acinzentando os dias que te cobrem.

II

A função do poeta é pegar no sílex das palavras e incendiar a vida...

III

Quando os dias nevoentos nos encerram numa melancolia distante... sobra-nos o tempo calmo das manhãs ternurentas...

IV

Falamos do tempo como se fosse uma coisa palpável, como se o tempo se movesse connosco e com todas as coisas, mas o tempo é apenas um eterno momento parado no presente, e é nesse presente que nós e todas as coisas envelhecem e desaparecem.

V

A essa estranha força de vontade que nos faz encontrar sentido  nas coisas que não fazem sentido...chamamos Vida.

Vivemos a vida pela vida, procurando o eterno sentido das coisas, querendo alcançar o momento da descoberta do nosso mistério, agarramo-nos a essa ilusão como se fosse um refúgio onde o Tempo é apenas uma mera intenção cíclica da Vida...

VI

A ganância não se quer a si própria, quer o mundo, e possuindo-o, quer ser ela própria o mundo.

VII

Também nós somos aparências... em virtude de chegarmos e partirmos, de aparecermos e desaparecermos; e embora venhamos de parte nenhuma, viémos para tomar parte no jogo do mundo.

VIII

Viver é ser como as abelhas...saltitar de dia em dia...sugar o pólen dos sonhos...e depois construir histórias com o mel que colhemos...

IX

Falo da vida que vivi como se fosse um estranho dentro do meu corpo e porque parece que não fui eu mas um outro que a viveu,como se estivesse aqui e em outro lado e não apenas aqui onde estou.

X

Os sonhos ao realizarem-se...morrem... e é para não morrerem que os sonhos caminham sempre à frente do homem.

Enquanto que o homem para viver... corre sempre atrás dos sonhos.

Túnel...

Longa corrente de dias. Orla de explosão e de folhas caídas. Na vidraça um rosto de velhice. Na neblina um certo despertar. Dobra-se o corpo. Tragédia de solitários tempos. E a memória dos pássaros sempre a afoguear a longa tarde. Somos feitos de marés rasas. Melancólicos invernos entranham-se em nós. E mostramos a cara ao frio. A cara. Compêndio de ruas antigas. O frio. Vasta pedrada na alma. O rio passa. A música anima os barcos. Os outros passam. A música agasalha as emoções. As pedras desgastam-se. A maré leva e lava a alma. Somos o retrato do que merecemos. Somos a filantropia do vazio. Guardamos o gesto conciliatório para dias mais quentes. Reclamamos saudações e abraços. Nunca saberemos quem atravessa o nosso longo oceano. Túnel de vento e fadiga. Mas certamente saberemos escolher o caminho asfaltado...do sem regresso.

 

Posso tocar nas pétalas de uma flor caída. Posso pisar os grãos de uma areia imaculada. Posso pôr na terra todas as sementes que cheguem às minhas mãos. Posso sentir a suspeição das horas. E fazer a síntese das palavras mais altas. Dos sentimentos maiores. Posso ceifar as sombras que me carregam. Enquanto um ócio de vida me persegue. E os campos correm ao meu encontro. Como quem abraça um terraço de estevas. Ou um ilícito recital de cigarras. Que ignoram a força que sustém o meu rosto altivo. E transparente.

Veneráveis sóis

Do fundo de mim jorram sóis cristalinos

Crescem futuros e cicatrizes

Cores...diluídas em contornos de sorrisos

O dia corre...desloca-se em todas as direcções

E por todo o lado se vêem as aparências

Rompe-se a direito...corre-se

Somos o relógio cronometricamente avariado

Aos poucos rompemos pela imensidão do céu

Afagamos a multidão que não vemos

Seguimos pelos passeios

Levando dentro de nós a calma das tempestades

Interiores...

A nossa deslocação não produz qualquer acontecimento

Não temos volume

Somos pulsação...escárnio...

Veneráveis adereços das ruas

Livros desfolhados...bolas algorítmicas...

Algarismos do imprevisível

Zeros apertados em estreitas passagens

Convulsivas luzes...estados de espírito

Da nossa negridão abre-se um tecto

Por onde saem as palpitações

Do nosso coração.

 

Pele...

Jantámos...

Depois...fomos ver o mar

Mas não se via o mar

No breu da noite descobria-se a rebentação das ondas

A Via-láctea engastava-se em nós

Brilhava nos nossos olhos...tombava em nós

A areia húmida trazia um vago aroma de prazer

Era verão...estávamos ali

Soltos da solidão

Dispondo de nós

Sentindo...

Encarnando na alma da paz

A noite sentava-se no incêndio da nossa pele

O mar era a nossa respiração

O nosso equilíbrio

A nossa janela aberta...

Para o amor.

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