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folhasdeluar

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As mães...

As mães cegas a fingir que não vêem

As mães com gestos de trapos e olhos de ternura

As mães que choram sobre as nossas calamidades

E arrancam crostas do fundo do coração

As mães que se sentam em frente aos constrangimentos

E disfarçam o sono que lhes esvai as noites

Como se fossem vagabundas do amor

E vassalas dos dias que as exterminam

As mães que decifram ausências

E transbordam nos caminhos com pés descalços

As mães que nos vestiram

E com mãos postas em nadas rezaram por nós

As mães que ficaram presas em rugas

E com orgulho cósmico nos taparam as noites

As mães vestidas com pequenas virtudes

Que nos fecham as plasmáticas portas do medo

E nos emprestam o seu silêncio compreensivo

Quando o vento nos empurra para o vórtice do desconhecido

E nós desaparecemos numa íntima vertigem

Fechados...vorazmente consumidos pelo nosso medo

E pelos nossos olhos fechados

As mães que vivem emparedadas na sua abnegação

E na nossa aflição

As mães resignadas e desesperadamente cósmicas

As mães esculpidas por marteladas de ansiedade

As mães que esperam que a noite se abra na porta da rua

Por onde o filho entra

E consigo traga o sol na ponta dos dedos

Para lhe oferecer...

 

Cromática sombra...

Nasci num incandescente rio...

Peixe sentado no ventre da Mãe...

Gota de escuro...corpo soletrado...

Sotaque de bosque que devora as sombras

Sou a voz que se separa do sangue...

Como uma gota de areia sentada numa flor seca

Visto-me com o tamanho das palavras...

Dobro-me sobre uma viagem sem destino...dor e ventre

Enrolados numa enorme alma que tomba sobre os últimos raios de sol...

Vejo o sangue correr...

Escuto o medo a tombar de dentro de mim...como uma folha seca...

Choro de estrela viúva...

Alecrim criado num tempo leve e calado...aromático..

Cromática sombra de cedro despido...

A imitar um viajante sem tecto...

*

Na secura da alma devorada...

Ergo-me...ergo-me como um presente desperdiçado...

Sei que os céus me protegem...

E não me importo com o que irá sobrar dos meus magros dias...

Sou o voo de um pássaro sentado numa réstia de sonho...

Como um bicho que devora a solidão

Levanto os olhos e vejo mil sóis...todos me esperam...

Escoando a sua luz no meu caminho...

Alumiando as minhas impurezas...

Como uma água feita por anjos que nasceram só para mim!

Gota de chuva...

Dormes...

Escuto-te o respirar de anjo que se deita na minha primavera

És o meu jardim feito de raios flamejantes...

Que como rios feitos de espadas com cicatrizes

Percorrem o meu corpo num emaranhado de mapas.

 

Corpo de anjo entrançado numa manhã de sóis...

Que se escapam como fios entre os dedos...

Que correm sobre tranças de ouro em direcção a um firmamento intacto...

E todas as manhãs penetramos nesse tempo nu...indistinto...

Como astros peneirados por estrelas que dormem numa gota de chuva...

A folha que cai do coração

A abrupta linha do vazio constrói-se num hiato que vai da alma à carne. A luz é uma violência que ocupa a nossa identidade. O espaço que vai do tempo ao corpo é um adorno. Uma pulseira que carregamos junto aos lábios. Os sentidos vivem entre nós e as sombras. Os sentidos são ao mesmo tempo o território da luz. A nossa presença frente ao opaco dos espelhos. É semelhante a um tempo transparente e transcendente. Concentrado em si o Homem bebe as feridas do ar. E enquanto chama pela candeia que tem a luz às avessas ocupa a vulnerável margem das palavras. Belisca a aparência contraditória dos céus. E cria imagens de áridos mares na fala das tempestades. Esse Homem é uma excêntrica raiz. Um risco na vegetação das ruas. E é ao mesmo tempo a folha que lhe cai do coração.

Concha solar

Vozes antigas...margens de outras vidas

Vozes de rudes narrativas...

Entendimentos de espelhos.

 

Na minha pele escrevo frases

São tatuagens de dias e mergulhos

Um pé em cada margem

Um rumo em cada mão

A luz que se acende

A corda que se desprende

Do mundo que gira

Do rugido dos anéis

Da raiz que se enlaça

Do trompete que se estende

Do som do sino que ceifa a noite.

 

Na madeira que se dobra e se confunde

Na ilharga de quem chega a nado

A lado nenhum...a nenhum lado

Mas a voz verde do coração

Pendura-se numa concha solar

E acende-se na minha mão.

 

 

Tempo etéreo.

 

Por fora de mim crescem fogos. Dentro de mim nascem rochas. Rugidos de falésias onde o mar estala. Em cada extremo de mim uma planície intocada. Sou o raro prisioneiro dos teus olhos. A áspera crista do meu rosto explode em cada filamento das tuas pálpebras. Revejo-me nessa suspeição de mim. Nesse longe tão próximo dos nossos olhos. Nesse arfar de espaço onde me aprisiono. Nesse flutuar de mel com que me tocas. E porque vestimos a mesma pele. Sentimos a mesma seda. Que flutua num espesso coração feito pela agitação dos ventos. Como se o céu fosse a porta de entrada do mar. Onde molhamos os pés feitos de tempestades e de acalmias. Feitos de tempos e de redes. Que a nossa memória decifra. E onde os fumos das nossas sombras se desvanecem numa agitação de pele arrepiada. Ficando apenas a decifração exacta....do nosso tempo etéreo.

 

Um pássaro condenado a voar.

Era o último diamante. O disfarce da lágrima. A fita azul que enfeita a fronte da estrela. Era a margem onde ecoavam as águas. Era o terno estrondo da poesia. Nos olhos ardia-lhe uma avara esperança. No caos dos sóis bebia impossíveis venenos. Vivia entre o real e a crispação da fantasia. Era sincero. Pleno. Aventurava-se nas horas dos poetas. Tentava decifrar o fogo do sossego. A centelha espessa das palavras. Atraía-o o murmúrio das casas em ruínas. Como se elas fossem fluxos de loucura cósmica. Desabafos de pedras centenárias. Percorria os percursos da noite como quem sonha com dedos vorazes. Ou como quem agita a ferrugem  grotesca do luar. Construía sobre si um interminável muro. Sabia que um dia os relógios parariam. Que o tempo se fecharia entre quatro tábuas. Que o seu nome seria fogo universal. Era um guerrilheiro do eterno espanto. Sentia a inutilidade da ferrugem dos dias. Vivia numa ingénua paisagem rarefeita. Não tinhas esperanças. Vivia no tempo da libertação. Na magia estéril do silêncio. No percurso comovente da indiferença. Como um sonâmbulo. Como uma bela cria da luz. Como uma paisagem mística. Como uma dissolução vertical da música. E com distraído aprumo...enfrentava a transcendente sílaba do ridículo. Era um pássaro condenado a voar...Num resquício do futuro.

 

O cerne dos poemas

Refluxo coronário de estrela assombrada

Lua que entra pelo meu coração adentro

Entre mim e o mundo há uma queimadura que nos separa

Há uma garganta na paisagem que rodopia

Um fôlego que se empina na frieza assimétrica do sonho

Com unhas de escrita abro um buraco a toda a largueza de mim

Cada palavra é um ferro em brasa

Que atravessa a minha selvática noite

Como uma estática órbita de vento

Tão próxima...tão próxima...da explosão que vai deflagrar

Na minha carne púrpura...

Na minha cerrada boca...no meu espelho fotostático

Na magreza do meu corpo

Há uma fenda onde despontam imagens de ilhas distantes

Alguém deveria dizer-me que o espaço é uma imagem circular

Alguém que abrisse a minha escuridão

Com a força de uma feroz golfada de loucura.

 

Em mim rodopia essa espécie de claustro ligado aos reflexos das luzes

Parar...crescer como uma repentina faísca que absorve o ar

De repente perceber que a música e a água

E todos os dilemas do mundo

São brilhos de um acaso magnificente

São movimentos que o cerne das mãos relembra...sempre....

E de cada vez que um clarão palpita na minha carne nua

As estrelas brilham com a melancolia da beleza lírica dos poemas

 

 

O que é sentir?

capa 4.jpg

 

Começo por um pequeno dicionário:

 

Homeostasia – processo de manutenção dos parâmetros fisiológicos de um organismo vivo, conducente ao óptimo funcionamento e à sobrevivência.

 

Sentimentos homeostáticos – fome ou sede (por exemplo)

 

Os sentimentos dão-nos imagens identificáveis dos objectos que compõem o nosso interior - vísceras como o coração, os pulmões e os intestinos e das acções que eles executam, tais como pulsar, respirar e contrair.

Sejam vagos ou concretos, os sentimentos são sempre “informativos” , transportam em si mesmos conhecimentos importantes e introduzem esses conhecimentos no fluxo mental.

 

Tudo o que sentimos corresponde a estados do nosso interior. Não sentimos a mobília que nos rodeia nem a paisagem. Apreendemos a paisagem e a mobília, mas a nossas percepções podem, com facilidade, provocar reacções emotivas e conduzir aos respectivos sentimentos. Aquilo que realmente sentimos, é como o nosso organismo, em parte ou no seu todo, se encontra em cada momento.

Os sentimentos devem a sua existência ao facto de o sistema nervoso estar em contacto directo com o nosso interior e vice-versa.

Os sentimentos criados no nosso organismo e experienciados na mente consciente perturbam-nos fisicamente, quer de forma positiva quer negativa. Porque e como o fazem? Porque são “internos” e porque dispõem de acesso.

 

Os sentimentos são percepções interactivas. Os sentimentos recolhem as suas mensagens “dentro do interior do organismo” e mesmo dentro dos objectos situados nesse interior. Não se limitam ao que os rodeia. Os sentimentos ocorrem no nosso interior, bem como as suas consequências; os sentimentos permitem-nos vislumbrar as vísceras envolvidas nessas acções. Não admira que os sentimentos exerçam um poder muito especial sobre nós. Verifica-se uma cooperação intensa entre as partes do corpo e os elementos neurais. Corpo e sistema nervoso são os parceiros criadores. Aquilo que vem a ser representado em imagem não é puramente neural, nem puramente corporal. Resulta de um diálogo, de uma troca dinâmica entre química do corpo e actividade bioeléctrica dos neurónios.

 

E para acabar o que são os sentimentos?

 

Sentimentos: são as experiências mentais que acompanham os vários estados da homeostasia do organismo, quer sejam primários (sentimentos homeostáticos como a fome ou sede) ou provocados pelas emoções (sentimentos emocionais como o medo a raiva ou a alegria).

 

Podemos conceber os sentimentos em termos musicais. Os sentimentos constroem uma partitura musical que acompanha os pensamentos e as acções.***

 

***P.S. Isto é apenas um pequeno “aperitivo” ao livro - Sentir e Saber de António Damásio