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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

E se as viagens de avião acabassem?

Portugal vai investir em comboios de alta velocidade. A alta velocidade é o futuro. Imaginemos uma Europa a viajar apenas em comboio. Imaginemos uma Europa onde viagens de avião inferiores a 3 mil quilómetros fossem proibidas,( já se fala que o serão em distâncias até mil quilómetros), com excepção óbvia das ilhas. Vivemos depressa. O avião ajudou a que se viva ainda mais depressa. Mas o avião é um dos maiores produtores de poluição. A deslocação de pessoas por avião devia acabar nas viagens curtas e nas médias. Um comboio transporta muita mais pessoas que um avião. Um comboio polui muito menos que um avião. E se a viagem demora mais tempo, talvez seja tempo de nos adaptarmos a esse novo tempo. A um tempo onde o tempo conta menos que agora. É tudo uma questão de hábito e de programação de vidas.

 

Sou um apaixonado pelos comboios. Acho que a verdadeira viagem se faz de comboio. No comboio aprecia-se a paisagem. Conversa-se. Fazem-se conhecimentos. Toma-se uma refeição. Bebe-se o um copo na carruagem-bar. É completamente o contrário da viagem em avião. Onde se entra e muitas vezes,( para os que ficam nos lugares do meio) nem as nuvens vêem. Viajar não é entrar num avião e sair no outro lado sem ter descoberto nada das paisagens que se atravessam. Deixemos então o avião apenas para as longas distâncias. O desenvolvimento económico que as redes de alta velocidade trazem é muito superior ao dos aviões. E não esqueçamos que os japoneses já possuem comboios que atingem os 500 quilómetros hora. Será um futuro muito mais risonho aquele que os comboios proporcionam. Assim as pessoas tenham a coragem de mudar de hábitos. Assim os governantes tenham a coragem de tomar estas medidas, e apostar nas linhas ferroviárias.

Enredo de loucos

Sobra-nos o peso anestésico das metáforas

Sobra-nos a constelação do sono

Sobra-nos a zoológica riqueza de um abraço

Sobra-nos a música...e o brilho marmóreo

A aterradora substância da água fundida

E a tremenda pontada nas costas

Sobra-nos o extravio angélico das catedrais

Que se encontra no ritmo desordenado de duas bocas.

 

Lentamente a matéria circula pelo interior oco dos nomes

Um sopro invade a transfusão dos gritos

Organismos remoinham nas pálpebras

A alucinação do coração clama por mais memórias

Vocábulos tornam-se instrumentos de lembranças

Na massa de cada pão há uma prancha que respira fogo

O mundo é uma noite...de medo...de chuva...de insubstância

A descarregar paisagens...a beber-nos por dentro

Como um enredo de loucos a rejubilar numa textura de gás.

 

Pássaro de veludo.

Um mastro reluz na escarlate retina da manhã

Um vulcão acende a minha carne marmórea

As colinas do tempo ofuscam as raízes dos abismos

O amor mergulha no sal das feridas

Uma trágica circunferência é um inóspito destino

O inverno torna-se incandescente

Empresto a minha pele à paisagem

Ascendo à coroação do frio

Levando em cada mão um pássaro de veludo.

Crisálida incendiada

Em cada caminho um patamar de relâmpagos

Em cada claraboia um desfiar de memórias

O ar é a minha sede...

A minha abreviação das horas

No meu coração vive a luz dos poemas

A minha paisagem...

O meu sorriso chega na fome das palavras

Sou o cenário de luz

Onde os meus passos se incendeiam

E o meu corpo se agita na abreviação das falésias

Como se sobrasse de mim a deflagração da beleza

E o meu coração fosse a crista

De uma crisálida incendiada.

 

 

Uma solitária gaivota

Ele já não sabia quem era. Vivia num armistício com a sua própria vida. Não se revoltava. Aceitava-a. Mas quem era ele? Uma fissura do destino? Um arabesco do acaso? Um garrido estore por onde a luz se escoa? Talvez fosse a fantástica sequoia crescendo no céu infinito. Talvez fosse a brilhante frase do silêncio. Talvez fosse o húmus das emoções. Talvez fosse a restauração do tempo que em si se comprimia. Ou a bilingue distância dos afectos. Mas quem era ele. Ele que se maravilhava com a linguagem das cores. Com o feroz silvo dos ventos. Com a vertigem dos pássaros. Com a ternura de um olhar profundo. Nos seus olhos nasciam raízes. Raízes que penetravam na claridade das paisagens. Como asas de florestas saciadas. Flocos de nudez translúcida. Relâmpagos de memórias estilhaçadas. Quem era ele que se fascinava com as pedras. Com a ascensão das águias. Com a brevidade do crepúsculo. Ele que percorria o tempo vestindo a pele dos espelhos. Que avançava pelo sopro dos horizontes. Ele era a encruzilhada e a cadeira deserta. A vaga sensação de um tempo cinematográfico. A brecha aberta na paisagem. A crista de um poema ondulante. Ele era o que sobrava da sua própria deflagração. Do seu desentendimento com os seus estilhaços. Da sua consciência. Da sua inconstância. Ele era o arqueiro das sombras. Das suas sombras. Mas...quem era ele? Ele era uma gaivota. Era uma solitária gaivota a planar no cinzento da tarde invernosa.

Corpo passageiro do tempo

Corpo passageiro do tempo

Corpo feito de vagas pele e poros

Corpo de luz espezinhada

Fome de passado e centro de futuro

Corpo elíptico feito de portas fechadas

Corpo de inverno e de transe

Corpo de aquário onde se desenham cores

Corpo de uivo e de lenha

Memória de fogo

Consumição e cumplicidade de naufrágio

Corpo de corda e roldana

Corpo de breve passagem

Hercúleo pássaro a desfiar sentimentos

Corpo declínio de sol subterrâneo

De um lado o mundo

Do outro a fome do acaso

Corpo que escorre em ventos de silêncio

Corpo-coração indecifrável

Corpo-folha habitável

Pendurado em angústias e caos dourado

Corpo-vela hasteada ao vento

Corpo-lamento cravado nas marés

Corpo agarrado...à vida

Corpo em bicos de pés.

 

Maré-rasa.

E de repente uma explosão. O pensamento ergue-se como uma paisagem. A alma alimenta-se de uma interioridade de sonhos. Uma amálgama de mundos. Se súbitos sentidos. Breves planos inclinados. Sufocos, visões e harmonias. Indistintos emaranhados de futuros. E de repente uma ideia. Um líquido tempo a escorrer pela mente. Uma monumental vontade de perceber o universo. De espreitar o mecanismo por onde os dias se esfumam. De compreender os dias. De injectar realidade na irrealidade. De alcançar a dimensão do intangível. E de repente uma explosão. O sangrar das trevas. O eclodir dos pequenos fios de seda com se tecem os dias. A luminosa exibição dos enredos. A fresta onde se costuram as ideias. O assomar do assombro. A janela do complicado a descomplicar-se. E de repente uma ideia. A fundura do mar a erguer-se em vagas inconscientes. A ubiquidade da alma. A eléctrica intuição de que tudo é vago. De que tudo aqui está para nós. E que nos meandros da consciência existimos. Que no acendimento da nossa fogueira existimos. Nos borboletões da luz existimos. Na perfuração do vazio existimos. Na faminta janela espreitamos. Na hora do sono dormimos. Às entranhas do silêncio acedemos. Como algas deformadas pelo convexo espelho da maré-rasa.

 

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