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folhasdeluar

folhasdeluar

Porque falam comigo as vozes das arestas?

Esquadrinho a penumbra dos meus passos

Vejo as marcas de alguém que pisou o meu passar

E por entre o infinito dos meus dedos

Foscos xistos dizem-me coisas incapazes de pensar

Porque falam comigo as vozes das arestas?

Porque me fitam as paredes lisas...de cal

Onde está esse jardim da madrugada

Em que perdi a minha imagem vertical?

À esparsa luz das teias invisíveis

Cobrem-se gestos...despem-se máscaras

Os olhos brilham no fundo oculto dos sentidos

Tilintam ambições na voz quebrada dos poetas

Descem suores de sol pela pele da poesia

E o mundo ri-se das flores...desertas

Crescem atalhos brancos no pensamento

Onde o lápis é o cajado das palavras

O amor pode florescer numa jarra de papel

Ou no centro de um silêncio exilado.

 

Dentro de um difuso espelho

Vejo espraiar mares

Que acordam agora a minha voz

Imolada numa rua de cordel

Despida de alma e de luar

E encontrada num gume de flores azuis.

O peso dos beijos

Piso irrespiráveis espaços

Ardendo por dentro das palavras

Volume vazio de dias

Oferecidos aos corpos angustiados

Existir é saber que todos os sonhos

São caminhos feitos de paisagens ilusórias

Que toda a felicidade é uma amante

Procurando a imperfeição das tardes,

 

Caminho na direcção

De um sonho vazio construido com ventos

Guardo esse sonho

No canto de uma vaga gaveta

Onde a sombra o faz brilhar.

 

Olho para as ruas na hora de ponta

Vejo diluir-se a incerteza nos relógios

Cada um ensaia um passo de ballet

Cada um é pintura de falsa de Degas

E as horas de ponta são o seu palco.

 

Olhos hirtos..passos suaves

Sombrias poses coladas a uma dança etérea

Amas os dias em que os lábios se esforçam

Por encher a luz de palavras

Amas os dias em que és a própria luz

Que emana dos teus lábio

Lábios de marés...saibro de espinhos

Alguma vez soubeste

Que uma lívida flor espreita

Por entre o caule da primavera?

E que da plena suspensão do pensamento

Nascem geometrias agitadas?

Ou que o peso dos beijos

Tem o encanto das pedras?

Sim...tu sabes que o escuro

É um fino ébano a agitar ilusões

Uma pequena brincadeira de cabra-cega

Que tu consomes nas noites de luar

Como se assistisses um enorme parto

De estrelas...

Caído da noite está o momento

Caído da noite está o momento

Em que a vida te espera

Como ave branca

Que voa no espaço inalcansável de ti

Levantas os olhos

E percebes a dimensão incomparável da manhã

O teu corpo recorta-se por fora das palavras

A tua mão toca o pequeno espaço da Vida

Sabes que na distância

A saudade levanta as pálpebras matinais

Vê as razões da partida

Emociona-se com o pequeno voo dos silêncios

Deita-se como se fosse vapor condensado

No começo incompreensível das coisas

E o voo acontece..a razão discorda

A ânsia amansa..já não é a mesma saudade

Agora é uma folha que cai... calada

Aos pés de um tempo sem futuro...

Finalmente adormeces

A noite dói-te...e o vazio abre-se

Como uma janela voltada

Para uma presença ausente!

 

Madrugada

Inventas sonhos puros

Como abraços imolados

No corpo cansado dos dias

 

Conheces …

O sabor adocicado de um tempo feito de sorrisos

Um tempo sem passado.

 

Corres...

De flor em flor como se quisesses sobreviver ao tempo

Sabes..

Que as aflições clamam pelo sol

E que o sono tem a dimensão inexplicável do mundo.

 

Quem vive dentro daquele pequeno oásis de si

Sabe...

Que adormecer é aproximar-se dos sonhos

É perceber o começo de si

E por vezes nas noites de verão

Até pedes à madrugada

para se aconchegar contigo

Dentro do belo canto das cigarras.

 

Sabes que há uma distância..um sinal

Uma saudade de ser abraçado pelo silêncio

Como se fosses uma ilha deserta onde nada falta

Nem os abraços...nem o silêncio.

 

Mágica era a luz esverdeada dos sentidos

Livre era a água que corria pelas línguas

Do sono emergiam os anos..como árvores

Como folhas caindo... uma após outra

Na madrugada...silenciosa e muda....

Um segundo e...uma vida

As pessoas querem abrir os braços

As pessoas acreditam na beleza inesgotável

De uma pedra que vive no fundo de si

As pessoas têm a clareza turva

Dos lagos parados no tempo

Mas não há tempo absolutamente nenhum

Não há lago absolutamente nenhum

Não há paragem no tempo nem velocidade

É tudo tão simples...tão compacto

Tão feito de coisas lisonjeiras e estranhas

Que tocar nas mãos de alguém

É como tocar num céu

Feito de pequenos poros cristalinos

Poros vivos como flores de prata

Ou como a pureza de uma sedosa vigília encantada

Onde esperam que uma luz lhes toque

Na profunda claridade dos olhos

Como se fosse algo que querem muito

Que esperam muito...que temem muito

Algo que as faz sentir que são o tempo

Que sustenta toda a nossa alma

Imperfeita...insegura...ala de vela ao vento

Mas que nos basta para sermos um segundo

E uma vida...