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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

Obstinação

Quando as margens se riem

Com o nascimento da luz

Quando o grande mar

Desagua num grito de júbilo

E o silêncio

Traça um circulo de sussurros desamparados

A face nua da seiva

Aparece dentro de uma serena manhã

É o nosso corpo a unidade de pensamento e alma.

 

A obstinação da pedra

A guiar o sol para os confins de nós

E a águia que voa sobre o clamor da paisagem

E o seio da noite

A atrair os corpos para o tempo do amor.

 

Damos passos em falso

Habitamos casas escuras

Somos folhagem e sangue de luzes

E somos doces

Como raios de vida cortando a noite.

Impermanência

Há um fogo que transporto

Em camadas sobrepostas

Há um vulcão caudaloso

A espreitar por dentro da luz

E digo desperta...inventa...despe-te

E digo saca do alfange ...ri

Busca a ilha das gaivotas

E olho para um azulejo azul

Onde brilha o tempo dos segredos

E digo acorda...inventa invernos

Busca montanhas...imagina barcos

E digo salta...respira vagas e brisas

Cintila na sombra das paredes

E digo cavalga as ondas

Escuras ondas que se recortam na força do luar

E digo vastidão de alamedas

E falo de manhãs lisas e quietas

E adormeço...

Na impermanência da eternidade.

Interior

Nada mais possuo..senão o mar e o rugido do meu nascimento

 

Em cada rosto um olhar..uma suave adaga que corta o azul do céu..

 

O meu sorriso distende-se pela sola do mar

Assiste ao açoite das ondas

Funde-se com o címbalo das marés.

 

Nuvens negras assomam aos meus passos distraídos

O cair da noite encoraja o abrandar das aves

E o medo tomba na distância incontida do silêncio.

 

Doem-me as noites que habitam na distância ilíquida do crepúsculo

Como sombras lisas...tumulares

Onde o pensamento se deita...nu.

 

Há dentro de mim um lugar inerte

Onde guardo um fogo que não posso deitar fora.

 

No arquivo do tempo apenas existe a continuidade transparente dos dias.

 

Os filhos continuam chorar a morte dos pais

Como se o mundo nunca tivesse existido.

 

Há uma ordem interior que regula os meus passos

Como se caminhasse sobre os meus próprios pensamentos.

 

Os dias desabam na euforia do nada

Como prantos secos

Que rolam pela palma da minha face...esvaziada...

Ausência

Já não sou a caneta

Que te descreve nos meandros da noite

Já não sou o fruto comestível

Que assolava o teu corpo

Minguei num tempo de fogo

Um tempo baço e devorador

Sou como uma sombra

Enterrada no orvalho da memória

Mas trago ainda comigo as cores das mariposas

Ainda sinto o aroma da tua pele

A planar na maresia das tardes

Dentro de mim ainda adormece

O teu cheiro de estonteante verdura

Ainda sou o marinheiro

Que vencia o desvario dos teus mares

Da minha máscara

Ainda escorre a tinta húmida da saudade

Ainda devoro o tempo

Em nos deitávamos na beleza do orvalho

Hoje...imobilizo a minha memória

No recanto sombrio da tua ausência

Hoje...o meu tempo é áspero

O meu dia é uma catedral vazia de fé

Porque tu foste procurar a ânfora

Onde te pudesses esconder de mim.

Aromas

Há sempre um outro além

Uma outra humidade magoada pelo teu silêncio

Há sempre uma insónia

A espreitar pelas frestas magoadas do tempo

Há sempre mais uma rua

Onde o musgo revela os teus segredos

Há sempre um lugar tranquilo onde os pinhais não ardem

Há sempre uma caligrafia inacabada

Uma pequena letra que bebe a destreza das mãos

Há sempre um interior em cada traço da alma

E uma via láctea encardida

Há sempre um gemido multiforme

Um apóstrofe de ti...uma debandada de imagens

A correr...a correr pela estridente via lunar

A buscar especiarias de sangue e fel

A despertar na psique da terra

Como um rumor de espera sem lugar nem tempo

Como uma varanda

Onde as aves se deitam com olhares loucos

E o lume aceso... a tez queimada

O sino apologético que te chama para a batalha

E a mão que transmite o calor da carne

Aquecida pelas hélices do sol

E o poente a dividir ao meio os corpos longínquos do mar

A fulminar as trevas que se entreabrem na noite

Como cataclismos...como festins opacos

Como flores que se espalham pelos dias escuros

Mas...no silêncio há aromas

Que sobem...que vão subindo...como bolas de sabão

E de Vida.

Agonia

Na agonia da noite

O meu grito rasga os tentáculos do mundo

Afasto-me das luzes da cidade

E vou implodir sozinho num descampado de estrelas

Enquanto as varandas se povoam de flores acústicas.

 

Sobem-me à boca marulhares de desejos

Enigmas alucinados...tempestades tropicais

Um rosto desprende-se do vazio marítimo do horizonte

Sobe à enxárcia sulfurosa da noite

Distende-se num orbital afago de maresia

E no coração do sonho

Toco a infindável paisagem das marés.

 

Quero afagar a beleza arquitetónica da névoa

Que cobre a espuma alada das ondas

Essa névoa sem futuro nem caminhos

Onde os filhos do mar se distendem no bafo da luz

Como paisagens marítimas

Que se suicidam

No sonho alucinado da imaginação.

 

Erguem-se de mim eternos sonos

Escancarados na lava contaminada

Por restos de tempos obscuros

São ausências que se perderam

Na claridade suicidada do barro

E nas falésias desse sono

Os espelhos tecem sonhos de mel e pedra

O coração esvazia-se

Como um peixe-lua envelhecido

Mas ainda aqui está afável e aberto

A todas as ternuras.

Enigmas

Tenho mãos de ninhos...tenho dias de mar

Tenho no meu peito todos os novelos

E no cais as âncoras desafiam cruzeiros

Despenham-se salas...relógios...crisálidas

A chuva seca a labareda das bússolas

E na minha solitária mansão dos sonhos

Há enigmas a edificar verdades.

 

Sento-me dentro de um tempo delicado

Lavo a minha alma nesta paisagem de luz

O sol...o rio..e os flamingos de cera côr-de-rosa...

Pastando nas algas que vivem na intermitência do meu olhar.

 

Dorme em mim o silêncio do infinito

Destroços caminham no sossego da folhagem

E o tempo é uma súbita praça onde agonizam palavras...

 

Átomo

Ausento-me das coisas

Gasosa ave que pernoita na memória luminosa do ar

E se te falo agora do aroma

E das pulsações molhadas pela saudade

É porque me lembro dos nossos corpos abraçados

Líquidos...atmosféricos

Como rumores de caves oceânicas

Sublimes...grossas...

Como pingos de chuva sólida

Ancorada nas paredes do quarto

Onde secaram os sentimentos.

 

Na volátil solidão da noite

Finjo ter a brancura gasosa dos átomos

Que se multiplicam em milhões de sóis

Como se eu fosse a minha própria metamorfose.

Inocência

Escondi as horas dentro de um mundo que desconhecia

Percorri lábios e noites

Que depois abandonei na estrada carregada de castigos

Segui pelas ruas

Caminhei de ponta a ponta

Pelas palavras que teimavam em calar-se

Mas não percebia

Que verdades habitavam por dentro das verdades

Que sombras se encolhiam num abraço

Que abarcava todos os crepúsculos

Que poemas se escondiam nos dias

Religiosamente passados a vaguear pelos meus lugares secretos

Apenas sei...que me vi...

Perante a absoluta inocência dos céus.

O fosso social

O aumento das pensões tal como o aumento dos ordenados no público e no privado é feito na base da injustiça. Mas tomemos como exemplo as pensões; quem recebe entre 291,48€ e 960,86€ tem como aumento mínimo 9,93 €. Quem recebe entre 960,86€ e 2882,58€ tem como aumento mínimo 34,30€. Quem recebe entre 2882,58€ e 5765,16€ tem como aumento mínimo 102,91€. O que significa que quem mais recebe mais é aumentado. É por causa deste tipo se aumentos em percentagem, que cada vez existe uma maior disparidade social. Se entre o que ganha mais e o que ganha menos havia uma diferença de 5473,68€, com os valores a aplicar passará a haver uma diferenç.a de 5526,14€. Eu sei que isto já são muitos números mas aqui o elevador social só funciona em modo de descida. É claro que todos merecem ser aumentados, mas será justo que os que mais ganham tenham aumentos maiores que os que menos ganham? É claro que não! Então como é que se deveria fazer para que o fosso social não aumentasse? A receita é simples; acha-se o valor total do dinheiro a distribuir e divide-se pelo número de pessoas que a quem temos que pagar. Significa isto que todos são aumentados no mesmo valor e assim não se cava mais um buraco entre os mais desfavorecidos e os que mais ganham. Isto também deveria funcionar assim nas empresas. Sejam públicas ou privados não devia haver uma diferença de salários que estivesse sempre a aumentar em favor dos que mais ganham, mas sim estipular uma diferença sempre igual entre os salários mais altos e os mais baixos. Depois poderiam haver compensações em função do mérito, mas isso já são outras contas.