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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

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Poesia e outras palavras.

O profundo choro das coisas

Crescemos com as coisas simples

Com as pequenas coisas..

Pequenos legos coloridos de emoções

Construções de lágrimas..invisibilidade

Crescemos agarrados a uma mão

A um dia...a um lugar secreto

Um lugar que nunca atraiçoamos

A um ruído intermitente de relógio

Tic-tac...tic-tac...tic-tac

Crescemos com as pupilas dilatadas pelos abraços

Perdição de pele emaranhada em arrepios

Crescemos quando o amor nos diz

Que somos o sentido da nossa vida

Crescemos sem o embaraço da filosofia

Que importa a filosofia que fala da perda e da inutilidade?

Se os nossos mais recônditos lugares

Estão cheios de ti e de mim

E se nos pânicos a nossa pele se descobre

É porque lá é o começo da poesia

Anda mais depressa..acorda a rua

Traz-me um perfume nocturno

Um abraço obsceno

Crescemos...quando sabemos que nem sempre estaremos

Que o futuro é um lugar de perdições

E que no peito...bem lá no fundo

Há um aperto...

E um estrangulamento de felicidade

Por favor

diz-me que me deixas ver o teus cabelos esbranquiçarem

Cresce comigo

Deixa que o teu sorriso venha gravado nas palavras

Respiro fundo

Hoje quero amar depressa

Amanhã... talvez me doam as costas.

Talvez sinta aquela faca a cravar-se dentro do meu peito

Mas hoje...cresce comigo

Até ao profundo choro das coisas...

O sorriso

Invejo o silêncio de quem morre

Porque quem morre

Descobre a verdade e nada diz

Não é por acaso que muitos cadáveres

Jazem na urna.

Como se estivessem no seu leito

Alguns até sorriem.

A minha mãe quando morreu

Tinha com ela aquele sorriso esfíngico da Gioconda

Como uma alegria descansada

Como se por detrás desse sorriso silencioso

Estivesse o gozo da partida para a viagem ao Éden

Era um sorriso de ausência

A vingança perante a vida

Esse sorriso era a vitória sobre a vida

Ali estava ela imóvel

A morte tinha-a transformado

Num sorriso...

Sorriso parvo

Não consulto o vereditos dos astros

Sou um convertido presenciador

Da insignificância do ser .

Não vivo sequioso de revelações imateriais

Tenho o bicho terrífico da vida

Diligentemente embalado numa capa de ironia

Canto a vida numa funesta desarmonia de acordes

Mas os espectadores fugiram

E a minha voz ficou sozinha comigo

Disperso e extraviado nas minhas abstrações

Enredado em cismas teimosos

Confrontando-me com o invariável quotidiano

Sumido na minha condição de ser

Cativo em mim e em mim escondido

Submerso por um marasmo de silêncio

Poiso nas coisas amadas um ar de conclusão

Esquecido e mirrado de ponderação

Entrego-me à besta desvairada do que ignoro

E sorrio...e sorrio...e sorrio...parvamente.

Fosforescências - 1foto 1 texto

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O vento dos dias traz-me a despedida do teu gesto. Estou só... porque não vieste. Suspendi o meu olhar porque o silêncio cresceu. No fim das distantes galáxias os olhos da mágoa pestanejam luzes tentaculares. Será sempre assim a despedida. As horas a afastarem-se de nós. As horas a segurarem-nos nos seus tentáculos. Como fosforescências inacabadas da separação dos nossos corpos. As mãos dissiparam-se pela noite rasteira. A vida desencontrou-se de nós. A tua distância revelou-me uma enorme luz entumescida. Um frémito percorreu o ar. Vi o teu rosto a flutuar numa preciosa fonte de imagens frias. Na sonolência da aranha estava o teu sorriso. O esquecimento de nós foi como um ocaso calcinado pela tua ausência. Isto aconteceu no tempo de deixar de ouvir o eco dos teus passos. Passou-se no tempo de uma noite indulgente. Onde ocultámos os corpos. Ocultámos as mãos. Perdemos as carícias. Os sinos já não falavam da descida do dia. E na serenidade da tua imagem...eu via...a calcinação de mim.

Renascimento

Não quero que um dia

O meu corpo se cubra de terra,

Não quero a minha alma enlameada

Quero ser fumo...nuvem...céu

Não quero as minhas raízes aprisionadas...estáticas

Não quero ser um corpo

Pacientemente comido por bichos e larvas

Quero elevar-me num fumo volátil

Ser o contrário do que fui

Transformar-me num pássaro

Liberto do meu corpo de pessoa

Finalmente renascido...

 

Sentimentos perdidos

Não me lembro da vida que vi

Espelhada no lago transparente

Não recordo as lembranças adormecidas em silêncios

Talvez se sintam culpadas do seu próprio silêncio

E os pensamentos?

Esses vagabundos sem abrigo

Que se esvaem da minha alma

Que me abandonam

Tal como o sono se perde de mim

Quando as palavras perdem o rumo.

 

A felicidade... acompanhada por bocejos

Emagrecida pela vida …despojada

Não tem significado

Sobram as unhas que arranham os dias

Sobram os dentes que rangem

Sobra a tesoura que corta as lágrimas

E sobra o cabelo desgrenhado pela noite

Quando a manhã me pergunta:

Para onde foram os sentimentos perdidos?

 

Não é preciso crer em Deus para se estar grato 1 foto 1 texto

 

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Não é preciso crer em Deus para se estar grato. Podemos e devemos agradecer tudo o que temos e até a vida que temos, apenas ao dia que nasce. Tudo é digno de gratidão. Os alimentos e a liberdade. Um abraço e o sopro do vento. As árvores e o vazio do espaço. A música e a esperança. O amor e o silêncio. A noite e todas as coisas em que tocamos. Um livro e um desenho. A paisagem e um corpo nu. Devemos agradecer ao frio e à paciência. Aos peixes e à claridade. E também à nossa alma...esse profundo mistério que desconhecemos. Mas não sejamos pedintes. O pedinte não é o pobre que pede esmola. Esse não é pedinte porque pede por necessidade. O pedinte é aquele que tudo tem e quer ainda mais. O pedinte é aquele que cumpre promessas mas só depois de ver o seu pedido realizado. O pedinte é aquele que sente inveja dos outros. O pedinte é o que tem muito e nada divide. O pedinte é aquele que dorme sobre a vida. O que não acorda para os dias. O que é feito de uma matéria opaca. O pedinte é o que não sabe contemplar. O pedinte é o que não aprecia um olhar. O pedinte é aquele que não colhe a fruta singela do pomar da vida. É aquele que passa na Terra e não deixa rasto. Portanto sejamos gratos, mas não sejamos pedintes.

Porque castigamos as crianças?

Porque castigamos as crianças? Esta pergunta obtém da maioria das pessoas a resposta de que é para as educar. Eu não penso assim. Para mim, aquilo que parece óbvio, a educação, esconde outros pressupostos. Um deles é para os ensinar a obedecer. Na verdade o que fazemos ás crianças é torná-las submissas. A criança quando nasce e até determinada idade, é um ser livre. Não pensa se é certo ou errado aquilo que faz. Somos nós, os adultos que atribuímos a classificação aos seus actos. Ora ao classificarmos os actos das crianças não cuidamos de saber o que elas pensam. Achamos que é errado e aplicamos-lhe um castigo. Os pais e até os professores acham que são donos da razão e acontece que o que eles desaprovam,( consoante a sua própria educação) torna-se numa acção errado por parte da criança. A punição acontece apenas porque a criança desobedeceu e não porque errou. É esta a lição que todos aprendemos na escola. O desobedecimento traz consigo o castigo. Ora este tipo de educação ( de que todos nos somos vítimas) para além de não ser racional, só nos ensina a sermos como as ovelhas, a seguir o rebanho , que os educadoras acham que é o “bom” caminho. Na verdade o que queremos incutir na criança é que ela não é livre. Ela é ensinada a obedecer, porque se o não fizer recebe uma punição. E a punição não passa de uma forma encapotada que a sociedade arranjou para manobrar e dominar as pessoas pelo lado do subconsciente. A sociedade não quer rebeldes. Teme-os. É por isso que astuciosamente arranjou forma de dominar essa rebeldia, e nada melhor que a começar a incutir logo desde tenra idade, para que a criança ao chegar a adulto, prossiga o mesmo caminho de aceitação das normas que a sociedade acha que são as correctas. Não! De facto não castigamos as crianças para as educar, mas sim para as dominar.

Os pássaros - 1 foto 1 texto

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Em todos os dias há uma partida

Em todos os dias há 

A luz...os sons

Os pássaros que voam

Sem saberem que são pássaros

E por isso voam... dentro de nós

Voam contra a impotência da luz

Voam contra a sua mágoa de serem pássaros

E cantam

Como se fossem séculos solitários

Há uma terrível imprevisibilidade no voo dos pássaros

Há uma solidez de tempo e medo

Do fundo do seu voo

Escorrem reinos de beleza e frio

Incógnitos desejos

Que queimam a sua leveza de pássaros

Há noite

Os pássaros arrumam o seu voo

Nos ramos das árvores

De manhã

São os despertadores do silêncio

São como corredores perdidos

São como os nossos olhos carentes

Os pássaros deslizam por nós

Como se fossem dúvidas voadoras

Ou choros de crianças em ascensão

Os pássaros são os nossos recantos...de alegria

E voam...

 

Poema que vai ser publicado no:

 Volume XV da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea “ENTRE O SONO E O SONHO”.

É tempo de ser forte - 1foto 1 texto

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Olho para os meus sapatos e penso; quantos passos valem uns sapatos? A vida não se mede pelos sapatos. A vida mede-se pelo canto das cigarras. A vida tem o tamanho do pão que comemos. Dos sons. Dos odores. Quero construir um tecto com palavras. Fantasmas povoam os meus olhos. Penso na sorte que tenho em haver quem me escute. Mas eu sento-me na minha irreal praia lusitana. Junto uns pedaços de letras e fecho os olhos. Acho que a realidade é uma dor inútil. Uma junção de equações,vírgulas e espaços em branco. Há tantas coisas inúteis que juntamos dentro de nós. Algumas são raras. Outras ...bem...outras são apenas passadeiras onde atravessamos para fugir das coisas que nos magoam. Devia haver um sinal de stop em cada esquina. Como se fosse um sinal para abrandar o pensamento. Ou para não continuar a fugir à lei do silêncio. O nosso drama, .é que temos que olhar de frente para os dias. Perguntar-lhes pelas manhãs de ressaca. Hoje ninguém quer acreditar nos abismos. Preferimos olhar para a insatisfação com olhos de sonhar. Mas a vida, é tudo o que conseguimos ter de nosso. E não é pouco. Apesar de tudo passamos pelo frio dos dias como quem vai para um banquete. Embalsamados em imagens de felicidade. Amamos as crianças que correm pelas ruas. Percebemos que dentro de nós há uma criança desamparada. Sentimos que há que fazer qualquer coisa. Não ficar a olhar para os sapatos. Escrever sobre a sopa dos pobres já é alguma coisa...e acreditar que Deus é um esquecido já é outra coisa. Eu que passeio a minha gratidão pelos corredores, não esqueço que a morte está ali fora...inteirinha... à minha espera. E como quem não quer a coisa...disfarço-me de floco de neve...evoluo pelo ar. É agora que me vou despedir da minha fraqueza de ser poeta. Tiro os óculos. Era bom que visse sempre as coisas desfocadas. Será a realidade a “desfocação” da irrealidade? Penso em tudo como se me visse dentro de uma caverna. Nada disto é original...já Platão falou sobre as cavernas. Agora eu só quero que a rua não me atraiçoe. Que não tropece. Ou que merda de pombo não me caia em cima. Sei lá...já me aconteceu uma vez. Olho novamente para os sapatos. Verifico os atacadores. É tempo de ser forte...