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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

Praias solenes

Para lá de mim existe

A fome dos corpos inacessíveis

Contornos de pálpebras brancas

A perda de tempo

O relógio parado em todos os lugares da vida.

 

Para lá de mim estão as sombras

Que se erguem num vagar vigilante

Como uma lua enfurecida...nua

Estremecendo junto às árvores tatuadas...amo-te

 

Enxertos de marés vêm juntar-se às insónias

Como ácidos....gases....caímos na corola da noite

Vulcões explodem na lua coberta de abelhas

Nas inquinações de subterrâneos esfomeados

Sobrevivemos devagar

Alarmamos as imagens

Bebemos as circunstâncias...crescemos

Dormimos sobre o coração

Somos a metamorfose da alma

Um espírito tatuado pelos dias

Plantas crescem sobre as ruínas

O luar prateia a água...luz e pele

Olhos alvos espreitam fotografias de manhãs desgastadas

Lugares onde esquecemos os corpos

Enxertada chuva subindo passeios

Inundando a pele arrepiada das pedras

E nós cantamos sentados sobre um espaço desfocado

Murchamos como plantas vazias

Aspiramos rostos

Imagens flácidas de cidades em embrião

E bebemos...bebemos ácidos corrosivos

Alternamos a alucinação com a obsessão

Existindo numa loucura pesada...territorial

Rua e pele vazias

Vidrado de chumbo descolorido...devastação morna

Até onde iremos?

Em que corpo habitará o nosso veneno?

Que quedas devastaremos?

Até que a viagem purificante

Elimine dos nossos poros o azedume

E possamos ser mares acordados

Navegando ao encontro de praias solenes...

 

A guerra na Ucrânia

Os tanques avançaram

As bombas caíram

Germinaram crateras

As horas secaram nos relógios

A matilha uivou

Com olhar de lobos desvairados

Deceparam a brisa

Voltaram a um tempo impossível

Difusa ideologia de tempos próximos

Ódio incarnado na pele

Dor de mães e filhos

Morte geográfica de dois povos

Vidas coaguladas no tempo

Vidraças arrancadas a desoras

Cascos de mísseis esmigalhando corpos

Submerso ódio instigado

Medo e ofensa

Os silvos espalham a morte

As sirenes chamam para a vida

Infecção de balas

Costura de obuses

Resistência sempre

As plantas voltarão a florir

As árvores voltarão a crescer

As crianças voltarão a brincar

Mas será que o ódio algum dia se apagará?

A guerra na Palestina

Eu vi a vela acesa no escuro

Eu vi a noite brumosa

Eu vi um olhar feito de ferro

Paisagem derrocada de um país

Havia também uns olhos húmidos

E uma mão estendida ao Destino

E havia ainda um Deus mudo

Que transportava um colar de sangue...

 

Eu vi um corpo petrificado

Eu vi a bomba que silvou

Eu vi uma mar de anjos apavorados

Violência de bichos e demónios

Rasto de serpentes e de vento

E havia sangue e destroços e solidão

E um vértice instável em cada olhar

E um baile de raiva em cada mão...

 

Sim! Eu vi os deuses mortos

Vi a cruz do tempo em cada esquina

Vi consciências famintas de glória

E corpos nus, exaustos, indefiníveis

As bombas eram palavras sem pele

Eram glórias de pálpebras descaídas

A morte dá a mão a cada corpo

A vida escorre pelo vazio

E a tragédia é apenas uma aragem...

 

Eu vi a lividez do ódio em cada rosto

Eu vi a crucificação da paz em cada charco

Eu vi a seiva breve dos abismos

Na estática dor de uma criança

E plantaram tantas bombas, tantas sombras

E plantaram tanto medo tanta fome

Que eu já não sei se vi dois povos em guerra

Ou um véu de pranto em cada alma...

Rosas fumengantes

Envolve-me a teia tecida pela imaginação

Abrigo-me nos restos das flores

Sou um sobrevivente de mim

Poros invisíveis pintam telas de mármore

Onde se refletem incêndios de migrações descoloridas...

 

Como cavalgadas de trevas sob o sol estático

O mundo coloriu os olhos das serpentes

As flores bebem o infinito

As ondas sibilam...a espuma indica o sul

Psicadélicas estrelas desfazem-se em olhos esfumados

Sento-me virado para ti

Espero...desejo que flutuemos

Num lago cheio de sítios perigosos

Nos baixios de lama invisível

Vigio a tua pele

Apago-me junto ao teu corpo

Assalta-me o esquecimento da terra

Sou um resto de mim

Mas deixo num rasto de mim.

Um corpo em comunhão incendiada

Aflito rasto de sedas ferrugentas

Globo terrestre sorridente

Enfastiado pelos dias putrefactos

Que enegrecem os corações

Escuto murmúrios de cinzas gotejantes

Tudo me passa pela cabeça...

Tudo se apaga numa água dourada

Crepuscular incêndio

Que navega numa lata pintada de azul cobalto

Escondo-me na circulação do corpo

Os meus lábios purificam a tua pele...boca...boca

Desejo ser um sol cobrindo os teus olhos

Calcinando os teus medos...bebendo-te

Cegando-os numa ternura de cidade incendiada

Ou num sono de sonhos rasgados

Circulo por ti sobre um chão coberto de algas

Ouço ao longe os sons sincopados de um sax tenor

Tempo plastificado...inerte

Dobrado sobre mim com a força de um solo de Hendrix

Tempo que geme nos tremores de sílabas alimentícias

Sangue empastado com palavras turvas

Murchas pálpebras cobertas de espuma prateada

Tudo me puxa para a vigília

Tudo me encerra

Num respirar tatuado com as luzes da loucura

E tu..beatificamente segues alheada

Sentada numa nuvem feita de rosas fumegantes!

 

Cada pedaço de mim

Sei que as luzes calcam as sombras enfurecidas

Contornos de morte dormindo nua

Dentro das casas

O bolor adormeceu nos recantos assombrados dos quartos

Oculto-me de todas as visões

Apalpo-me...sussurro a ternurentas aves

Produzo máscaras onde oculto o vento

Desfio a tua boca

Como se fosse mel derramado sobre os meus lábios

Cada pedaço de mim sabe onde não estou

Sabe dos meus dispersares

Dos meus sóis tenebrosos

Dos meus dedos que se agarram a paisagens secretas

Desprendem-se areias ternurentas

Quentes amparos de chuvadas violentas...

Tudo se passa dentro de um quarto onde voam borboletas

E onde se perseguem sossegos de mistérios!

 

A lua é uma dor que espreita

Nas minhas veias corre o Tejo

Nos meus olhos crescem tatuagens de balas

Vejo vigílias nas vozes empastadas das serpentes

Animais eléctricos...fases da lua

As flores murchas das árvores

Dizem-me o que não posso saber

Perdi-me na sala de espera de uma sombra

Soçobro fora de mim....

Sou apenas o sangue que me toca na pele

Uma esquina onde me esqueço de sorrir

Acredito que a lua executa bailados em cima das fontes

Nas águas nuas

Nas janelas das casas que percorre

A lua é uma dor que espreita

Pelas nádegas de uma ninfa delirante

Lâmina de punhal endoidecido

Bochecha encardida que suporta o sono onde me escondo...

 

Secretas palavras sobem-me pela goela

Aflito delírio de sangue entornado

Imagens de gladíolos surdos

Peitos frios...sonhos de destruição

Clamor de corpo ao vento

Solta-me a alma...côncava ave negra

Habito territórios onde as palavras se esquecem

Sobre as mesas vazias focam-se filosofias de jovens raparigas

Cadeiras soltas ao vento

Que uiva sobre as noites esquecidas

E eu bailo com os mortos

Desço aos seus covados

Sustento-me de insectos que me queimam as vísceras

Estou repleto de macias ruas

Onde se plantam deuses loucos

Onde se fotografam fantasmas

Permanências de sorrisos delirantes

Deixa-me morrer antes de aprender a sorrir

Quero pisar o ócio...e o ódio

Reorganizar a síntese dos pesadelos

Vomitar...muito...mas em voz alta...

Encontrar-em em todas as coisas que não fazem sentido

Ser o obreiro dos caixotes do lixo

Mas como posso eu saber

Qual a queixa que percorre a noite?

Como me posso abrigar do frio

Que se sobrepõe a uma língua quente?

Como posso saber qual é o rumo que o corpo me traz?

Se eu me esqueci do sentido

Que habita na courela dos pesadelos

Se eu me estrangulo sob uma árvore secreta

Ou me escondo numa cidade rota

Onde a música implora

Por pássaros enfeitados com estrelícias comestíveis

E todas as noites cuspo na vida

Apunhalando-a com a minha boca incandescente...

Porque sou feito de uma ânsia esculpida em nada!

Na sombra do teu corpo

Há um fulgor branco

Que atravessa as tuas tranças aneladas

Uma luz inexplicável

Passo por ti num voo sem rumo..desnorteado...dormente

Sou um excesso alucinado

No meu íntimo rosto trago algas e lagoas

Sedes de extinções...dedos imperfeitos

Perco-me num fogo rápido

Sou um cometa excessivamente veloz

Sou um fogo esguio

Atravesso os nevoeiros de cinza

Extingo as cidades

Descubro noites em rostos calados

Procuro o meu oásis

A minha palmeira alucinada

Um gelo que me acolha

Flores subterrâneas crescem nas paredes

Sobem aos quartos...conhecem-nos

Trazem memórias de outras flores

De outros destinos...de outros estremecimentos

Esguias estrelas amanhecem junto aos narcisos amarelos

Putrefacções de silêncios

As amendoeiras estão em flor..estou longe

Recolhi-me na solidão de uma nebulosa

Num quadrado imperfeito

Num regresso a um falso grito

Asco de concha encerrada

Sonho com todos os teus dedos

Enfeitados com anéis que guincham brilhos

Extingo-me lentamente numa memória sepulcral

Deito-me...esqueço-me de ti

E embebedo-me numa dança ventral

Que ondula na sombra do teu corpo ausente!