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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

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Poesia e outras palavras.

A madrugada - W.B. Yeats

Quem me dera ser ignorante como a madrugada

Poisando o olhar sobre

Aquela velha rainha ao medir uma cidade

Com um alfinete de broche,

Ou sobre os homens mirrados que viram

Das suas pedantes Babilónias

Os descuidados planetas no seu curso,

A morte das estrelas onde nasce a lua,

E pegando nas tábuas fizeram somas;

Quem me dera ser ignorante como a madrugada

Que ali ficou, apenas, a balouçar a resplendente carruagem

Acima das espáduas sombrias dos cavalos;

Quem me dera ser - pois nenhum conhecimento vale uma palha-

Infantil e ignorante como a madrugada.

Créditos - W.B.Yeats - Os pássaros brancos e outros poemas

Dentro do sono

Pairava inteiro sob um sol aberto

Curva de vento...

Blasfémia perdida no firmamento

Talvez não haja luz enterrada nas estrelas

Nem heresias escondidas no chão

Talvez o céu seja feito de areia e vento

Gotas de chuva...perguntas sem sentido

De onde vem a nossa dor?

Que xaile negro nos cobre?

Que besouros nos engolem?

Talvez a terra tenha a face velada

E nem pare para respirar

Talvez seja um bolor interdito

Como a morte de uma ave

Resplandecendo no firmamento .

 

Na noite em que chega o sono

Acordam as casas...

As chuvas fazem os insectos calar-se

As estrela entretêm-se com chás...tomam chás

Amarram-se aos sofás...bebem do meu peito

Talvez eu não tenha peito para albergar uma estrela

Talvez eu apunhale todos os comboios

Talvez as teias de aranha me comovam

E as cordas me envolvam...sou suspeito

Não quero adubar o chão

Prefiro pairar numa gota de orvalho

Ou ser o cacimbo sem resposta.

 

Adormeço embalado pela luz de uma lamparina

Belas monarcas giram em volta...comem a luz

E eu rodopio num sonho

Amarro-me ao sol

Dou de comer ao vento

Espaireço numa imortalidade extenuada

Dentro do sono...perco-me!

Um apelo aos médicos reformados

Vi ontem no telejornal que numa aldeia do Norte( creio que no distrito de Viseu) um médico reformado vai lá dar consultas gratuitas uma vez por semana.

A sociedade não é um acto isolado. A sociedade também é feita por pessoas que dão o melhor de si em prol dos outros.Uma sociedade forte e evoluída é aquela cujos cidadãos são sensíveis ao desamparo e à solidão dos seus semelhantes.

A nobreza da vida é erguida por pessoas sem nome. Por passos que ajudam os outros a trilhar as encruzilhadas onde se devem projectar as tarefas que cada um pode desempenhar.

Enfim, a Vida tem rostos. E em cada rosto vive a secreta esperança de um mundo melhor.

Numa altura em que há tanta falta de médicos , sendo uma das causas a sua justa passagem à  reforma, faço um apelo a todos os médicos reformados que, seja nas Juntas de Freguesia, nas Câmaras Municipais, ou em qualquer outro local  disponibilizado pelas autarquias, ou até mesmo em Centros de Saúde,  esses médicos, pratiquem acções de voluntariado dando consultas gratuitas a quem não tem médico de família.

Se os médicos reformados se unissem em torno do SNS, mesmo que seja apenas um dia por semana, ou por mês, algo de belo se poderia construir.

O peso do Universo

Era a terra das danças assentes em raízes chamejantes

Mudas como pressentimentos de chuva

Sombras sagradas cravadas no silêncio das mãos em desalinho

Torcidas como esmalte quente

O Inverno devorava o chão

Os céus comiam os olhares

Era o tempo inteiro a entrar-me no corpo

Frente a mim voavam pássaros de areia

Corcéis sonâmbulos desenhavam sonhos

Era a terra inteira suspensa num segundo

Como a vida...ou um fio de seda

Segui embalado por um galope de guerras sem nome

Nuvens tatuadas...pesos sem consciência

Todos os livros se calaram

Todas as cores se esbateram

A temperatura da vida transformou-se em prata

Oxigénio tombado sobre um soalho escorregadio

Canto de aranhas tecedeiras...embalo lunar

Na ausência do corpo havia um eterno universo

Uma voz descia suavemente pela neblina

E as folhas atravessavam as ruas...a galope

Como se estivessem numa praia sonhada

Não havia realidade nem aves coloridas

Passavam anjos trôpegos...insatisfeitos

Caídos de um céu asfaltado

Como um recanto enlouquecido da alma.

 

Mansas mulheres desfiam livros inteiros

Pesam o universo...curam os rasgões dos dias

Pedem harmonias que nem sabem explicar

Tantas e tão vastas como todas as palavras

Como todas as inundações do silêncio

Como todos os anjos ausentes...imortais!

 

O peso da vida

Renascemos na sombra inacabada de um chão escuro

Somos o óleo alumiando o torcer das mãos

Que na intimidade se erguem aos céus

Eternas sementes devoradas por soalhos apodrecidos

Renascemos na fresta de cada dia

Faíscamos como silêncios ausentes

assentamos a eternidade num livro esburacado

Saúdamos o sono monocórdico da esperança

a inundação cega...o mundo à nossa volta

Antigamente as faíscas saíam do chão

Como lava aflita numa combustão de luz

Guerras espessas balbuciam paz celestial

Como relâmpagos que pisam a terra

Garras que emergem das mangas rasgadas das camisas

Que ferem as pupilas tatuadas

Que se cravam no tempo como despojos de sóis vazios

Secos...pesados...penumbra de medos

Enrolamos as sombras em horas móveis

Circulares mulheres irrompem dos sonhos como corcéis

Embaraços de vidas tombadas

Sem um suspiro...sem um senão

Apenas tombadas

Murmúrios....jantares

Todos os mundos se juntam à mesa

Mansa ironia emudecida

Embaraço de deuses ausentes

Pressentimentos enjaulados

O peso da vida...dos dias

O céu manda mais que o sol

O silêncio veste todas as cores

A ausência é um galope arrastado

Dentro de nós ecoam sons indescrítiveis

Sons sem nome...coisas que a terra devora

Como uma lengalenga...um suspiro

Um passado extinto

Ou uma espessura de luz

Que nos faz fechar os olhos

Embaraça as pupilas...faz sonhar o corpo

Como se fôssemos um livro inteiro

Mas a quem falta o tempo para o ler!

Espanto

Durante o tempo em que permanecemos em silêncio

Ergueu-se entre nós um sepulcro de jasmim

E recusámos o verão e as ruas estreitas

Cobrimos a pele de deambulações...espantámo-nos

Recusámos correr atrás do crepúsculo

Perseguição de olhares ocres

E afixámos a noite na memória.

 

Como uma viagem solitária

Recusámos passar os dias

Pousados numa ária insólita

Bebemos com marinheiros rascas

O frémito da bússola sem destino

Viagem ao silêncio dos corpos.

 

Afaguemos então a espessura do lume

Viajemos no vinho

Pousemos as feridas numa bandeja

Insanos fios de água cortam-nos a pele...gelo

Gelamos até que a solidão estremeça

Até que as ruas nos olhem...fixamente

Até que os barcos se enforquem nos mastros

Fogo...há fogo na maresia

E por vezes dentro de nós...

Também!

 

 

Tempo e ausência

Qual o tamanho do tempo

Que se afunda numa alma vazia?

Que olhos galopam pela visão de um instante?

Que fogueira arde na incandescência de uma noite?

Tudo se passa num movimento constante

Numa constelação de eternidades

Num afundar de lábios

Sobre uma boca encharcada de prazer

Todos os elementos nos empurram

Para uma visão abrasadora

Ou para uma fuga aos espelhos...

 

Imenso irradiar de uma chama

Onde florescem intimidades

E os minutos se espantam

E nós...filhos de uma terra devorada

Em que fundo encontraremos

O turvo desalinho das emoções?

Que lodo baço nos cobrirá?

 

Somos feitos de água e visões

Tonturas de eternos corações desatentos

Filhos de um chão semeado com grãos ferrugentos

Vísceras espantosas de folhas caducas

Que aos poucos nos concedem a paz

Que nos mostram os bosques sagrados...vazios

Como sombras assentes em raízes verticais

Ciprestes em combustão...céus originais

E as faíscas turvas emergem de nós

Como despojos suspirados por uma alma

Cheia de tempo e ausência!

Olhar

Olhei e vi as mãos paradas

As coisas perderam-se o nexo

Na fronteira azul das tuas coxas

Não havia razão para me pertencerem

Não encontrei dentro de mim essa razão

Foi assim como uma antecipação do fim

Uns olhos parados entre a minha voz e o teu corpo.

 

Afastei-me dessa fronteira sem dono

Onde se anicha o azul do mar que nunca regressa

Ouvi a música da tua voz.

Ou era a minha a segredar?

Não cheguei a perceber...

Por instantes naveguei

Por todas as tuas nascentes

Transbordei...pertenci-me

Pertenci-te?

Não havia nuvens sobre nós

O tempo era uma terra sem dono

Uma harmonia de dedo espetado na minha direcção.

 

Chegou-se a mim...enroscou-se

Descobri-me nas profundezas da terra

Por debaixo do chão corria o meu rio...viajei no tempo

E parado...

Contemplei todos os instantes

Em que as lágrimas desfilaram pela minha face...