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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

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Poesia e outras palavras.

Íman

Espero que as palavras capturem a luz

Plena e bela cinza de um tempo anterior

Extensão da cidade que resta no horizonte

Sangue de pestanas que os dedos alcançam

Cabide onde as aves rabiscam sombras gigantescas

E onde se vestem os agoiros

Culpa feroz de imaterial secura

Distância de sonhos geográficos.

 

Escavo as asas do tempo

Asfixiante sangue que escorre dos barcos...África aflita

Fardo enrolado em emoções infinitas

Plumas de sombras batendo as asas

Corpo suspenso num mar desfasado

Lonjura fabricada numa teia de aranha..

Lugar suspenso no tempo

Na deslocação dos olhares

Abrem-se escravidões na areia

E as pedras asfixiam as nossas pálpebras de bronze

A carne é escura..a vida secular

Seremos um dia aves metálicas

Presas num íman sem distância...

A eterna palavra...amor!

Quem serás tu divinal criatura

Que chegas como uma ave prometida

Que caminhas por entre camas friorentas

Que convidas os odores do verão florido

Acompanha-te o rústico gelo de uma pedra

Ornamentada com desconhecidos corações...

 

Vens como uma ave

Que sepulta a sua beleza sob as penas encolhidas

Mas és alma florida

És fruto feliz

És pensamento de mistério...

 

Convido-te a receberes-me nos teus braços

A reconheceres em mim o teu jardim

Como se eu fosse um convidado luxuriante

Uma azulínea figura

Um irreconhecível serão

Pela minha parte

Serei aquele que devasta o teu silêncio

Que semeia os teus sorrisos

Que te colhe...

 

E mesmo que a ventania

Sopre sobre as flores mais delicadas

Não arrancará a floração da nossa alma

Não mutilará o nosso coração

Somos pessoas em flor...

 

Hoje podemos juncar de rosas a nossa desolação

Podemos transformar a nossa alma num ramo florido

Podemos sepultar os nossos versos sob a lua clarividente

Podemos aquecer as mãos nessa melancolia

Que espalhámos sobre os caminhos

Porque finalmente podemos contemplar

A eterna palavra...amor!

És a minha salvação

Perfeita é a catástrofe que gera o mundo

Largos são os caminhos onde já passei

Os dias eram meus...

Mas deixei-os noutro lugar

Talvez se encontrem agora nas areias

Talvez sejam mitos inacabados

Esperanças? Certezas?

Nada encontro dentro deles

Sigo a minha memória.

Encontro lugares esquecidos

A casa pequenina...a esperança

Vejo o olival inclinado

O luar assustado pela escuridão do rio

Deixei cair longe a minha herança

Na minha pele nascem plantas

Como estilhaços de pétalas acesas

Feridas profundas

O passado fragmentou-se em fotografias descoloridas

Sorrio...não me queixo

Tudo o que possuo são memórias dos dias

Em que o futuro ficava tão longe...envelheci

Tenho agora as mãos povoadas

Por pequenos fragmentos de letras

Espalhadas sobre o teclado

Grandes histórias de recomeços

Jogos de morte...heranças de feridas apagadas

Sombras crescem sobre os canaviais

Regresso ao amanhecer

Perdi a noite...envelheci mais

Agora vagueio sobre uma inútil pele cansada

Caminho sobre um luminoso raio solar

Despeço-me de ti...abraço-te...quero-te

Nada mais posso fazer

Retorno sempre a ti...

És a minha salvação!

Fogo branco

Enquanto espero pelo próximo espectáculo

Descubro vestígios de rostos extintos

Reparo nos estertores das galáxias

Vejo o abismo encantado das amendoeiras

Escorrego...escorrego pelo hálito da cidade

Sou a floração da floração do excesso

Uma trança dourada pousa sobre mim

Está na hora...estremeço

Conheço este corredor...

 

Nada sei das horas nem dos pesadelos

Extingo-me num fogo deleitoso...subterrâneo

Cheguei ao dia dos nevoeiros

Atingi a santidade sepulcral

Alucino como um astro branco

Não resisto...durmo sobre o meu abandono

desfilo pelos sonhos como um sonâmbulo

Atravesso-me na estrada de algas

Cheguei ao desfile dos rostos

Mato a sede com loucuras

Parto os espelhos

Não preciso de nada

Sou um fogo branco!

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