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folhasdeluar

Poesia

folhasdeluar

Poesia

Formidável vida

Fechei a porta como se fechasse o passado

Deixei as recordações de olhos gastos

Fiapos de pele suave desprendem-se das paredes

Frestas onde posso ver os dias

Amanhã...vou ver como está a esperança

Viajar por cima dos candeeiros...despertar o ar

Eléctricos indiferentes levam as palavras até ao mar

Papéis rodopiam... varrem o chão

E no deslizar de cada passo

Ouve-se uma algazarra de luz

Um lamento de suor

Fechar os olhos...esquecer

Sentir o pestanejar das folhas

É mesclar-se com a vida

Formidável vida...

Que erra pelos nossos corpos

Sai-nos pelas goelas...aloja-se na pele

Visto um ridículo corpo feito de vento

Uso uma memória em sépia

Tenho um lado oculto...

Não deixo que o mundo se sinta sozinho

Que os relâmpagos se espraiem na rua

Estou cá...como uma ave que filtra a luz

Ou...como uma recordação

que se quebra na sombra!

O vazio existe

Nas sombras da poeira

Vejo silêncios incrustados nos gestos

Das águas

Desprendem-se luminosos desmaios de folhas louras

Gritos de sonhos ascendem aos caminhos

A luz pernoita no silêncio

Corpos secos exalam memórias

Rotas...texturas aromáticas

Línguas estáticas desmaiam na ausência

Um grito sobe na noite...

 

Corre-me uma dormência pelo peito

Vento sem sentido sopra nos triângulos das ruas

Dos céus escorrem folhas outonais

Chãos onde os corpos se alimentam de prazer

As pernas escondem-se no vazio

Os telefones despertam... murmúrios de vazio

Tudo amanhece numa luz fantástica

Tudo se absorve com dedos ondulantes...vagos

Na rua a luz é forte

É impossível ver o quente da manhã

Caem mais folhas...o vazio existe!

Sabes que é possível viver como um pássaro?

Tocam-se músicas

Em guitarras de cordas oxidadas

Estranhos sons eclodem no coração da terra

Linguagem de plantas

Formidáveis momentos

Onde se crucificam os abismos

O mundo é uma esfera angustiada

Ervas erguem-se perante a maresia

Despertam na esterilidade das horas

Falam como uma escuridão

Incham nas memórias da existência

E reproduzem-se para lá da vida

Pairando como aves

Que enviam mensagens em código

Bilhetes de esperança...

A pele é uma ave

Que se esconde numa pose de seda.

 

Conhecemos a dor...conheces a dor?

Sabes que é possível viver como um pássaro?

Voar...ser uma verdade cheia de céus

Um acorde de violino que se espraia na areia

Ou até um sótão onde se pode escutar o teu sono

Como um deslizar de sorrisos

Ou como uns olhos que sabem onde tu estás!

A eternidade solitária

Ouve-se um suspiro nas trevas

Silenciosos clarões ameaçam soltar-se da noite

Reluzem como diademas de cinza

Fuligem perdida na vidraça da lua

E por momentos sinto a existência de um despertar

Algo escondido como um Cavalo de Tróia baço

Pela rua voam sacos plásticos abandonados

Explodem cheiros de ervas aromáticas

Crimes incompletos vestem-se de verde

A escuridão desperta sopros insondáveis

Há um strip tease de luzes vibrantes

Manhosas..vazias...

Brilha a luminosidade preciosa de um candeeiro de ferro

Botas pisam as ruas

Garrafas de vidro despejam-se de encontro aos lábios

Bebem as eternidades

A cidade parece um filme acetinado

Bate como um coração que suspira

E..no fundo de uma fachada em ruínas

Estamos nós...

Somos o breve instante da anarquia

A balança que desperta a luz

A eternidade solitária!

Espero que chegues

Dentro do espaçoso mundo das palavras escavo a vida

Dentro de um outro tempo

Descubro eflorescências de sóis gretados

Caixas de correio onde não deixam mensagens

Lágrimas de estáticas ausências..agouros

Padecimentos de olhares inflamados...divindades

O teu corpo é uma divindade

É uma madrugada de rosto inclinado

Sobre um estilete abandonado

Minuciosa vigília encarnando numa pálpebra de luz

Adormeço...não sei definir o tempo

Parei na memória da poeira ausente

Escorro agarrado a uma sombra

Precária sombra...

Onde arrasto lentamente os gestos carinhosos

E ouço-te na secura da língua

Encontro-te na resina das noites

Deito-me lado a lado com o silêncio...lentamente

E espero que chegues...

No gatilho das palavras

Vogando num silêncio sólido

Passo perante domínios tumulares

Lírios apagados nas páginas das pedras

Dizem-me que as noites atravessam a escrita

E que no gatilho das palavras está a vida

Nos carvalhos brilham os tons púrpura do Outono

E dos filósofos gregos erguem-se flautas de luz

Imitações de monstros...ossos contaminados

Faíscam loucuras nas flores feridas

Imito a fala de uma página aguada...dou-te a mão

E guardarei no bolso

Todos os rumores das águas e dos ventos

para depois semear no Verão

Sei que em todas as direcções sibilam ciúmes

Faíscas de textos que só a noite encontra

Omnipresentes passados falam das plumas

Que enfeitam as horas

Fingem ser dunas brancas

Ou flores desprendidas

No abandono de misteriosos campos

Espelhos enfeitados com sílabas

Nas marinhas afogam-se os corações

Perdem-se os rastos

As pétalas perdem o sentido

E apenas a noite se espelha numa cartilagem rosa

Afogueada...magnífica

Como um atravessar de alma em êxtase

Ou um nu de Modigliani

Que permanece para além da paisagem adormecida!

 

Translúcida rua

Digo-te que antes de ti a cor dos dias

Se afundava num desenho sem sentido

Que as manhãs eram neblinas espessas

Onde se enclausurava o tempo

Sólido túnel onde se decompunha o meu coração

Alameda de inverno

Que sob a abóbada azul onde me sentava

Se enchia de folhas amarelecidas

E depois de te olhar

Vi-te como se vestisses um manto transparente

Numa sala apinhada de recordações

Volumosas recordações...fotografias exaustas

Como se estivesse junto a uma maré diáfana

O meu rosto viajou encostado à vidraça

Vi-te passar...

Vestias umas asas esplendorosas

Suave seda envolta em sono...

Olhei...e reparei que a rua estava vazia

Translúcida rua onde perdi o teu rasto

E perguntei: que faço eu agora com estes olhos?

Que convite posso fazer à solidão?

Desfaço-me em mil cores

Ignoro o que aconteceu

Mas o fim da tarde trouxe-me de volta ao sonho!

Horas estranhas

Horas estranhas... corredores infindáveis

Transporto qualquer coisa delirante

Um restolho que rói a alma...uma distância

Os pássaros explodem na voz do vento

Irrompem pelas dunas geométricas...vagarosos

Das alturas caem avisos

Répteis escondem-se na incandescência dos caminhos

Teias indecisas escorrem pelas árvores

Quebram-se de encontro aos troncos sólidos

Como feridas na boca

Destinos que procuram a luz

A loucura ofende...a explosão cega

Na distância os sentimentos encimam rostos pálidos

Mãos rugosas acendem fósforos

A solidão irrompe por todas as águas

Espelha-se nos corpos

No vento eclodem tempestades

Há qualquer coisa na alma que fende os dias

Que domina as monções...as mãos dão-se

E na angústia dos pássaros desmorona-se o amor

Alastrando como misteriosas nuvens

Explodem barcos nos portos

A viagem é insuspeita

Todos os amores dão à costa

Das bocas indecisas escorrem olhares húmidos

Doces tempestades de desejos

Monstros solares que se atravessam no domínio da loucura

É o amor súbito

Veneza está mesmo ali..as flores estão ali

Semeadas por mãos dormentes...morrem de desejos

A última loucura dos peixes

Diz-me que da saliva nascem cidades

Que no amor crescem desertos

Palmeiras desmoronadas...escaravelhos vermelhos

todas as coisas vivem nas feridas

Os leitos esperam

Que as aves irrompam numa dança solene

Que a minha mão tatue o teu corpo

E que as sílabas se incendeiem na voz

Como uma cega haste que se desfaz em cinza...

Sigo no rasto de uma solidão incendiada..vaga

Desfeita num espelho de flores !

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