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folhasdeluar

Poesia

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Poesia

A minha verdade

Nunca de mim saí

Nunca me desenhei

Todas as minhas formas

São presságios de sombra e de lua

Todo o meu sentir

Não passa de um sinal inscrito no destino

Todas a minhas palavras

Pertencem à mitológica sombra das verdades

Mas eu não sou mais que uma onda

A aportar a uma praia deserta

Não sou mais que um penedo

A apontar para a descrença dos céus

O tempo não me reconhece

As manhãs são varandas de silêncio

O tempo é um labirinto onde me perco

E a sombra que projecto nas paredes

É a única verdade de mim.

Inventamos mundos

Inventamos mundos

Somo saltimbancos sem palco

Devoramos a aspereza de uma sorte que não compensa

Paramos a alma...

Entre o que vemos e o que não sabemos

Somos instantes escuros...somos finas terras

Com carnívoros medos.

 

Tudo em nós voga entre o silêncio e a água dos rios

Tudo se desfaz em torvelinhos de melancolia

Mas não acertamos o passo

Com a música da pauta

Não reconhecemos o engano

De sermos séculos de fome e solidão

Erguemos os olhos e vemos a divisão do nada

Como poemas cruéis...

Dizemos que somos a artéria esculpida dos deuses

E juntamos as cores como pássaros austeros

E corremos atrás da ferrugem das preces

Até que nada nos separe dos céus

Que a custo criamos dentro de nós...

 

As horas onde me deito

E por mim passam ecos sonhos e estranhezas

E por mim descem grandes vagas de esperança

Mas sou eu que respiro por meticulosos poros

A inclemente força de um vento

Que me traz o ardor do mar

 

Na minha face se refletem as águas de novembro

Nos meus instantes há uma prisão de desejos

No meu peito há a ressonância de um tempo

Despovoado incontido e lento

 

E para além de tudo há um baile...uma cavalgada

Um fastio que vive na minha boca de mar exposta ao vento

Que afaga a acidez das grutas

Onde o tempo se apaga..se acaba...

 

Como o vaivém de uma onda coberta de algas

Como o despedir de uma fonte misteriosa

Como uma faca que corta a lucidez dos anjos

E que me abre o peito com a alucinação plena das horas

Onde me deito...

No ar

Já no ar baloiçam as vagas feitas de vidro

Já os meus olhos se desfazem nas dúvidas do mar

Já em mim se cruzam labirintos

Já em mim se desenha o rosáceo abismo das verdades

 

Gostaria que um sol florescesse em cada chão

Que a minha mão agarrasse a luz das pedras

E as rochas que suportam as anémonas

Se erguessem como colunas de espanto e de silêncio

 

Se para além do mundo azul das águas

O sonho ousar ser mais que areia

Se o vento ousar ser mais que carne

Então o meu lugar é feito de caminhos e de teias

A rolar...sempre a rolar...

Não te percas

Não te percas nessas ruas

Onde o tempo estupidificou as árvores

Não te assustes com a perfeição estridente do caos

Tu és a luz a sombra e a penumbra

Tu és a mão veemente

Que luz no artifício das caras

Junto a ti corre a longa e fina alegria

E também o austero sinal de seres um mundo

Mas tu que também devoras o fogo

E és o contraponto do espaço

Que inventas a dicção poética das coisas

Que corres entre as sílabas e as praias

Ouves esse vasto temporal a luzir no escuro?

Esse temporal que incha o dorso dos navios

E que ressoa para além de todas as estátuas

Como se dedilhasse as cordas leves de uma cítara

Como se corresse descalço pelos calhaus do poente

E se equilibra num breve fio de luz

Inventando as abstrações que iludem os homens...

Sim... tu que és a sombra pequenina

Que ondeias no azulado dos versos

Não te percas....

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