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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Agitando o vento

Peito apavorado

Gota de paixão a escorrer pela face subtil das tardes

Como se pode dizer

Que a esperança é a evasão morna da vida

Se a vida se desencontra na trituração dos dias

E os deuses comem as promessas

Que nunca nos fizeram...

 

Insolúvel oceano de dúvidas

Abissal mistério das angústias

Que estrela nos gerou?

Que fome nos comeu a soma da esperança?

 

Que venham os dias

Que se desocultem as lendas

Para que os céus e os olhos possam descrer de nós

 

Restam-nos os abraços e a paz dos desencontros

Resta-nos a aventura do nosso inferno

Imortal é a luz e o espanto

Fugazes são as ideias das coisas que não sabemos

E também das que não queremos saber

No átrio que existe no nosso peito

Dançamos a valsa das coisas proibidas

Subtraímos aos sonhos bolorentos...a paixão

A eterna paixão das sombras

Que se instala na alma

Que se instala no sangue oceânico que nos faz remar

 

Voguemos...como templos geniais

Agitando o vento e as angústias...

Estórias da aldeia

 - Deus quis dar-me quase o que necessito e o que me falta procuro com boa vontade: tenho saúde que baste, dinheiro suficiente, anos de sobra, casa própria, filhos, cavalo,cão, espingarda, cozinheira, dois moços e a obra do Luís Pacheco, em onze volumes.Agora só me falta encontrar alguém para me fazer companhia, não para casar, uma companheira, por assim dizer. Quando a encontrar instalo-me no sótão, a ler o que me falta e a esperar a morte, com o cão ao lado, um copo de vinho à frente e a campainha ao alcance. Quero tomar um café ou um copo de aguardente? Uma campainhada e sobe Virtudes,a cozinheira. Quero que deitem mais lenha no fogo ou que me selem o cavalo? Duas campainhadas e sobe André, o criado velho. Quero que me tirem uma mancha do casaco ou que me limpem as lentes? Três campainhadas e sobe Avelino, o criado jovem, que é meio maricas. Quero dar uma foda? Toco no copinho de aguardente com a campainha e sobe a companeira. Quero salvar a alma? Repique granulado e sobe o capelão, para me dar a absolvição, que bom dinheiro me custa. E quando cada qual tenha cumprido com o seu ofício, que se vá outra vez e não me mace, que o que se passa da escadaria para baixo não me interessa, por mim bem se podem matar.

- E para companheira serve uma espanhola?

- E muito, filho, e muito, ou uma chinesa, para mim é o mesmo, a única coisa que me importa, é que seja limpa, obediente,  que tenha boas carnes e fale português, o resto é tudo adorno.

Créditos - Mazurca para dois mortos- Camilo José Cela (adaptado)

Dedicatória

Corre por mim a saudade de um tempo

Em que as manhãs não tinham névoa

Porque hoje desci ao deserto

E soube que a saudade se despede sem se despedir

 

Nada é mais que a luz

Tudo é mais que um tempo sem finalidade

Se a morte vive por dentro da vida

Se o infinito se acoita nas sombras da alma

A despedida é um punhal que nos atravessa o espírito

E a morte é a infecundidade do corpo

A floração do silêncio

A partida do amor.

 

Dedicado à tia Natália que morreu a 5/junho/2018

Hoje blogo eu - As propinas deviam acabar!

Hoje em dia a vida está cada vez mais cara e difícil. Hoje em dia são necessárias cada vez maiores qualificações para aceder ao mercado de trabalho. Por estas duas razões, acho que os estudantes do ensino superior não deviam pagar propinas. Ora sabendo que as propinas são um vector importante no financiamento das universidades qual seria a solução? Pois, a solução seria pagar propinas! Parece um contrassenso, mas na verdade o que proponho é que o estudante só pague as propinas quando acabar o curso e começar a trabalhar, ou seja, depois de iniciada a sua carreira profissional, o estudante vai pagando as propinas como se estivesse a estudar. Seria uma forma simples das universidades manterem o seu financiamento e os jovens de menos posses poderem estudar sem sobrecarregar os pais.

O ritmo dos sóis

Escrevo sobre o silêncio

Que se esconde por detrás de cada rosto

Procuro a palavra

Que torna o espanto num lugar fatal

Carrego um manto feito de naufrágios

Carrego uma página

Afogueada pelos presságios que desconheço

Cuspo fogo...toco na areia com os meus dedos cegos

Conheço a fórmula

Das sibilações constantes do vento

 

Durmo na liturgia das algas

Como um parágrafo negro coroado por crepúsculos

Afogam-se em mim todos os destinos

Sou a dissonância aflita das tempestades

E se um dia dançar ao ritmo dos sóis

É porque enlouqueci...

Diário de um anarquista

Nunca a lei tornou um homem mais justo; é  por causa do respeito pela lei que até alguns bem-intencionados se tornam todos os dias agentes da injustiça. Comum e natural resultado do respeito indevido à lei é o espectáculo a que podemos assistir, dos desfiles militares; onde as diversas patentes todos a marcharem em ordem admirável, a caminho da guerra, contra a sua vontade, pior ainda, contra o senso comum e a consciência, o que torna árdua a marcha e faz quebrar o coração. Eles próprios sabem que estão a fazer um acto condenável; são pacíficos por natureza. Mas o que são eles afinal? Serão de facto homens? Ou são fortalezas e arsenais ambulantes, ao serviço de um homem pouco escrupuloso que se encontra no poder? É isto o que insanidade da guerra pode fazer a um homem: uma simples sombra, um resquício de humanidade, um cadáver ambulante, mas a bem dizer já enterrado sob o peso das armas que carrega, restando-lhe talvez este poema:

Não soaram tambores nem cantos fúnebres

Enquanto o enterrávamos à pressa;

Ninguém disparou salvas de tiros

Por sobre a campa onde o herói repousa.

Créditos - inspirado na Desobediência Civil de Thoreau

Versos tirados de uma ode de Charles Wolf - 1791- 1823

 

Nada mais queremos que a leveza da alma

Nasce em nós um grito

Uma fome de ser gente e prata

Vemos um deus em cada estrela

Uma esperança em cada brilho

E procuramos nos fragmentos da nossa alma

A comunhão com as coisas que se dispersam

Na espuma incandescente da noite

 

Desapertamos laços

Corremos como corpos

Obrigados a ser reflexo de luas desconhecidas

 

O que está dentro de nós

É uma fluorescência de firmamentos inacabados

 

Perante a dura realidade da morte

Nada mais queremos que a leveza da alma

Perguntamos ao silêncio pelos gestos que nos possam salvar

Erguemos as mãos numa prece que nos interroga

Sabemos que da nossa combustão

Sairá a resposta para o sem sentido

E que na multiplicação dos olhares

O mar cairá dentro de nós

Como um tudo...como um nada

Como um ponto que intervala o horizonte que não vemos

Com o breve instante em que nos levantamos

E descobrimos que estamos sós

Com a nossa fome de eternidade!

 

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