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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Ainda não nasceste

Crescem as praias na boca dos barcos

Frágeis cristais desenham silêncios

Ventos espreitam na sombra das águas

E tu...estátua queimada por oblíquos sóis

Falas-me do tempo

Em que os astros teciam húmidos amores

 

Tu que descansas o rosto na alma dos pássaros

Tu que adormeces na proibição das horas

E te esvais como um relógio sem tempo

Tu que és sol e mar e horizontes

Tu que cresces na aridez do silêncio

E que vais de água em água

De amanhecer em amanhecer

Como se corresses

Perante o olhar atónito do mundo

 

Dormes sobre a tua infância

Como um romântico explorador de penumbras

Dormes sobre os sorrisos

E as histórias que os invernos contam

Ainda não nasceste...e já dormes..

O Pregão do Silêncio - livro sétimo

O Pregão do Silêncio 2.jpg

Há tão poucas coisas a dizer

há tanto fim e tanto céu

que na obscuridade do infinito

se esconde o fim e o princípio de nós

 


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Tenho silêncios que me envolvem

Tenho um cais e um barco e uma flauta

Tenho uma roda de estrelas mortas à nascença

E uma seara de dúvidas azuis

Despontando nos meus olhos de criança.

 

Troquei a verdade pelo poente

E a morte por uma borboleta verde

Troquei de estrada e fiz uma escultura

Troquei a lonjura da escuridão

Por um fio do teu cabelo.

 

Tenho na boca um sabor a metal

Tenho um laço negro e um avião de papel

Da minha boca caem tranças

Das minhas dúvidas nascem tempestades

E as estrelas choram com pena do meu silêncio.

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Pergunto-me

Se em mim nascesse a vontade

De não ser mais que um pequeno e minúsculo silêncio

Se do meu corpo jorrassem constelações

De velhas lendas sem sentido

E eu acreditasse que a vida é feita

De impassíveis pedras astrais

Então...

Eu viveria como se tivesse um mar dentro dos meus olhos

E talvez até fosse capaz de dizer

Como é que os rios talham esfinges no granito

Que dorme nas faldas das serras

Seria como se dentro de cada rocha

Me esperasse a eternidade

Mas a eternidade que procuro vive numa outra idade

Vive numa outra arquitectura de tempo

Poia agora sei...que essa eternidade

Está nos teus olhos feitos de água doce

Está na tua pele e na tua ausência.

 

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Línguas de fogo

Há dias em que as palavras são línguas de fogo. Há dias em que as palavras são artefactos mudos. E há ainda outros dias em que as palavras são novelos. São náufragos. São cadáveres embuçados com cicatrizes na face. As palavras têm uma crueldade própria. Uma solidão vazia. Um ácido corrosivo. Um cheiro a vinho. Um refinamento potássico. Umas vezes são impulsos da alma. São véus e são pequenos pulgões de tédio. As palavras acendem-se. Deitam fumo como as chaminés. Queixam-se. São gueixas calçando okobos apertados. São tímidas. Alegres. Floridas. São estrepitosas agulhas. Sentem. Sofrem. São sebes e são almas. Personagens de Dante. E vivem...na exaustão das pessoas.

Texto do livro Silêncios de papel publicado em setembro 2022

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Não sei de onde vem o mar

Mas todos os dias o espero

Como se eu fosse a praia onde ele vai desaguar

 

Não sei de onde vem o dia

Mas entre a espuma e o ouro das manhãs

Lá estou eu....desperto...

Como quem acorda dentro de um milagre.

 

Não sei mesmo de onde venho

Mas a casa branca onde habito

Tem por tecto a fantasia de um selvático céu.

(Poema 66 do livro Na brecha dos dias)

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Sorris ... num sonho luminoso e longínquo

Como se fosses um longo encanto que me iluminou as trevas

Onde eu permanecia....como um gigante... que bebia a tua luz

Era um sonho feito de uma noite húmida...derradeira

Nascida de um verão feroz e profundo...como uma censura

Bebi desse cálice de onde despontava timidamente a tua natureza

E... foi um encanto...o ar da noite...uma aventura

Uma volúpia feérica...um corpo de marfim...uma fundura...

Onde me despi...nos exílios profundos da ternura.

(Poema do livro Chão de palavras publicado em 2021)

 

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Não sei que pétalas se escondem por detrás da imensidão do tempo

Mas o frio da distância...esse sublimado estar por detrás das palavras

Esse leme que nos conduz às memórias de serranias e de ventos

Esse sermos nós...feitos da alma da terra...é o que nos aquece

É o que vela pela nossa pulsação

É o que circula por dentro da lonjura caiada das casas onde nascemos

Como um artefacto feito do sangue intacto dos nossos avós...

(Excerto deste livro publicado em 2020)

P.S. - escrevo sob pseudónimo

 

 

Um corpo que canta

Quando eu souber que é na minha pele

Que descansa o frio que me envolve

Que os meus pés pisam o fundo das sombras

E os morros do mar

Que o luar vibra com a tristeza dos pássaros

Então...espreitarei o fundo de mim...

 

Perante o cansaço das flores

Tecerei longos mantos com os débeis fios da aurora

Cobrirei o meu esquecimento das coisas

Com a bruma espessa da infância

Vestirei a minha vigília

Com a chama de um tempo apagado

E por entre o espaço e o cansaço que me resta

Viverei...como um império de sorridentes ventos

Como uma dança

Que volteia na imobilidade das chamas

Queimando os dias...

Queimando as pontes que não posso atravessar

Queimando o mundo e o convés dos instantes

Que se prendem a mim como faróis

E são esboços de linhas rectas...

 

Ocasos de silêncios rolam pela superfície

Das prisões que me cercam

Que eu atei a mim...como sombras...

Como barcos...como nós que não desato

Como mirantes de vidas passageiras

Que desaguam em rios de águas desconhecidas

Náufrago de silêncios....

Brancura de deuses assentes em estepes desertas

Desfaço-me em grãos de areia

Que rolam pela minha ansiedade

Como sonhos..como crinas...

Como sepulturas de almas envoltas

Em finas asas de cristal

Que assim vou....

De névoa em névoa...de mundo em mundo

Como um mistério colado

Aos claustros loucos das catedrais

Como vibrantes e voláteis desejos de eternidade

Como marcas de passos deixados na planície

Melancolicamente branca

Onde vibro...

No fascínio de ser indeterminadamente...

Um corpo que canta...

Ao infinito...

 

Vivi...

Dizia Heráclito, o filósofo que deveu a sua fama à linguagem obscura, " que qualquer dia é igual a todos os outros". Outros houve que disseram o mesmo mas de maneira diferente. Disse um que é igual o número de horas, e com razão, pois se um dia é um espaço de tempo de vinte e quatro horas, todos os dias são iguais entre si. e também que a noite tem a mais o que o dia tem a menos. Um sábio não diria melhor. Disse outro que os dias são iguais na sua aparência geral, portanto, nada há num enorme espaço de tempo que se não possa encontrar num único dia - a luz e as trevas; no constante alternar do universo, tudo isso aparece multiplicado, mas não diferente. Organizemos, portanto, cada dia como se fosse o final da batalha, como se fosse o limite, o termo da nossa vida. Pacúvio que usufruía da Síria como se lhe pertencesse por direito, depois de a si mesmo se ter celebrado com libações e sumptuosos banquetes fúnebres fazia-se transportar do festim para o quarto entre palmas dos seus "amiguinhos" que cantavam em coro: -  já viveu, já viveu.

Todos os dias fez o seu próprio funeral. Ora o que ele fazia com a consciência pesada, façamo-lo nós com ela tranquila.E ao irmos dormir digamos com satisfação e alegria: - vivi, cumpri o curso que a sorte me deu.

E se no dia seguinte acordarmos, aceitemos com alegria esse novo dia. Pois o mais feliz dos homens é aquele que diz quotidianamente . - vivi!

Créditos - inspirado em Séneca

Posso beber do meu corpo

Digo que viémos de um tempo de luz

Como quem mastiga o seu próprio interior

E a lembrança que trazemos

Não é mais que o canto das cigarras

 

Digo que as nossas vozes são feitas de penhascos

Que trazemos braços para esgrimir o veneno

E se estamos de pé

É porque somos como as flores silvestres

 

Digo mais...digo que nascemos com corpo de animal

Como quem se encolhe no útero materno

E se os relógios espreitam o tempo

Nós também nos multiplicamos como searas

 

Pergunto...o que queremos de nós afinal?

Ocupar o espaço que medeia entre nós e qualquer lugar?

Beber a nossa sede de viajantes cansados?

Ou...talvez...estreitar o nosso corpo

Como trepadeiras mortais...

 

Digo que se tenho sede posso beber

do meu corpo até

o secar.

Oiço um pássaro

Estranho ponto pousado

Entre o espaço e o rio

Sou eu?

Ou é a luz a desafiar-me para a longa viagem das aves

É o silêncio das veredas?

Ou é a estrada a dizer-me....vem!

Mas eu alastro...

Alastro por dentro da chuva

E dos olhos que não me vêem

Alastro por dentro de todas as fugas

E de todos os ventos

É sempre assim...quem fui?

Que espera inunda a minha alma feita de noites?

Se corro por entre a vida e a morte

Que distância fica entre mim e a minha alma?

Há uma cisma na lua

Há uma ausência de mim na chaga dos dias

E há um charco de onde não se foge

 

Brincamos nos olhos dos outros

E quando a primavera chega...florimos

Como narcisos...como desertos

Como fomes de sermos outros

 

Ninguém vê nem ouve

Os demónios que nos invadem

Ninguém sente as finas redes

Que nos tolhem as asas

Ninguém percorre a distância

Que nos cobre de negro

 

Oiço um pássaro

Ou será um poema de Celan que esta ave anuncia?

 

Por entre a amargura do tempo

Reparto-me em agudas lâminas

Por entre o espaço de um segundo

Vivo a plena eternidade!

 

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