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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Tudo o que tu és

Acendem-se os corpos

Nas pétalas suaves do vento

O luar...o mar...

Tudo escorre do círio do tempo

O mel...a fúria...

O retrato que arde na distância de um lamento

Fechada a vida...dispersa a infância

O rio corre agora livre e ágil pelas veias

Os cardos que pisaste

As cordas em que te prendeste

Os caminhos que inventaste

Nada resta das asas com que voaste

Mas lá ao longe...

Timidamente surge a flauta bravia

Surge o canto e o lamento

Surge a voz do tempo...

 

Espalha-se a noite nas pétalas da névoa

As plantas ressurgem frescas e limpas

Gotas de ti assomam à boca da manhã

São como esmeraldas...verdes...esperançosas

São sílabas gastas temerosas

São tudo o que tu és...

O cântaro de latão

Dizem que as coisas procuram quem as ama, e que não somos nós a querê-las mas que são elas que nos querem. Vem isto a propósito do meu gosto e ternura por coisas antigas, andava há muito tempo a ver se encontrava um cântaro de metal daqueles que eram utilizados nas aldeias para ir buscar água à fonte, encontrava muitos em zinco, mas o que eu queria era um de latão, que são muito mais raros. Certo dia numa visita a uma aldeia entrei numa casa( não sei porquê,mas algo me chamou) que estava em ruínas, o chão de madeira tinha abatido, o telhado estava decrépito e uma parte tinha desabado, espreitei e vejo a um canto, sobre uma mesa carcomida pelo caruncho...um cântaro de latão tão bem conservado que não hesitei e trouxe-o...era o meu cântaro...e ele tinha-me escolhido...mas a verdade é que me acontece o mesmo com pessoas, em certas alturas, e no momento próprio aparecem na minha vida...

Diário de um ecologista

Cada manhã é um aliciante convite para tornar a vida igualmente simples e, digo até, inocente como a própria natureza. Sou, como os gregos, sincero adorador da Aurora. Levanto-me cedinho e tomo banho no lago, é uma espécie de exercício religioso e uma das melhores coisas que faço. Contam que na banheira do rei Tching-thang havia mensagens gravadas com esse objectivo: " renova-te a cada dia; renova-te outra vez, e outra vez, e sempre outra vez". A manhã traz-me de volta os tempos heróicos. Toca-me tanto o zumbido tonto de um mosquito, quando ao amanhecer me sento de porta e janelas abertas, como me tocaria qualquer trombeta celebrando a fama. É o requiem de Homero, em si mesmo uma Ilíada e Odisseia em pleno ar, cantando as próprias iras e viagens. Há algo de cósmico nisso tudo; um anúncio constante, dos perenes vigor e fecundidade do mundo. A manhã, o período mais memorável do dia, é a hora do despertar. Pouco se pode esperar do dia, para o  qual não tenhamos sido acordados pelo nosso espírito, mas apenas pelas cotoveladas mecânicas de qualquer despertador, para o qual não tenhamos sido acordados pelas nossas próprias forças e aspirações íntimas, acompanhadas de ondulações de música celestial em vez de sirenas de fábricas, e de uma fragrância a encher o ar - para uma vida superior àquela em que havíamos adormecido: e assim a escuridão produz o seu fruto e mostra-se não menos importante do que a luz.

Os lugares por onde passámos

I

Os meus olhos petrificam-se

Junto ao murmúrio das aves

E a tarde cinzenta

Sabe dos lugares por onde passámos

II

Se eu voasse emitiria um grito

E o meu peito

Não se afundaria neste chão

Onde a alma é um eco

III

Os barcos de pesca entravam pelos olhos

E a criança corria na praia

Com pés de mar

 

IV

A janela cumpria o seu sonho

De embalar as nuvens

Enquanto a mulher deslizava

Com asas de céu

 

V

O baloiço unia o corpo ao ar

O menino tingia de riso

As cordas do seu sonho

E o seu vai-vem

Era um breve deslizar de vida

 

 

 

Ficou a saudade

Estáticas...

As veias pulsam no breve tempo dos astros

Anéis de ferro desprendem-se das trevas

Nenhum de nós

Dará o primeiro passo para a amargura

Nenhum de nós

Quer entoar a canção da agonia

Entre a primeira vida que houve

E a primeira morte que nasceu

Ficou a saudade

Ficou a frescura de uma noite sem tempo

Ficou um caudal de mundos desconhecidos

E para além de todos nós

Para além da diluição de todas as vidas

Há os lagos onde se espelham as nossas feridas

Há abstratos cataclismos

Cores nas faces...risos esbatidos

E se do absurdo silêncio

Se levantasse um chão dorido

Se o céu se abrisse ao nosso acenar

Com que mão o faríamos?

Se todo o nosso ser

Vive na ilusão geométrica da alma?

No blog cabe o mundo inteiro

O blog é a verdadeira rede social. O blog pode ser cultura e também pode ser feito de leituras leves. Pode conter a banalidade e o profundo. A poesia e a prosa. A notícia escabrosa e o poema que encanta. Pode conter o riacho e o búzio por onde se escuta o mar. O blog pode ser feito de flores e também falar da ausência. Da vida e do destino. Da morte e da luz. Do escuro e das horas, do tormento, da amizade e da falsidade. O blog é o vento que assobia a sua ária aos passantes. O blog são os braços abertos ao leitor e ao comentário. Pode ser luz e espaço. Pode ser libertação e acaso. Hostil e confuso. Amigo e leito de palavras. Nada se compara ao blog porque na imperfeição de cada um reside a perfeita harmonia de só o ler quem assim o quiser. O blog é fantasia,  porque no blog cabe o mundo inteiro.

Interior

Não sei o que me traz este céu de silêncio

Não sei que fascínio encontro nas pedras

Que medida tem a esperança?

Que glória existe na cinza dos instantes?

Em mim...

Se esconde o inferno e a beleza dos cristais

Foi a mim que coube a rudeza dos séculos

E a perdição dos vícios

E se levanto o olhar

É apenas para ver

Se as palavras se desprendem de mim

Se saem de mim...se eclodem em mim

Como correntes feitas de ferro e cinza

Como pequenas fontes de prazer

Como perdições que rastejam para fora de minha alma

Como cantos de almocreves

Dolentes...sentidos...sem idade...

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