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folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

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A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

Coluna de sábado - enoja-me ver dois gajos a beijarem-se na boca

Não sou homofóbico nem condeno o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não acho que ser gay ou lésbica seja um pecado nem uma aberração.Acho que ambos podem educar uma criança (ou várias), tendo esta dois pais ou duas mães. Não concordo com discriminações por causa da orientação  sexual nem me atormenta a vida de cada um. Mas  tenho horror a baratas e tenho por elas uma repulsa inexplicável. Isto para dizer, que me enoja,( também sem saber porquê) ver dois gajos a beijarem-se na boca. É uma reacção a que não consigo resistir. Curiosamente se forem duas mulheres a fazer o mesmo, não sinto qualquer asco. Talvez seja uma questão cultural. Fui habituado a ver as mulheres a cumprimentarem-se com beijos e os homens com um aperto de mão,  por isso, algo dessa prática ficou interiorizado em mim, e aceito, ( como aceito que dois homens se beijem) facilmente o beijo na boca entre mulheres sem me causar qualquer tipo de repulsa.

Um fragmento de tempo

Nada mais quero que uma noite

Uma noite sem céu nem vento

Onde as pessoas não sejam mais que ilhas.

 

Se o mar se cobrir de silêncio

Se as palavras fustigarem a chuva

Se os tambores soarem como bocas

Que engolem a compreensão das coisas

Então entregarei a alma ao mar

Serei a árvore genealógica dos desesperados

Dispersarei o meu corpo

Como se pertencesse a muitas pessoas

Entrarei na água junto ao cais deserto

Como se um fragmento de tempo se escoasse

De mim!

Afrodite

Rente à manhã nua corre plano o rio

Tiritam gaivotas de prata

Sobre os barcos ancorados

Árvores de comédia

Começam a despir a gaze de nevoeiro

E a lezíria é despertada

Pelos acordes das aves que se erguem no ar

Mas não há cabeças enfeitadas com flores

Não há idílios nas aves que pairam ao vento

Não há pontes que nos levem à nossa raiz

Não há flautas... nem canoas no rio

Há mistérios e líricas paisagens

Onde vivem as tentações de Afrodite

Solitárias como os homens…

Dias sobre dias

Dias sobre dias

Como se as estações do ano não passassem

E os dias fossem outros

 

Dias húmidos que entram pelos olhos

Dias de seda e de tapetes de ouro

Pisados por pés de esmeralda

Dias que abrem fendas

No mármore rosa dos cemitérios

Dias de músicas cristalinas

Dias de olhos negros

Que são fendas abertas

Que são eclipses solares

Dias que usam rendas

E folhos de veludo azul

Para enganar os incautos seres

Que vivem nos quartos alugados da alma

 

Pelas carcomidas janelas funerárias

Que dão luz aos pardieiros

Vejo inocentes homens

Que vigiam das torres do engano

E a árvore que a avalanche vergará

E que fará despir os seios das montanhas...

 

Ecos

Ecoa surdamente em mim

A voz ...dos biliões de seres pardos que existiram

E que uivando partiram fortes e enormes

Com os seus olhos azuis enlaçados em cabelos negros

Gentis visitantes de outros mundos

Guerreiros atravessados por oceanos

Suportando nas costas curvas o céu escarlate

Acenderam no horizonte a chama rosa da esperança

São esses os seres que desembarcaram em nós

São esses os seres... que somos nós...

Que bonito é o mundo

Que bonito é o mundo das coisas estranhas

Das rochas escavadas pelo passado

Minadas de nostalgia

Das cascatas com limos escorregadios e acidentais

Das visões que culminam

Na plenitude de um rosto fechado

Embalado...pronto a ser pesado...selado

Que bonita a partilha dos grandes espaços

Que bonitas as colecções de quadros em ponto cruz crucificado

Que feios os restos ocultos da luz turva

E cheia de enigmas preciosos

Como se à luz turva... dessa luz

Fôssemos apenas alguém

Que não perde tempo a iluminar os seus dias!

 

Longe de nós

Estou longe e deixo parar o tempo

Deixo-me ficar suspenso em mim

Abrigado nesse refúgio mágico e silencioso

Não escutar o eco profundo do mundo

Mergulhar corpo adentro...demoradamente

E deixar que os ventos soprem sem me inquietar

 

Estou longe e procuro o amparo que sopra do mar.

Deixo que a vida me carregue de grandeza

Deixo o silêncio responder ao meu ruído interior.

Ao ruído que sai das minhas salas fechadas ao mundo

Ruído ensurdecedor que ninguém ouve

Ruído violento...voraz...falho de palavras

Que faz me estremecer com perguntas desconhecidas

Como quem entra num palácio de espelhos desfocados

 

Silêncio feito de perguntas difíceis

Que me obrigam a convalescer das respostas inaudíveis

Ah! Grande deserto silencioso

Onde as tempestades de areia

Falam dialectos desconhecidos

E perguntam onde vão as nossas emoções

E nos dizem que a maresia é um vento calmo

Aí percebemos…

Que quando estamos a sós

Somos livres...

Mas quando estamos longe de nós

Somos Deuses...

Variações

Desci ao fundo de mim

Para descobrir se havia fundo

Subi ao céu de mim

Para descobrir se havia céu

Mas não encontrei

Nem fundo...nem céu...

 

É noite...

A cama cheira a uma febre débil

A luz da rua

Reflete-se na parede com serena candura

E as aparências de sombras

Dispersam-se no escuro intenso

 

O tempo... custa tanto a passar

O tempo... passa tão rápido

O tempo...não tem tempo nem lugar

O tempo...está em todo o lado

O tempo...não tem lado para estar

O tempo...está em nós tão arreigado

Que esquecemos que somos o seu lar....

 

De portas cerradas

De portas cerradas

Como abelhas sem colmeia

Levamos a sério a vigília e o desgosto

Comungamos do mistério do espírito

Com vinho... pão... e desespero

Berramos música primitiva

Com olhos espantados juramos sinceridade

A quê?

Se não sabemos o que ela é

Se não sabemos para que serve

Se não nos veste este corpo de idiotas sem fórmula

Adulamos os trabalhos forçados...esforçados

Descemos à mina primitiva.

Pecamos sem originalidade.

E temos pressa...muita pressa.de ir à praia

E sós… lá ficamos

Apenas isso...

 

Garrotados e adulados pela maré vazante

Bebemos vinhos bestiais

Caímos de borco na areia

Porque dentro do vinho

Latia invisível...o espírito de Baco

 

Atroz irmão...

Igual a todos os desesperados

Igual a todos os que não têm memória

Igual à idade da velhice

Bela ...calma...pacífica

Porque sem futuro!

 

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