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folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

Somos infinito

Às despimo-nos das coisas

Inventamos dias de sol

Como cobardes e selvagens sombras

Às vezes despimo-nos das pessoas

Inventamos guerras

Como fantásticos assassinos do amor

 

Na impossibilidade de sermos o que não somos

Inventamos pessoas que possam viver em nós

Encostamos a nossa pele à aragem

Beliscamos sonhos extravagantes

Fazemos promessas

 

Lentamente interiorizamos

A nossa incapacidade de perceber a existência

Então vomitamos sobre nós

Fazemos figas

Somos medíocres como se nada nos tivesse acontecido

Escondemo-nos porque não nos percebemos

 

Conhecemos o mundo de Sarte

Somos responsáveis por nós

Somos seres habitando fábulas

Somos a nossa fábula

 

Impacientes...infelizes...felizes

Toscos barrotes empilhados nas casas frias

Somos a explicação do falhanço de Deus

Nada nos explica

Nem os filósofos gregos nem quaisquer outros

Somos todos mudança...passagem

Infinito...

Se um dia estiveste num sítio onde havia flores....

Se um dia estiveste num sítio onde havia flores, agora pode ser que lá já não hajam mais flores. Mas tu podes lá estar lá, mesmo sem flores. Porque és único. Porque és um corpo que desde que nasceu sabe que ninguém o vai conseguir segurar nas mãos. Ninguém o vai possuir. Não há posse de corpos, nem de alma, nem de nada. Tudo é uma solidão acompanhada de silêncios que vivem entre as palavras.

 

O medo que é feito da falta de ter coragem. Que é feito da serventia que não fazes de ti, porque ninguém vai usufruir de ti. Tens de ser tu a respirar a tua coragem. A afastar o temor de seres tu

 

E os teus pensamentos? Essa solidão da alma que explode dentro da tua cabeça, para onde vão esses pensamentos que apenas tu conheces? Por onde andam esses olhares interiores que não sabes para onde vão?

 

Escapar aos dias. Conhecer os limites da alma. Arriscar. Enroscar a vida numa aventura sem nexo, porque nada tem nexo. Nada faz mais sentido que a falta de sentido da vida. É por isso que as pessoas escrevem. Pintam. Cantam. Inventam-se e reinventam-se. Tudo para estarem perto de si. Porque todas as coisas que saem de si. São a sua companhia. O seu aval para a solidão.

 

Ninguém jamais penetrou no mais profundo de outra pessoa. As pessoas são impenetráveis. São duras como as horas. São silêncios e angústias, e, contudo, todos queremos viver. Sempre mais algumas horas. Todos queremos esperar sempre mais alguns minutos, antes que o tempo se acabe.

Página glacial

Oh ruína das ruínas e dos horrores

Página glacial onde tudo se escreve

Passos de dias e de folhas mortas

Fogo da desgraça e das sombras

Estrada turbilhão onde tudo se mistura

Ressonância ensurdecedora das inquietações

Oh estrada onde tudo é profanado

Onde os ideais se cansam de serem ideais

Onde pessoas sem rumo seguem o medo

Arrastando a lama atrás de si

Esperando o milagre onde podem perder-se.

E Gaza?

Quando nos atingirá o estilhaço dos mortos?

Que brusco martírio alcançaremos?

Que círculo traçaremos sobre a visão do terror?

E Gaza? Sim Gaza. Aqui tão perto

Gaza onde é necessário comprimir a multidão

Onde é necessário perceber a orla da fome

E afinar a acústica do desespero

Mas só quando uma pedra cair sobre nós

Só quando nos esmagar a memória

Só quando formos seres humanos

Uma ridícula vontade de rir

Não é possível que saibam quem sou

O meu olhar é uma noite inconstante

Uma sombra esquecida que devora a luz

Não tenho estado nem alma

Só fadiga

 

Mas é possível que o meu presente

Seja idêntico a outros presentes

Que os meus olhos possuam a gravidade de uma farsa

E quando fixo o olhar e apoio as mãos na face

Sinto um impressionante cansaço

E uma ridícula vontade de rir

 

A lei do tempo

Leio Kafka e escuto os suspiros do mundo

Em cada palavra uma faísca

Em cada frase uma calamidade

Um claro mergulho no tempo

Um riso um ritual um acto de perdição

A orla do futuro é já ali

O passado é um gemido uma distracção

Só tenho o espaço que me darão

Só tenho a terra que me cobrir

E enquanto a lei do tempo não me ofusca

Coloco o livro na estante

E escuto uma ária de Rossini

Implosão

Deixei que os dias vazios

Escrevessem cartas à luz da lua

Homens e mulheres iam em procissão

Em busca de prados frescos

E o deserto acordou com uma atmosfera lunar

O baile das debutantes foi erguido sobre as águas

Nada se regia pelas normas

O efeito de estufa alagava os corpos

Os mares bramiam contra a costa

E a malícia inchou a atmosfera

As certezas eram explícitas e as fábulas verdadeiras

O arame farpado vestia as fronteiras de aflição

E nós percebemos

Que por detrás da bruma

Implodíamos como uma Anã Branca...

 

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