Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

Não sei falar de mim

Pego com mãos de vidro

Nas flores que o vento borda

 

Gelosias de nevoeiro dissimulam as cores

Paradas na margem do rio

Um himalaia de paz branca...espessa

Cresce na órbita do silêncio

Assombrando as cravinas

Que descansam nos vasos de barro

 

Nem todas as sombras se vão

Algumas agarram-se a nós

Com a cola feita de imagens desbotadas

Nem todos os erros se esquecem

Alguns ficam connosco

Como dedos de ferro a plagiar o destino

 

Se eu soubesse falar de mim

Diria que uma estrela me viu de cabeça para baixo

Que os meus olhos possuem

Todos os centímetros que os olhos podem possuir

Que morro de frio

Como um Universo que não cabe em si

E que a tua presença

É a solidificação de todos os meus anseios

 

Se eu soubesse falar de mim

Diria que os dias se multiplicam

Por dentro das minhas veias

Que a felicidade consome o tempo da saliva

Que na minha boca cai a chuva

Que me molha por dentro

E que na espera de mim

Há uma lonjura de mar telescópico

A entoar as frases das algas

Mas...eu não sei o que digo

Não sei falar de mim...

O silêncio da ausência

Olho para o outro lado de mim

Perco-me? Não!

Porque do outro lado de mim

Ainda posso ver este meu lado

Que agora está em outro lado.

 

Nunca conseguirei caminhar

Mais que os caminhos que há para caminhar

Nunca serei um rio sem foz

Atado a duas margens do tempo

 

Para viver basta-me o sol do teu sorriso

Para morrer basta-me o silêncio intransponível

Da tua ausência.

 

A hora da sesta...

Com o meu punhal de vento

Traço riscos na lembrança dos instantes

 

Cintila a transparência luzidia da água

As árvores choram os galhos feitos cruz

Do meu corpo erguem-se fétidos anseios

Tudo apodrece na algazarra silente

De um rebanho sem margem para ancorar

Os pinheiros estendem-se

Pelas íngremes faces das encostas

E as cigarras vestem-se de santas

Equilibrando-se nas bordas do amor

E cantam...sofregamente

Na véspera da tristeza

 

No cumprido desmaiar de um milagre

Oculta-se a tristeza dos juncos batidos pelo vento

 

No comprimento do rio

Os barcos marcam o compasso dos gemidos

E o sol... mostrando-se ao dia que passa

É uma flauta de pastor a marcar a hora da sesta...

 

 

Ao longe...uma vela branca

Ao longe... uma vela branca

Desliza pela espessura das palavras

O vento empurra essa vela

Que voga na tona das coisas que calamos

E pergunta-nos pelas noites

Em que nos esquecemos de esvaziar as tempestades

Pelos passos imperfeitos

Que caminhavam pelos degraus do sonho

E pelos rumos desencontrados

Que flutuam na configuração das ondas

 

Tivesse eu nascido agora

E todas as aves construiriam cantos de alegria

Tivesse eu uma parede de alabastro

E todas as vozes assomariam à minha janela

 

Na sombra da abóbada

Construo a minha outra sombra

O meu outro fantasma

A minha outra paisagem

Todos os meus gestos são espelhos atmosféricos

Vidrados... na face da minha face ausente

Todas as letras procuram

a confluência das linhas do teu rosto

E em breve serão despojos

a tombar na ruína das manhãs

 

Edifico-te como se fosses uma árvore de cobre

Ramos de prata...

Sílica de tempo a corroer a solidão dos pássaros

Sonho de esquina perdida no tempo

Que nos cavalga os olhos

E mesmo que o cardo da bota

Pise a rotação dos dias

Que os pássaros abandonem as cidades

E o tempo se despeça de nós

Deixaremos a nossa marca...intacta...

Na superfície lisa da saudade...

Pedi que me deixassem em paz

Dentro da nossa cabeça

Há palavras parecidas com verdades

Há verdades parecidas com palavras

Mas dentro da nossa cabeça...

Não há palavras que digam o que são as verdades

 

Sei que as luzes mentem aos homens

Sei que o deserto se entorna pela vida das pessoas

Sei que o comprimento da luz resvala nas paredes

E que dentro da cabeça de cada um

Há uma laranjeira em flor

 

Descobri que as estradas

São galopes de homens parados

Descobri que as estátuas ajudam a queimar o tempo

Descobri que cada homem

Carrega nas costas uma pirâmide egípcia

E que a alegria se desfaz no ar

Como um vento carregado com aromas de romã

 

Um dia sentei-me sobre uma viagem

Despedi-me de todos os nós cegos que me tolhiam

Pintei as palavras com tinta brilhante

E pedi que me deixassem em paz.

 

Cada amor uma ternura

Inventar um nevoeiro

Descobrir uma tempestade

As olheiras de Deus a soçobrar

Esse Deus que dorme enquanto caímos na vertical

Enquanto desafiamos os cataclismos

E gelamos…

Gelamos no torpor de uma agonia

 

Cada glaciar é um desafio

Cada frio uma estrada de ferro

Cada amor uma ternura

E medito na falsa filosofia de tempo

Acaricio os grãos que perco e que ganho

Acordo a sobrevoar os promontórios do medo

Sei que existe a época das dores

E que virá a cavalgar o tempo

Com a precisão de uma seta

Só não sei se compreendo

O que cada rosto me dá.

Lembro-me daquela vez

Lembro-me daquela vez

Em que me falaste do mistério das estátuas

Daquelas estátuas

Feitas das penas dos que venceram

Estátuas que estão ali... plantadas...

Como mentiras de pedra

 

Deito a cabeça na minha almofada

Feita com a solidão do deserto

Dá-me um cais e eu serei o teu luzeiro

O teu verde-anilado

E assim poderei ser mar e tu a pedra

Que se ergue nos meus ombros

 

Lembro-me das laranjeiras

Que nos acenavam na noite do quintal

Lembro-me de apontar o dedo

Às histórias que me contavas

Lembro-me de tudo...

Menos do nó que me apertava a garganta

 

Ainda tenho na minha...

A mão que me passavas pela cabeça

Como um anseio de sede

Como uma escrita rasa

Feita com as cores da tua vida

 

De longe a longe vem-me uma dor ao peito

Sobe por mim como uma porta...ou uma farpa

Nunca mais me visto de multidão

Nunca mais assomo ao teu corpo de licor

 

Imagino-me a escorregar pelos cabelos dos jardins

E adormeço....

Aceito a liberdade de me dar ao mundo

Ando a boiar no fundo do tempo

Cruzeiro do acaso...anel de Princípio

Sou o centro de tudo o que não sou

Vivo na semente ignorada dos dias

Rosa dos Ventos...metamorfose de espaços

Aceito a liberdade de me dar ao mundo…

 

Perscruto a noite como se não tivesse olhar

Nada se move na solidão do escuro

Há na noite uma alegria inútil... alcoólica

Um reverso de medalha amortalhada

Num galope de sombras em flor…

Aquele que nunca te viu

Fecha os olhos e poderás saber onde estou

Pousa os olhos neste candelabro de luz...fica

Desperta para esse cristal de verão a desafiar o mar

Escuta esse silêncio brusco

Que penetra na janela da manhã...

 

Todos os dias me aquece um sol frio... encarniçado

Todos os dias a manhã me conta uma história

Todos os dias a tua imagem

Me devolve o renascimento de mim

Porque depois de te ver

Nunca mais fui aquele que nunca te viu...

Pág. 1/3