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folhasdeluar

A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

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A minha poesia, é a minha incompreensão das coisas.

A cadeira da filosofia - #1 - como surge a liberdade

Heidegger disse que é no isolamento que o ser humano se revela na sua angústia mais autêntica. A solidão não é fuga, é enfrentamento, o mais seguro dos abismos. Nela o homem deixa de se esconder por trás dos papéis que o mundo lhe impõe e encara o que realmente é, sem máscaras, sem distracções, é nesse silêncio que a existência se torna insuportavelmente clara. O ser percebe que está lançado no mundo sem garantias, sem sentido prévio, e que precisa construir o próprio significado a partir do nada. Heidegger chamava a isso de “ser para a morte”, a consciência de que tudo é finito e por isso mesmo urgente. Fugimos da solidão porque ela nos obriga a olhar de frente o vazio que tentamos preencher com barulho, rotinas, e outro tipo de actividades, mas é nesse vazio que nasce a lucidez, e é dessa lucidez que surge a liberdade.

Tudo o que viera comigo

Tudo o que viera comigo

Esfacelou-se nas arestas dos dias

Quando partiste comecei a recordar

O que me invocava a tua passagem

Os nomes das plantas os meses

Os pássaros que apontávamos a dedo

Quereria que o sangue dos meus actos

Adquirisse transparência

Mas era tarde...

A tua ausência tinha a enormidade de um mar interior

Perante o qual o dia era engolido

E a minha voz era um eco perdido

Na bruma calcária dos dias.

Eco interior

Para onde vais vaga que o vento afaga?

Para onde escorre essa geometria de cinza alada?

Bocal de perfume esfacelado

A invocar a passagem dos dias

Função de planta transparente

A gravar-se nas arestas dos olhos

Mar a invocar céus...

Perante a enormidade da respiração dos sonhos

 

No meu interior cresce o asfalto ferido das cidades

Na minha alma desenham-se traços de régua e esquadro

Enquanto o cio do vento

Lambe os pedaços que caem dos meus passos

 

No anoitecer que respira na clausura da aurora

Os corpos ardem como espelhos fascinados

As estradas são o íman que atrai a perdição das luzes

O sonho é o incómodo de si próprio

Um mar de violetas a engolir jardins

Uma passagem que transpira no fundo da dor

Tão forte...como uma porta de luz entreaberta

Para o desencanto da neblina

 

Todos os corredores que percorri

Me levaram ao desencontro das memórias

Todos os perfumes são difusas estrelas

A desafiar a lentidão das noites

Onde cresce uma tosse amarga

Que fala de vinho e ausência

Que engole a luz das cidades

Com uma raiva cíclica

Como se fosse um cometa de âmbar

A desafiar a perenidade da alma.

Portão de água

Na pálpebra penetrante dorme o azul longínquo

Margem feita de um dialecto estranho

Como um hibisco de tempo a desafiar o vazio.

 

Na planície de vento pássaros escorrem pela poeira

Rota de caravana plantada nos pés dos caminhos

Ali...uma sombra onde descansa o ventre do medo

Mais além...umas mãos sem idade.

 

É tarde...os punhos cerram-se numa palavra colossal

Dentro das mãos

Há uma alameda sem vontade de ver a noite

Dentro das mãos acordam várias perguntas

Como descer da varanda

Que dá para os dias sem idade?

Como enfeitar a pilastra de escolhos

Que floresce nas margens da luz?

Como beber a sombra açucarada

Dos meus destroços?

 

Na nítida noite uma sebe caminha pelo espaço branco

Avança para lá de todas as sombras

Onde alguém se mostra

Fechado... no interior de si mesmo.

 

Jardim fulminante

Portão de água...muro comovente

Talude que cresce no fumo do futuro

Deixa-me enroscar nesta brisa de veludo...e...

Adormecer como uma pedra redonda

De rosto voltado para a saturação do céu.

A perfeição do dia

Bailam nos meus olhos imagens vazias

Como coisas sem utilidade

Vazias...como fotos de vidas

Guardadas em rugas estafadas

 

Cidade de pedra e segredo

Degredo escondido num friso de tempo

Que nos enche os vincos dos olhos

Com transparências de solidão e prata

 

Há uma profundidade mágica

Na janela de um soluço

Há um descolorir de gestos e vento frio

Que acompanha os degraus

Por onde sobem as ruas dos séculos

Até desaguar em lendas rotas

Que transpiram segredos

 

Corro em bicos de pés

Como um fim de tarde abstrato

Os meus pensamentos demoram-se

Na perfeição do gelo

Do pó ergue-se

A música fantástica de uma harpa em flor

E eu assomo ao dia

Com os meus olhos gelados.

Se basta um rosto

Opaco ser…refúgio de tempo

Dias escorrendo pela palma da mão

Vê como se ajoelham na árida pedra

Desejo de vento…miserável ventura

Planar sobre os icebergues

Abocanhar os grandes retratos

Túnica divina…solitário silêncio

Pastor do fogo onde tudo começa

Chaga que a alvorada ilumina

Fluente desolação…delírio ondulante

Carregar a lenha…flutuar no álcool

Ideia de luz…obscuro saber

Que importam as letras

Que importam as pedras e os candelabros

Se basta um rosto

Se não basta uma dor

Se tudo é uma raiz a crescer na alma

Então o amor é a videira

Que entrançada no flanco infinito do ser

Frutifica em cada ciclo da vida.

Para que o amor se encontre

Refluxo de tempo

Eco escondido a desafiar

A petrificação do delírio

Rito amargo de mendigo decadente

Profeta de fornalha

Sangue puro em brasa

Gota de febre a queimar as lágrimas

Peregrino de memórias

É preciso um corpo aberto

É preciso uma cinza amarga

E o asfalto a inclinar-se para o inferno

E uma sombra de fogo a mostrar um belo gesto

Para que o amor se encontre

No centro do mundo.