Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

A flor mais alta

É inútil perguntar o que faço aqui. É inútil embarcar ou desembarcar. Há um tédio em cada pingo de chuva. E um triunfo em todo o absurdo. O que é o mesmo que dizer que há uma vitória em cada caco de vida.

 

O mundo pode-nos cansar. As ideias também. Mas as coisas inúteis são o meu maior cansaço. As coisas e as pessoas. Em que direcção gira o tempo? Se é que gira. É próprio das pessoas girarem com o tempo. Agarrarem-se a ele como quem passa ao lado de uma tempestade. E esperar. Esperar pela próxima primavera. Esperar por um sítio onde sejam outra vez pessoas. Esperarem pelos frutos de uma tarde sem história. Ah...e também desesperarem.

 

Mas há sempre um movimento a sair da algum lado. A atravessar-se no nosso caminho. Há sempre uma chuva que nos molha a nostalgia. E uma mágica reconstrução de nós a cada momento. Erguida as emoções. Instaladas as palavras. Podemos poupar as nossas aflições. Podemos mesmo aproximar-nos da indiferença como quem se acolhe a uma ilha cheias de esquinas que não queremos dobrar. Os nossos horários passam a não ter horas. Somos agora nómadas. Inviáveis e decididos a calar bem fundo a nossa condição de vagabundos ou eremitas. Até que em nós habite a flor mais alta. A flor que colhemos numa manhã de março...coberta de geada.