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folhasdeluar

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A órbita dos dias

Os homens perderam o seu lugar nas ruas. O homem perdeu o eco dos seus passos. O dia arrefeceu. O dia transformou-se em vento. As árvores florescem. Os pássaros cantam. As águas do rio ainda brilham. Há um vasto silêncio a pairar sobre a angústia. As andorinhas constroem ninhos nos meus olhos. Os pardais constroem ninhos no telhado em frente. Tudo é tão natural. Tudo é tão igual ao que sempre foi. Mas nós não. Nós sentimos a clausura dos dias. Sentimos o eriçar da alma. Sentimos as ruínas do que pensámos ser certo. Estamos perdidos em pleno deserto. Estamos debaixo de céus encobertos. Pica-nos o restolho do medo. Consome-nos um extraordinário flagelo. Que desenhos nos sulcam o rosto? Que frio nos alvoroça a pele? Que desesperos pintam os céus? Manhãs de nada. Olhos de nada. Parcelas de nós a imolar sorrisos. A órbita dos dias desapareceu. Resta-nos a sofreguidão de que tudo isto passe.

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