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folhasdeluar

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Causas para a tirania na Rússia

Um povo que não sente a própria servidão, é necessariamente tal que não concebe a mínima ideia de liberdade. Todavia, como a absoluta falta desta ideia inata não provém dos indivíduos mas de circunstâncias inveteradas que acabaram por extinguir neles toda a primitiva luz da razão natural, a humanidade exige que nos compadeçamos do seu erro e não os desprezemos inteiramente, ainda que sejam desprezíveis. […] Por isso entendo que esses povos mais se devem lastimar que odiar ou desprezar, visto que, sem o saberem são inocentemente réus do crime de serem escravos, do qual bem catigados estão. Todo o ódio, todo o desprezo , e se algum houver mais afrontoso e feroz, deve o pensador dirigi-los contra essa pequena classe de homens que não sendo estúpidos nem ineptos, e não podendo ignorar que são escravos na tirania, negam descaradamente a verdade e se atraiçoam a si e aos mais, correndo à porfia a bajular, honrar e defender o tirano, e sendo os primeiros a oferecer o seu jugo a cerviz infame; e isto com a única condição de que por eles seja dobradamente agrilhoado e oprimido o mísero e inocente povo. […] e é que da mesma fidelidade, cegueira e obstinação com que povos na tirania combatem pelos seus tiranos, se deve inferir que outros tantos ou maiores esforços fariam pela liberdade, se chegassem um dia a consegui-la e se , em vez do nome do tirano, desde o berço, lhe houvessem religiosamente ensinado, como coisa sagrada, o de república.[...] Como prova disso, observe-se que sempre que o tirano excede aquilo que a estupidez humana pode tolerar, o primeiro, ou antes, o único a ressentir-se das extremas injúrias é sempre o mais baixo povo, o qual, na sua plena ignorância, o tem todavia por um deus; e ao contrário, os últimos a ofenderem-se, ainda que sejam muito injuriados pelo tirano, são sempre os da mais alta classe, não obstante estarem convencidos de que ele é muito menos que um homem.”

 

Este texto actualíssimo é baseado no Tratado da Tirania e foi escrito pelo Conde Vittorio Alfieri em 1777. Alfieri passou por Lisboa em 1770-1771

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