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folhasdeluar

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Comoções

Nota prévia: hoje encontrei na rua alguém que muito estimo e não resisti a publicar este texto.

Hoje encontrei-a na rua e ela disse-me . - já só desabafo com o espelho! Doía-lhe a perna. Ou seria a dor da solidão a acrescentar a dor à perna? Como podemos compreender a cinza que cada um tem dentro de si? Há tanta teologia nuns olhos vagos.

Dentro de cada um está uma superfície e um rasto. Um sofismo ou um espasmo. É a idade a flutuar nuns cabelos brancos. Pintados de louro. Onde assomam algumas raízes brancas. São as raízes da desordem interior. São a contemplação da dissolução do que foi belo. O medo transfigura a luz. A realidade é um instante dissolvido nas tardes. Tem que haver alguma glória na vida! Tem que haver alguma Razão na grandeza da vida. Mas...já só desabafo com o espelho! Esta frase diz-me como tudo acontece. E o meu pensamento enche-se de desertos. Rio-me para ela. Rio-me para disfarçar a secura que um dia virá. Secura de todas as coisas que mesmo com um espelho...desaparecerão. Rio-me para disfarçar o gelo que oculta o meu riso. E ela...já só desabafo com o espelho! E para além da complexidade e da simplicidade de tudo o que é absurdo...encontro uma subtileza em cada palavra. E sinto a brutalidade da pequeníssima lágrima que lhe assoma aos olhos. E sinto a nodosa brutalidade da vida a desnudar-se naquele sorriso triste. E eu..ali...em frente a ela. Eu ali...a alimentar a minha fome de compreender a imperfeição da vida. E ela...quase diáfana. Quase imaterial. Quase longe. Ela aflita. Será a minha última dor? Será que ainda terei mais dores? E tudo isto dito num tom de perfeita sintonia com a dor. Tudo isto dito com uma comoção de quem sabe tudo...o que virá.

 

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