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folhasdeluar

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Confissão

Andava por aí a brincar com os dias tristes. Tinha numa mão a poesia e na outra uma interrogação. Seguia a rota das interrogações. Sabia que a primeira estrela chega para encher a noite. Que o primeiro raio de sol explode no vazio. E que o primeiro nome das coisas começa com um sorriso tímido. Sabe que o mundo tem uma face distorcida. Sabe que por vezes os sonhos são traições. E também sabe que a fonte das lágrimas não pode secar. Que seria de si sem lágrimas? Que seria de todos nós se as lágrimas secassem? Chegamos ao mundo para subir montanhas e calcorrear estradas. Para descobrir que nunca descobrimos a Verdade. Para descobrir que também podemos inventar a Verdade. E sermos mais nós. E sermos mais sãos. E crermos num futuro que fatalmente nos vai atraiçoar. Mas também podemos atraiçoar um futuro que fatalmente não será nosso. Rir. Ver a prata da lua nas searas. E escolher o dia do seu nascimento. Do seu renascimento. O dia em que qualquer pergunta esconde uma vontade de nada perguntar. Ser. Apenas ser. Ser-se. Enquanto o tempo se escoa pelas calhas dos prédios. Enquanto a chuva escorre pelo molhe da alma. Enquanto os candeeiros se acendem e alumiam o deserto dos becos. E a física das sombras tece enigmas intermináveis. Andava por aí a brincar com as palavras. Queria dizer aquela palavra que não saía. A esquecida. A intolerável. Aquela que enchia os regatos da vida. A palavra-temporal. A palavra-flor. A palavra arrancada de dentro. A palavra normal. Cheia de riso e de chuva. A palavra devoradora da obscuridade. Sem tempo nem hora. Nem vendaval nem tristeza. Apenas uma palavra. Qualquer uma...que o fizesse sentir aconchegado aos dias. E...na rua...esperava por alguém a quem a pudesse confessar.

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