Deixo a marca dos meus pés
Deixo a marca dos meus pés na orla dessa poalha cansada de ter fome de tempo
Acredito na cobardia dos sítios que os relógios esquecem
Sobretudo sei que há um pedaço de existência na ferida aberta no ventre da terra
E sei que toda a gente é uma estrada que não conduz a nenhum lugar
Insólitas aves revolteiam no branco fulgor das paisagens...
Resplandecentes frios dormitam na imanência farta das janelas
Há uma nova sombra a dormir no rosto cansado dos arvoredos
Um novo pensamento a cair de cada boca escancarada
E uma vaga selvagem que de mangas arregaçadas se atira sobre o êxtase do vento
Numa serena manhã que me separara dos problemas das pedras
Há um nevoeiro que se encontra comigo a cada esquina
Há um livro em cima de uma cadeira que já não o suporta
Há uma resignação que ronca aos pés do lume
Como um âmago de pura cortesia entalada numa palavra de lata
Vejo que o mar é azul e o sol um anjo cáustico...
O pensamento reside na profundidade dos dias como algo que se desvanece nos gestos do mar
Gostaria de espargir o meu corpo pela amnésia dos sulcos da terra
Gostaria de me derramar pelo timbre de uma flauta de fogo
E gostaria de cerrar os punhos quando me perco na ambiguidade das ilhas sulfúricas
E gostaria de dizer à memória que as folhas do inverno deixam marcas na pele.
Para sempre!