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Dias de chuva

12e4e14928ef4ce7961f1f85213812ad.jpgCréditos Eduard Gordeev

Em dias de chuva gostava de caminhar sozinho pelas ruas da cidade. Coleccionava as gotas de chuva que lhe caíam na alma. Era o seu encontro face a face com a subtileza dos dias cinzentos. Extasiava-se com os ramos das árvores sem folhas. Apreciava a palidez da calçada. Lugar de rumos secretos. Lugar de murmúrios e de miragens. Os outros eram mistérios a subir e a descer as ruas. Tinham furtivas vidas que se desfaziam ao passar por ele. Entre ele e os outros havia um corredor de sombras. Uma folhagem de sentimentos que desconhecia. Que os outros também desconheciam. Ele era como o vento que escorre pelas ruas. Ele era como a maresia que sopra do mar. E sentia nesses dias de chuva o perfeito acorde da alma. A perfeita extensão do seu silêncio. O encontro selvático com os perfumes do mundo. Sentia que era um grito a ecoar na perfeição de um momento único. Em que ele existia. A chuva existia. Os outros existiam. E que tudo junto era a profunda exalação da Vida. E tudo junto era o extenuado mistério que faz tombar o céu. E tudo junto era o imenso areal solitário onde foram plantados pequenos canteiros de pessoas. E onde o peso dos fantasmas se acoita tornando opacos os desertos.

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